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Journal d'un curé de champagneÀ pequena aldeia de Ambricourt, chega um jovem e muito idealista pároco (Claude Laydu). Impondo-se uma vida de quase ascetismo, inspirada por Cristo, o pároco alimenta-se apenas de pão e vinho, vivendo sem quaisquer confortos, o que gera desconfiança na comunidade, da catequese aos adultos. Tal não o impede de tentar interferir, sem sucesso, na vida da família aristocrata local. Decidido a narrar a sua experiência num diário, o padre conta da sua luta para ser reconhecido pelos paroquianos, e como vê todos os revezes como testes à sua devoção, enquanto é afligido por fortes dores de estômago que o levam a desfalecer em público em várias ocasiões.

Análise:

Adaptado do livro de Georges Bernanos (publicado em 1936), “Diário dum Pároco de Aldeia” foi o primeiro verdadeiro filme de pós-guerra de Robert Bresson, e aquele onde o realizador iria impor, pela primeira vez, o estilo que o tornaria inconfundível, seco espartano, e com actores não profissionais, e por isso mesmo trabalhados para serem bastante inexpressivos. O filme foi algo criticado pelo afastamento em relação ao livro que lhe deu origem, optando por ser elusivo onde o romance era mais empenhadamente envolvido.

“Diário dum Pároco de Aldeia” conta a história de um jovem padre (Claude Laydu) que recebe uma nova paróquia, na modesta aldeia de Ambricourt. Decidido a escrever um diário que marque o seu caminho de devoção, cedo, o pároco se sente mal recebido, seja na catequese, onde as raparigas troçam dele, seja na falta de vontade dos paroquianos em ajudá-lo. Com uma dieta austera de pão e vinho, a desconfiança alastra, e mesmo os superiores o acham demasiado asceta. O pior chega quando o pároco se imiscui na vida do aristocrata local, um conde (Jean Riveyre), que mantém a governanta, Miss Louise (Nicole Maurey) como amante, perante o olhar complacente da condessa (Rachel Bérendt), e a raiva da filha Chantal (Nicole Ladmiral), cujas idas à igreja e a confissão de contemplar o suicídio preocupam o pároco. A condessa morre pouco depois, e Chantal culpa o padre, o qual era já odiado pelo conde e por Miss Louise. Com os problemas abdominais a agravar-se, o padre vai ao médico e é-lhe diagnosticado um cancro no estômago, após o que se retira para os cuidados de um ex-colega de seminário, que agora é boticário e vive com uma mulher. Mas todos os cuidados são poucos e o padre acaba por morrer em casa do amigo.

Em tom completamente confessional – o filme inicia-se com a declaração do protagonista de escrever um diário onde anotará os passos da sua devoção –, “Diário dum Pároco de Aldeia” é a leitura das palavras escritas pelo dito pároco, com inúmeros inserts da sua escrita, e voz off, onde a acção surge como ilustração dessas leituras. Através delas vamos conhecendo o dia-a-dia do jovem pároco na sua nova (primeira?) paróquia. Desde logo se destaca a devoção que o leva a renunciar a qualquer forma de prazer carnal, visível no modo como escolhe a sua dieta, o mais pobre e monótona que se possa imaginar, onde pouco mais entra que pão e vinho.

Visto com alguma desconfiança pelos seus paroquianos – dos meninos da catequese que gozam com ele, aos prestadores de serviços que não querem facilitar –, o pároco vai-se aconselhando com os seus colegas mais velhos, como o padre de Torcy (Adrien Borel), mas mantendo-se inamovível numa vontade férrea de não se desviar um milímetro do seu caminho, que é o da abstinência e completa devoção. Tal leva-o a imiscuir-se na vida do aristocrata local, um conde que mantém uma amante, perante o olhar complacente da condessa, e revolta violenta da sua filha. O padre não aceita o adultério, é por isso ameaçado pela amante do conde, visto com desprezo por este, e mesmo pela condessa que era feliz na paz podre de uma relação a que fechava os olhos, e por fim, incompreendido pela filha do casal, que vê nele um causador de desgraça, sem capacidade de trazer uma solução. As suas sucessivas tentativas acabam toldadas por problemas físicos e o diagnóstico de um cancro no estômago, que ele atribui à fraqueza da sua fé, o que o leva a uma disciplina ainda mais austera, que culminará na sua morte.

Na temática que se tornaria habitual em Bresson, “Diário dum Pároco de Aldeia” é mais uma história de uma relação com o transcendente – aqui um padre na procura de concretizar de um modo absoluto a sua fé – com um protagonista que vê em cada desafio uma prova de superação, onde a força da devoção cega (que o faz ser visto como mais papista que o papa pelos seus superiores) se confunde com um orgulho onde a cegueira é, afinal, a da insensibilidade no tratamento dos seus paroquianos, colocando-se a si como centro da sua acção. Mesmo com o seu superior a dizer-lhe que um padre não se quer amado, quer-se sim temido e respeitado, o protagonista nunca consegue medo ou respeito, muito menos amor, pois para ele os outros são apenas um utensílio ao serviço da sua relação como Deus (a tal relação que se materializa na escrita de um diário).

Filmado de um modo espartano, em cenários naturais de grande simplicidade – os campos da aldeia, as casas e seus interiores –, tudo nos planos e fotografia transmite a tal austeridade procurada como um objectivo em si mesmo. Este é mesmo o primeiro filme de Bresson com um elenco de não profissionais (excepção feita ao papel da condessa e de Chantal), onde o uso extenso da narrativa (leitura de passagens do livro), em tom frio e distante, funciona, para Bresson, como um contraste de cores quentes e frias, tentando com essa frieza distante (num tom recitativo, longe do realismo mais estrito) aquecer diálogos e situações, de si cinzentas e neutras.

Essa busca constante de uma inexpressividade de emoções resulta num libertar de qualquer dramatismo, ou mesmo julgamento de valores, que pudessem ser traídos num olhar, expressão ou intonação. Nesse sentido, Bresson consegue uma obra que não precisa mostrar para fazer sentir ou questionar, onde tudo é austero, mas ao mesmo tempo rico. O elogiado minimalismo do filme (quer cénico, quer dramático), acabou por ser um dos seus trunfos, deixando a leitura aberta a interpretações (como pretendido por Bresson, aliás), sendo desde então visto como um exercício complexo e elusivo no que diz respeito à espiritualidade e relação do cristão com o Cristianismo.

Criticado na altura por ser lento, com demasiado texto e pouca acção, o filme de Bresson viria a ser elogiado grandemente por muitos realizadores – “Taxi Driver” (1976) é um exemplo dessa influência, assumida pelo realizador, Martin Scorsese –, tendo desde então muitas vezes servido de modelo a outras obras. “Diário dum Pároco de Aldeia” venceria o Grande Prémio do Festival de Veneza, e o Prémio Louis Delluc da Academia Francesa de Cinema.

Claude Laydu em "Diário dum Pároco de Aldeia" (Journal d'un curé de champagne, 1951), de Robert Bresson

Produção:

Título original: Journal d’un curé de champagne [título inglês: Diary of a Country Priest]; Produção: L’Union Générale Cinématographique; País: França; Ano: 1951; Duração: 115 minutos; Distribuição: L’Alliance Générale de Distribution Cinématographique (França), C. F. P. (França); Estreia: 7 de Fevereiro de 1951 (França).

Equipa técnica:

Realização: Robert Bresson; Produção: Robert Sussfeld; Argumento: Robert Bresson [a partir do romance homónimo de Georges Bernanos]; Música: Jean-Jacques Grünenwald; Fotografia: Léonce-Henri Burel [preto e branco]; Montagem: Paulette Robert; Direcção Artística: Pierre Charbonnier; Cenários: Robert Turlure; Direcção de Produção: Léon Carré.

Elenco:

Claude Laydu (Padre de Ambricourt), Jean Riveyre (Conde), Adrien Borel [como Andre Guibert] (Padre de Torcy), Rachel Bérendt [como Marie-Monique Arkell] (Condessa), Nicole Maurey (Miss Louise), Nicole Ladmiral (Chantal), Martine Lemaire (Séraphita Dumontel), Antoine Balpêtré (Dr. Delbende), Jean Danet (Olivier), Gaston Séverin (Canon (Le Chanoine)), Yvette Etiévant (Senhora de Limpeza), Bernard Hubrenne (Padre Dufrety), Léon Arvel (Fabregars), Martial Morange (Adjunto do Prefeito), Gilberte Terbois (Senhora Dumouchel).