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The VisitKarla Zachanassian (Ingrid Bergman) é uma antiga filha de Guellen, que há muito deixou para viver no estrangeiro. Agora, depois de se tornar milionária por morte do marido, Karla volta à terra natal, onde é recebida com pompa e circunstância por toda a nação. É que Karla prometeu ajudar financeiramente Guellen. Só que, à chegada, Karla revela que a sua ajuda tem uma condição. Esta é obter a condenação à morte de Serge Miller (Anthony Quinn), aquele que, na sua juventude, foi o único homem que amou, e que ao tê-la engravidado a abandonou declarando-a promíscua, para negar a paternidade e poder casar com uma mulher mais rica.

Análise:

Co-produção europeia para a Twentieth Century Fox, com uma equipa multinacional, e completamente filmado em Itália, “A Visita” é a adaptação de Bernhard Wicki da peça de teatro homónima, traduzida por Maurice Valency, a partir do original francês de Friedrich Dürrenmatt. Era também o regresso de Ingrid Bergman a Itália, onde vivera até poucos anos antes, com Roberto Rossellini, e a primeira de duas parcerias entre a actriz sueca e Anthony Quinn, aqui num filme que se falou ter sido pensado para a mais fogosa dupla de Hollywood de então: Elizabeth Taylor e Richard Burton.

Anos após ter deixado Guellen, Karla Zachanassian (Ingrid Bergman) vai regressar para uma visita, ela que é agora riquíssima e prometeu parte da sua riqueza para ajudar nas dificuldades do país. Por isso, prepara-se uma cerimónia de acolhimento, e até ao seu antigo namorado Serge Miller (Anthony Quinn) é dito que compareça, e que talvez nem apresente a esposa. Se à chegada tudo parecem ser sorrisos, e Karla relembra o passado com nostalgia, cedo essa nostalgia se torna em amargura, quando Karla e Serge conversam e ela o lembra de como ele a abandonou grávida, denunciando-a como promíscua, o que a levou à expulsão, e consequente morte da filha, lançando Karla na prostituição em Trieste, até conhecer o homem com quem casou. Karla revela então à cidade que lhes dará o prometido dinheiro, sim, mas numa condição, a de julgar Serge pelos crimes contra ela, e o condenar à morte. Se a início a cidade se indigna, cedo os pesos tombam, e a morte de Serge é vista como um sacrifício necessário, que o próprio devia altruisticamente pedir. De um incidente que leva a disparos que quase são contra ele, até uma tentativa de fuga que a cidade não permite, chega-se ao impensável ódio contra Serge, mudança da lei e julgamento. A sentença é a desejada por Karla, que vai observando tudo com reconhecível prazer. Só que, no final, ela revoga a sentença, mantendo Serge vivo, para que nele, todos vejam a vergonha que foi venderem-se daquela forma.

Se a versão de Nova Iorque da peça “The Visit” foi um sucesso, com 189 apresentações, iniciadas em 1959, e nomeações a prémios Tony, o filme do mesmo nome é hoje como que uma pérola escondida na filmografia de Ingrid Bergman. Talvez pelo seu aparente baixo orçamento, o facto de ser uma produção mais assente na Europa que em Hollywood, mesmo que com a participação de Fox de Zanuck e filmado a preto e branco. Ou talvez mesmo por nele vermos uma Ingrid Bergman muito diferente do habitual: fria, vingativa, cruel e sádica (note-se como muitas das suas cenas a mostram observando de cima), mesmo que por vezes emotiva e dorida, como a história o justifica.

“A Visita” é, por isso, um filme pouco consentâneo com o que Hollywood procurava então ainda mostrar. Na história de uma mulher que perdeu tudo na forma como foi maltratada e escorraçada da sua cidade, mas que teve a sorte de se tornar (por casamento) multimilionária, e agora pode usar disso para exercer a sua vingança sobre todos, o filme é uma espécie de parábola sobre o quanto pode a ambição humana privá-la de valores. E nesse sentido, não é a maldade de Karla Zachanassian (a personagem de Bergman), mas sim a de todo o povo, que está em causa.

Passado num país fictício no centro da Europa (Guellen), que parece não ser mais que uma cidade, pobre por sinal, cada personagem de “A Visita” (do prefeito ao chefe da polícia, do advogado à amante do polícia) é uma personagem-tipo, e por isso, motivo de estudo. Colocadas face à hipótese de verem dinheiro chover no país, desde que condenem um homem à morte, as autoridades (e povo em geral) vão começar por se indignar, passando a procurar desculpas, decidindo culpar esse homem – Serge Miller (Anthony Quinn) –, por lhes dificultar a vida, para acabar por mudar a lei para incluir a pena de morte (para nunca ser usada, claro!), acabando num julgamento-fantoche que o condena à morte.

Só que não era a morte de Serge (o homem que ela amou, e a abandonou grávida, negando até ser pai da filha dela, só para casar com uma mulher mais rica) que Karla procurava. O que ela queria era ostentar a degradação de valores de toda Guellen, pronta a vender toda a sua moralidade e princípios por dinheiro fácil. É ao consumar isso que Karla obtém a sua vitória, amarga, é certo, pois dela nada traz consigo.

Mesmo que o filme de Bernhard Wicki nos mostre uma cidade, ruas, quartos, e até um passeio pelo campo, há uma tal unidade espacial que quase julgamos, ao terminarmos o filme, que estivemos numa sala de teatro. Essa «pequenez» de espaço é propositada para conferir um maior grau de opressão, numa claustrofobia latente, como se vê em exemplos como a captura do leopardo que se torna quase uma caçada ao homem; a tentativa de fuga de Serge, que acaba emparedado por toda a população, que nessa altura já o vê como inimigo; e o julgamento, que ao ser ao ar livre, faz com que todo o cenário exterior pareça uma sala pequena, tal a clausura em que sabemos que Serge se encontra (note-se como nem a esposa o defende, e se a início teme por ele, logo se percebe que é apenas pela sorte de um filho órfão que teme, algo que ultrapassa facilmente quando depara com as riquezas que a esperam).

De notar, por fim, que na peça original, ao contrário do que acontece no filme, Serge morre mesmo.

Quinn e Bergman foram também produtores num filme que sentiram ser daqueles que marca carreiras. Estranhamente, o filme passou despercebido, embora Bernhard Wicki tivesse sido nomeado à Palma de Ouro em Cannes.

Ingrid Bergman em "A Visita" (The Visit, 1964), de Bernhard Wicki

Produção:

Título original: The Visit; Produção: Cinecittà/ Dear Film Produzione / Deutsche Fox AG (Defa) / Les Films du Siècle / Productions et Éditions Cinématographique Français / Twentieth Century Fox; Produtores Executivos: ; País: Itália / França / República Federal Alemã / EUA; Ano: 1964; Duração: 96 minutos; Distribuição: Twentieth Century Fox; Estreia: 6 de Maio de 1964 (Festival de Cannes, França), 24 de Agosto de 1964 (Espanha).

Equipa técnica:

Realização: Bernhard Wicki; Produção: Julien Derode, Anthony Quinn, Ingrid Bergman [não creditado], Darryl F. Zanuck [não creditada]; Produtor Associado: ; Argumento: Ben Barzman [a partir do guião da peça homónima de Maurice Valency, traduzida do original francês de Friedrich Dürrenmatt]; Música: Richard Arnell, ans-Martin Majewski; Direcção Musical: Richard Arnell ; Fotografia: Armando Nannuzzi [preto e branco]; Montagem: Samuel E. Beetley, Françoise Diot [não creditada]; Design de Produção: ; Direcção Artística: Léon Barsacq; Cenários: ; Figurinos: René Hubert, Nina Ricci; Caracterização: Franco Freda, John O’Gorman; Efeitos Especiais: ; Efeitos Visuais: ; Direcção de Produção: Attilio D’Onofrio, Christian Ferry [não creditado].

Elenco:

Ingrid Bergman (Karla Zachanassian), Anthony Quinn (Serge Miller), Paolo Stoppa (Médico), Romolo Valli (Pintor), Claude Dauphin (Advogado Bardick), Jacques Dufilho (Agente de Polícia Fisch), Hans Christian Blech (Capitão Dobrik), Richard Münch (Professor), Ernst Schröder (Prefeito), Leonard Steckel (Pároco), Valentina Cortese (Mathilda Miller), Irina Demick (Anya).