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"Debaixo da Pele" (Under the Skin, 2013), Jonathan Glazer

Filmes da Mente

por Edgar Ascensão
autor do blogue Brain-Mixer
e da iniciativa Posters Caseiros

Começamos um filme, as imagens vão fluindo, uma narrativa surge e constrói-se uma história sequencial. Ainda assim, por vezes confuso? Entrou no domínio dos mind fuck movies.

Abre-se uma porta, abre-se uma mente. A caminhada pode ser uma escalada, longa e sinuosa, mas se tiver pernas para tal, acabará a viagem com os neurónios regalados. Há espaço para todos, mesmo como puzzles ingratamente complexos.

Inconclusivos (os melhores), deixam vida ao filme para além dos créditos finais. Fala-se nele depois, discutem-se opiniões, divaga-se em teorias. Teorias pessoais, ou reunindo vários pontos de vista que “agora que entendi aquele detalhe, já faz mais sentido”. Poder-se-ia dizer isso de “Under the Skin”… Andamos ali a descodificar imagens, a entender mensagens «subliminares», mulheres alienígenas ou humanos alienados. Afinal é tudo farinha do mesmo saco, sabemos que pouco nos diferencia das bizarrias incompreendidas. Ou mesmo de outro filme do mesmo ano, “Enemy”, adaptado de Saramago, com dois seres idênticos, duas vontades diferentes. É um confronto emocional que dá asas aos nossos medos mais profundos.

Denis Lavant em "Holy Motors" (2012), de Leos Carax

Não minto quando digo que gosto de ver estes filmes complicados. Absurdos, há quem os chame. Mas são essencialmente desafiadores. Poderão não ser obra-prima para todo o gosto, mas serão pelo menos incómodos e dão que falar para quem lá tem tempo para os ver. Se os descobrirem primeiro, lá está. Porque eles gostam de se esconder com rabo de fora.

O filme “Holy Motors” tem tudo isso. O desconhecimento dele existir, a desconfiança quando é achado. Mas lá vem a explicação de que é uma excêntrica metáfora à indústria do cinema, compacto de uma vida de actor. Traduz a imortalidade atingida graças à 7ª arte e o apontar o dedo à morte do cinema tradicional (diga-se película, clássica câmara de filmar). A Santidade desses motores (fílmicos) conjugam-se no título, querendo imortalizar e dignificar esse estatuto. E um autêntico nó chamado “Réalité”. Um nó cego. Uma matriosca infinita, na qual a última figura de certa forma contém a primeira. Dupieux já nos ia dando enxaquecas desde “Rubber” (ainda o meu favorito do autor) e com “Wrong” confirmava que a estranheza satírica era para manter como sua imagem de marca. A auto-crítica está sempre subjacente, não se importando com os danos colaterais de chamar o próprio espectador de estúpido ou gozar na nossa própria cara. As metáforas estão lá todas. Só precisamos de engolir, entender e rirmo-nos de nós próprios. É a sua essência.

Pés na terra? Vá, sirvam-se de histórias banais que são modificadas a seu bel prazer pelo seu realizador. Boy meets girl? Porque não? Desde que o ponto de interrogação seja o filme em questão. Há que lhe dar um flip-down original e romper com óbvios lugares-comuns. Venham de lá os quebra-cabeças.

Shane Carruth e Amy Seimetz em "Upstream Color" (2013), de Shane Carruth

“Upstream Color” vem pela mão de Shane Carruth, realizador catedrático em argumentos labirínticos. Com apenas dois filmes no bolso, mandou tudo para a escola do «Saber». Saber criar relações com o tempo e a forma. Tempo esse também cultivado e transformado com o seu primeiro filme, hoje de culto(íssimo), que é “Primer”. O seu segundo tem também «Saber» unir dois estranhos e fazê-los amar através de acasos do destino e manipulações desse mesmo destino, interferindo no verbo Amar.

Será que amar é assim tão maleável? Para Michel Gondry é indestrutível. Eles, com uma proximidade que os une, também simbiótica e fatalista. Se em “Eternal Sunshine of the Spotless Mind”, as paixões degradantes seriam objecto olvidável, em “L’écume des Jours” são sólidos que nem o eterno, onde a degradação toma conta do seu destino, apesar de um amor profundo entre o casal. Por entre maluquices visuais e uma verdadeira tragédia grega, a criatividade da mente cria um novelo de ideias à novela da vida.

Ver quando os encontramos. Rever quando os amamos. E claro, porque nos deram aquele nó na cabeça. Os filmes que marcam para sempre e são sublinhados bem forte quando ganham força num revisionamento

Imagem de "O Último Capítulo" (The Fountain, 2006), de Darren Aronofsky

“The Fountain”, três viagens para um inclassificável ovni do cinema, percorrendo séculos históricos para terminar num último capítulo, último destino e fim de vida. Aronofsky queria imortalizar o amor de um homem e uma mulher, cruzando-os nas entrelinhas do Tempo. Labirinto do tempo, da realidade, da mente, é também “Paprika”. Anime de quem fez “Perfect Blue”, sabe partir a cabeça, esse Satoshi Kon. Queriam aglutiná-lo a “Inception”, esse (eficaz) blockbuster de Nolan, mas “Paprika” é mais. Mais louco, mais experimental, mais sonhador. E é também menos, menos quatro anos que “Inception”, dando-lhe o relevo cinematográfico e importância como obra pioneira neste estudo dos sonhos repartidos na realidade.

Sonhamos com eles, os filmes. Sonhamos e desejamos encontrar outros tão bons e inesquecíveis quanto os citados. A nossa mente cria raízes nessas obras. A nossa mente cria outros sonhos, que nos fazem escrever sobre eles, para um dia outras mentes concordarem com a nossa.

Filmes recomendados:
• “O Homem Duplicado” (Enemy, 2013), de Denis Villeneuve
• “Debaixo da Pele” (Under the Skin, 2013), Jonathan Glazer
• “Holy Motors” (2012), de Leos Carax
• “Réalité” (2014), de Quentin Dupieux
• “Upstream Color” (2013), de Shane Carruth
• “A Espuma dos Dias” (L’écume des jours, 2013), de Michel Gondry
• “O Último Capítulo” (The Fountain, 2006), de Darren Aronofsky
• “Paprika” (Papurika, 2006), de Satoshi Kon

Imagem de "Paprika" (Papurika, 2006), de Satoshi Kon