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AccattoneVittorio (Franco Citti), conhecido como Accattone (calão para pequeno meliante), vive nos subúrbios de Roma, numa vida de preguiçoso ócio, como chulo, explorando a namorada Maddalena (Silvana Corsini), enquanto passa o tempo com os seus companheiros. Mas quando Maddalena é maltratada por elementos de um bando rival, por ter denunciado um dos seus, la acaba na prisão, Accattone sem meio de subsistência. Cedo encontre substituta na inocente Stella (Franca Pasut), que tenta arrastar para a vida de prostituição. Mas nem tudo vai correr como Accattone planeia.

Análise:

Se há filme que condensa a geração que aqui chamamos “Filhos do Neo-realismo”, esse filme é “Accatone”, um filme de transição entre a estética que dominava o cinema de autor italiano dos anos 40/50, e o cinema de cariz mais pessoal que se seguiria. Foi nele que se estreou, como realizador, Pier Paolo Pasolini, tendo ao seu lado como assistente, Bernardo Bertolucci, que viria a ser um dos nomes fortes da sua geração. Poeta, dramaturgo, ensaísta, Pasolini já colaborara por duas vezes com outro nome grande da geração, Federico Fellini, em “As Noites de Cabíria” (Le notti di Cabiria, 1957) e “A Doce Vida” (La Dolce Vita, 1960), este último, um filme com o qual “Accattone” é às vezes comparado.

Com um pé no Neo-realismo, Pasolini firmava desde logo algumas das características do seu cinema, como o uso de actores não profissionais, o tema da pobreza, e os personagens eternamente perdedores e párias da sociedade. É esse o exemplo de Vittorio, dito Accattone (Franco Citti), palavra do dialecto romano (do italiano “accattare”) aplicado a vagabundos ou pedintes, pessoas que estão à espera que algo lhes caia no colo, preparados para optarem por esquemas ilegais para obterem o que querem.

Mais concretamente, Accattone é um chulo, explorando a esposa Maddalena (Silvana Corsini), e vivendo sem fazer nada, no ócio com amigos iguais a si, ainda por cima culpando-a de ela não lhe ter permitido seguir uma mais frutuosa carreira de assaltante. Mas um dia, o bando de um bandido que Maddalena ajudou a denunciar encontra-a e, depois de abusarem dela, nos desacatos, Maddalena acaba presa. Sentindo-se perdido, Accattone reconsidera a sua vida, e tenta reencontrar a mãe do seu filho, mas acaba escorraçado. Cedo, porém, Accattone encontra quem a bela Stella (Franca Pasut), que ele seduz para uma vida que lhe promete mais dinheiro, e que ela aceita por se enamorar dele. Só que, aparentemente inocente, Stella, não consegue prostituir-se, e Accattone acaba por tentar trabalhar para a sustentar, acabando por voltar ao crime. É durante um golpe que corre mal que Accattone foge numa moto, acabando por ter um acidente e morrer.

O que mais chocou os espectadores de “Accattone” quando o filme estreou, foi o regressar a temas negativos de um realismo deprimente, que mostravam camadas sociais desfavorecidas, mas acima de tudo, marginais, apostadas a viver nas franjas da sociedade, dispostas a todos os pequenos recursos ilegais que lhes garantissem mais um dia de sobrevivência. Não há em “Accattone” o sentido trágico-social que podemos ver em “Roma, Cidade Aberta” (Roma città aperta, 1945), de Roberto Rossellini, ou de “Ladrões de Bicicletas” (Ladri di biciclette, 1948), de Vittorio de Sica, onde os acontecimentos transcendem os protagonistas, que deles são vítimas, representativos de toda a sociedade. Em “Accattone” não são merecedores da nossa piedade, e são até – isto já nos anos 60 –, um lado da sociedade que se prefere esquecer e mesmo negar.

Na base do filme está o actor Franco Citti – que seria elogiado internacionalmente por este papel –, compondo uma personagem que não é boa nem má, é apenas alguém que se vai deixando levar ao sabor da corrente que é a do menor esforço, vias fáceis, e amigos pouco recomendáveis. Pai separado, sem ligação à vida anterior, e com remorsos que rapidamente se esgotam num copo de bebida, o seu Accattone vive de explorar as suas mulheres que empurra para a prostituição como algo natural, numa vida que nunca conheceu alternativa. Esse cair no óbvio que é a vida do pequeno delito é a marca de toda a história, como uma tragédia em si mesma, por não antever qualquer possibilidade de escape, seja por imposição social ou por inépcia dos intervenientes. De uma forma ou de outra, o que fica é um retrato deprimente de uma parte da sociedade italiana, que mostra o quanto há de desigual e criticável na Itália do pós-guerra, e mostra ainda a propensão de Pasolini para lidar com temas difíceis, de cariz social e personagens proscritos, com camadas escondidas, e um simbolismo muito próprio que tanto pode ir do homo-erotismo como à iconografia católica e música religiosa.

O filme foi atacado pelos neo-fascistas, com recontros violentos nalguns cinemas, num prenúncio do que a vida artística e posições politico-sociais de Pasolini lhe trariam durante toda a sua vida.

Franco Citti em "Accattone" (1961), de Pier Paolo Pasolini

Produção:

Título original: Accattone; Produção: Arco Film / Cino del Duca; País: Itália; Ano: 1961; Duração: 107 minutos; Estreia: 22 de Novembro de 1961 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Pier Paolo Pasolini; Produção: Alfredo Bini, Cino Del Duca; História e Argumento: Pier Paolo Pasolini; Diálogos Adicionais: Sergio Citti; Música: ; Orquestração: ; Fotografia: Tonino Delli Colli [preto e branco]; Montagem: Nino Baragli; Design de Produção: Flavio Mogherini; Cenários: Gino Lazzari; Caracterização: Cesare Biseo; Direcção de Produção: Marcello Bollero.

Elenco:

Franco Citti (Vittorio “Accattone” Cataldi), Franca Pasut (Stella), Silvana Corsini (Maddalena), Paola Guidi (Ascenza), Adriana Asti (Amore), Luciano Conti (Il Moicano), Luciano Gonini (Piede D’Oro), Renato Capogna (Renato), Alfredo Leggi (Papo Hirmedo), Galeazzo Riccardi (Cipolla), Leonardo Muraglia (Mammoletto), Giuseppe Ristagno (Peppe, o Louco), Roberto Giovannoni (O Alemão), Mario Cipriani (Balilla), Roberto Scaringella (Cartagine), Silvio Citti (Sabino), Giovanni Orgitano (Scucchia), Piero Morgia (Pio), Umberto Bevilacqua (Salvatore), Franco Bevilacqua (Franco), Amerigo Bevilacqua (Amerigo), Sergio Fioravanti (Gennarino), Adele Cambria (Nannina), Adriano Mazzelli (O Cliente de Amore), Mario Castiglione (Mario), Dino Frondi (Dino), Tommaso Nuovo (Tommaso), Romolo Orazi (Sogro de Accattone), Massimo Cacciafeste (Cunhado de Accattone), Francesco Orazi (Burino), Mario Guerani (O Comissário), Stefano D’Arrigo (Juiz de Instrução), Enrico Fioravanti (Agente), Nino Russo (Agente), Edgardo Siroli (Louco), Renato Terra (Louco), Emanuele Di Bari (Sor Pietro), Franco Marucci (Franco, Amigo de Accattone), Carlo Sardoni (Carlo, Amigo de Accattone), Adriana Moneta (Margheritona), Polidor (Becchino), Danilo Alleva (Iaio), Sergio Citti (Criado), Elsa Morante (Prisioneira).