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Prova d'orchestra Numa igreja medieval em Roma, uma orquestra reúne-se, como habitualmente, para mais um ensaio. Desta vez há uma câmara de televisão presente, enquanto se filma um documentário, e se entrevistam os músicos, os quais começam logo a tentar mostrar, por palavras, porque o seu instrumento é o mais importante de todos. Com todo o caos que se gera, intrigas e rivalidades entre músicos, e a forte presença do sindicado que vela para que não haja abusos laborais, o maestro mal consegue manter a ordem ou ser respeitado quando precisa de exigir mais trabalho e sacrifício aos músicos.

Análise:

Um dos filmes menos elogiados da carreira de Federico Fellini, >”Ensaio de Orquestra” é, tal como Fellini já fizera antes em “Os Clowns” (I clowns, 1970), um falso documentário, que acompanha um dia de uma orquestra clássica. Ironicamente este filme sobre música seria a última colaboração entre Fellini e o compositor Nino Rota, o qual morreria pouco depois.

Ao contrário daquilo que fora feito no filme de 1970, agora Fellini baseia todo o filme num único espaço, uma velha igreja do século XIII, pronta para ser demolida, e sala de ensaios da orquestra. Aí, uma câmara vai-se passeando entre os músicos, para agrado de uns e desagrado de outros, os quais vão respondendo a perguntas (feitas pela voz em off de Fellini) ou simplesmente falando a seu bel-prazer, muitas vezes interrompendo-se entre si, e digladiando-se de argumentos e histórias. À boa maneira felliniana, o filme cedo ganha uma estrutura solta, onde as intervenções de cada um se vão atropelando e intercalando sem grande critério.

Aos poucos desenha-se uma pequena história. Começamos por ver o velho caseiro (Umberto Zuanelli) dar o tom nostálgico do local, falando de memórias do passado. Vemos depois a orquestra chegar, começar a instalar-se, enquanto os músicos convivem entre si, olham desconfiados para a câmara e vão começando a interagir, contando histórias, nas quais tentam sempre mostrar a importância do seu instrumento na orquestra. Chega por fim o maestro (Balduin Baas) e começa o ensaio, mas este é conturbado, e quando o maestro exige repetições, o sindicado impõe-se e há uma rebelia dos músicos que não querem reconhecer a autoridade do maestro. Este decreta um intervalo, no qual os músicos convivem num bar, mas no regresso falta a luz. Vemos entretanto, de novo, o velho caseiro a contar histórias de maestros mais autoritários no passado, em que os próprios músicos pediam para serem dominados e castigados. Quando o maestro (e a electricidade) volta, a insurreição é geral, com gritos de ordem e palavras pintadas nas paredes e uma confusão que roça o orgiástico. O caos leva a disparos, mas tudo é interrompido com a destruição de uma das paredes da igreja. Este facto acalma todos, e submetem-se ao maestro que explica que só a música pode salvar. O ensaio decorre então pacífica e ordeiramente, com o maestro finalmente a impor-se autoritariamente.

Por um lado bastante directo, por outro perfeitamente alegórico, “Ensaio de Orquestra” torna-se um dos filmes menos elogiados e mais simples de Fellini. Sob o pretexto de acompanharmos um ensaio de uma orquestra, Fellini parece estar a mostrar-nos a vida de um país, e o modo como as cúpulas políticas o gerem. Nesse sentido, a orquestra pode ser vista como um parlamento, e o maestro como uma forma de poder, inicialmente fraco, permitindo o caos, no final, perante a desgraça, recebendo o voto de todos, e tornando-se um ditador, como o velho caseiro se lembrava de já ter visto no passado, e que termina num discurso que passa de italiano a alemão, e nos faz lembrar Hitler. Pelo meio temos as dissensões entre músicos, que passam principalmente por invejas e rivalidades, temos a desobediência, o papel dos sindicatos, e incapacidade de colaborar pelo bem (a música), que a nenhum parece interessar.

Deixando de lado a alegoria política, “Ensaio de Orquestra” é um filme experimentalista onde Fellini brinca com os formatos, e com os conceitos de espectador, actor, interveniente, ou por outras palavras de artistas e público. Interagindo com os participantes, dando-nos a ouvir a sua voz, fazendo-nos passar das ideias de puro documentário para história dramática, e incitando à quebra da quarta parede, “Ensaio de Orquestra” é um objecto cinemático de difícil categorização, onde o “descuido” com a má dobragem quer de vozes quer de instrumentos é uma afirmação dessa barreira entre encenação, real, significado e significante, e onde o papel da música passa então a algo mais abstracto, para não dizer mesmo espiritual.

Algo limitado, aparentemente sem grande sentido, e decerto de difícil degustação, “Ensaio de Orquestra” está longe de agradar mesmo aos fãs de Fellini, mas é mais um interessante olhar para o seu modo de contar histórias e de nos revelar um universo muito peculiar.

Balduin Baas em "Ensaio de Orquestra" (Prova d'orchestra, 1978), de Federico Fellini

Produção:

Título original: Prova d’orchestra; Produção: Daimo Cinematografica / RAI Radiotelevisione Italiana / Albatros Filmproduktion; Produtores Executivos: ; País: Itália / RFA; Ano: 1978; Duração: 69 minutos; Distribuição: Gaumont Italia (Itália), New Yorker Films (EUA); Estreia: Novembro de 1978 (Chicago International Film Festival, EUA), 9 de Janeiro de 1979 (EUA), 27 de Novembro de 1980 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Federico Fellini; Produção: Michael Fengler; Produtor Associado: Renzo Rossellini; Argumento: Federico Fellini, Brunello Rondi; História: Federico Fellini; Música: Nino Rota; Direcção Musical: Carlo Savina; Fotografia: Giuseppe Rotunno [cor por Technicolor]; Montagem: Ruggero Mastroianni; Design de Produção: Dante Ferretti; Cenários: Bruno Cesari; Figurinos: Gabriella Pescucci; Caracterização: ; Efeitos Especiais: Adriano Pischiutta; Direcção de Produção: Lamberto Pippia.

Elenco:

Balduin Baas (Maestro), Clara Colosimo (Harpa), Elizabeth Labi (Piano), Ronaldo Bonacchi (Contrafagote), Ferdinando Villella (Violoncelo), Franco Javarone [como Giovanni Javarone] (Tuba Baixo), David Maunsell (Primeiro violino), Francesco Aluigi (Segundo violino), Andy Miller (Oboé), Sibyl Mostert (Flauta), Franco Mazzieri (Trompete), Daniele Pagani (Trombone), Luigi Uzzo (Violino), Cesare Martignon (Clarinete), Umberto Zuanelli (Caseiro), Filippo Trincaia (Chefe de Orquestra), Claudio Ciocca (Sindicalista), Angelica Hansen (Violino), Heinz Kreuger (Violino).