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The Ten CommandmentsNo Egipto do Império Novo, no século XIII a. C., num momento em que um augúrio fala do nascimento de alguém que rebelará os escravos hebreus contra os senhores egípcios, o faraó Ramsés I decreta a morte de todos os recém-nascidos. Um dos poucos a escapar é um bebé lançado ao Nilo dentro de um cesto, e recolhido pela princesa Bítia (Nina Foch), a qual quer muito ter um filho, e a que chamará Moisés. Educado como um príncipe, Moisés (Charlton Heston) torna-se um dos preferidos do faraó Seti I (Cedric Hardwicke), e concorre para o trono com Ramsés (Yul Brynner), bem como para a mão de Nefretiri (Anne Baxter). Quem não pode aceitar ver um hebreu no trono é a criada Memnet (Judith Anderson), que vai contar a verdade a Nefretiri. Quando Moisés o descobre, tudo em si se altera, decidindo abandonar o conforto do palácio para viver com a sua gente. Tal vale-lhe a expulsão do reino por Seti. Mas no seu exílio no deserto, Moisés ouve a voz de Deus, que o faz voltar ao Egipto, para levar a Sua palavra, e ser o esperado salvador que libertará o povo escolhido.

Análise:

Em 1956, a Paramount Pictures, a produtora que, de certo modo, iniciara a moda dos épicos megalómanos baseados em história antiga, com “Sansão e Dalila” (Samson and Delilah, 1949) de Cecil B. DeMille, voltava com aquele que, segundo muitos, seria o pináculo do género: “Os Dez Mandamentos”, o último filme da longa carreira do mesmo DeMille. Era, não só, o afirmar da tradição bíblica que vinha inundando este género, com uma das suas histórias mais populares, mas ainda o regresso ao grande espectáculo do próprio DeMille. Afinal, ele, que fora quase um dos fundadores de Hollywood, com créditos de realizador desde 1914, e responsável pela primeira longa-metragem da história de Hollywood, “O Exilado” (The Squaw Man, 1914), era ainda conhecido pelas superproduções que dirigira e/ou produzira nos anos 20. Entre elas estava já uma versão de “Os Dez Mandamentos” (The Ten Commandments, 1923), um filme que se distingue do de 1956 por ter uma última parte passada em tempos contemporâneos.

Mas de volta aos anos 50, o remake de 1956 fazia agora uso, tanto da predisposição do público para os grandes épicos bíblicos, como dos novos meios técnicos, desde o aproveitamento do ecrã panorâmico VistaVision, à cor da Technicolor, passando por técnicas de efeitos especiais que iriam espantar os espectadores. Tudo isto numa superprodução envolvendo um vasto elenco de estrelas, centenas de técnicos, milhares de figurantes (mais de 14 000), animais (mais de 15 000), incríveis cenários ostentando gloriosos guarda-roupas ou props (como as aurigas de guerra), e filmagens onde se tentava recuperar a beleza do cenário natural, e as quais foram obtidas tanto domesticamente (Red Rock Canyon State Park, na Califórnia e Monument Valley, no Arizona), como no próprio Egipto, desde o Sinai a Luxor (antiga Tebas).

A meio caminho entre a reconstrução histórica (correcções e incorrecções coexistindo pacificamente) e o fervor religioso, DeMille conta a história de Moisés, do momento em que foi depositado num cesto no Nilo, para escapar à ira do faraó, sendo logo recolhido por Bítia (Nina Foch), filha do faraó Ramsés I, e estranhamente um nome não bíblico, que fez do bebé seu filho. Já adulto, Moisés (Charlton Heston) parece ser o preferido do novo faraó, o seu tio adoptivo, Seti I (Cedric Hardwicke), e da princesa Nefretiri (Anne Baxter). Isto para inveja de Ramsés II (Yul Brynner) o filho do faraó. Depois de exibições de devoção ao faraó e rivalidade fraternal, Moisés leva a dianteira na sucessão, enquanto Ramsés se preocupa em descobrir a identidade do desejado salvador do povo hebreu. É por intermédio da escrava de Bítia, Memnet (Judith Anderson), que a verdade chega a Nefretiri, e por ela ao próprio Moisés. Este não volta a ser o mesmo, querendo viver com o seu povo e perceber o seu sofrimento. É então que, através de Datã (Edward G. Robinson), um hebreu a soldo de Ramsés, a verdade chega a Seti I, que perante a recusa de Moisés em renegar a sua herança, o expulsa do Egipto.

Começa então o segundo acto da vida de Moisés, no deserto, salvo pelas filhas de Jetro (Eduard Franz) e casando com Zípora (Yvonne De Carlo), a mais velha, de quem tem um filho. Mas o chamamento de Deus, no monte Sinai é mais forte, e Moisés assume o seu destino, regressando ao Egipto com a mensagem de salvação. Nem tudo é fácil, e Ramsés, tanto por não se querer privar dos escravos, como por despeito ao amor que Nefretiri ainda sente por Moisés, nega-lhe todos os pedidos. Sucedem-se várias pragas, culminando com a da morte dos primogénitos, que leva Ramsés, em desespero pela morte do seu próprio filho, a libertar os hebreus. Inicia-se a grande marcha, com Ramsés no último momento a tentar nova vingança, mas travado pela abertura do Mar Vermelho, que deixa passar hebreus e mata egípcios.

Como terceiro acto temos ainda uma queda na fé hebraica, depois de Moisés desaparecer por 40 dias no Monte Sinai. Datã consegue convencer o povo a renegar o Deus de Abraão, e dar-se à idolatria como modo de voltar ao Egipto. Com Josué (John Derek) ao seu lado, Moisés regressa por fim, com os Dez Mandamentos, e a ira de Deus para aqueles que o renegaram. Resta agora o regresso à Terra Prometida, já com Josué como líder.

Sabendo estar a apostar num tema caro ao seu público, não seria difícil a Cecil B. DeMille adivinhar ter nas suas mãos potencial para um estrondoso sucesso. Por isso, mais que o rigor histórico (não há referência aos hebreus nos escritos egípcios da época, nem o trabalho pesado era entregue a escravos), interessava enaltecer os pontos da Bíblia mais conhecidos e capazes de exacerbar paixões. E para isso DeMille contava com meios técnicos e com tempo, num filme de mais de três horas.

Interessava a DeMille (que durante a produção celebrou 75 anos e sofreu um ataque cardíaco), antes de mais, esmagar o público, quer pelo conteúdo religioso do filme, quer pela grandiosidade transposta para o ecrã. Há por isso um lado documentarista em “Os Dez Mandamentos”, seja nas sequências de construção, seja na produção de tijolos, seja na marcha dos hebreus, com tudo o que possuem. A isto alia-se uma história, também ela grandiosa, cheia de personagens maiores que a vida.

E se é verdade que Hollywood nasceu do esforço de judeus imigrados, que nas primeiras décadas do século XX forjaram um império cinematográfico, é como se agora o cinema fizesse justiça a essa história, com um filme que conta, afinal, a fundação de um povo, pátria e religião. Era, sobretudo, a necessidade de afirmação internacional de uma nação, que acabara de ganhar o seu próprio país (o estado de Israel foi fundado em 1948). Não espanta por isso o fervor nacionalista e mensagem tipicamente propagandística, que excede nitidamente o lado histórico. Por isso se fala em libertação, em terra, e em Israel (mais que em hebreus). Era, claro, a mensagem do judaísmo que liga nação, fé e povo, sob um Deus único e exclusivo do povo escolhido.

Por entre tudo isto há ainda o espaço para uma história de pessoas, e claro, interpretações inesquecíveis. Esta história é, de certo modo, o confronto entre Moisés e Ramsés, ou entre Charlton Heston e Yul Brynner. O primeiro, generoso, afável, altruísta. O segundo, ambicioso, desconfiado, duro. Moisés, como não podia deixar de ser, cedo mostra traços de compaixão humana (visíveis no modo como salva a escrava Joquebede – Martha Scott – que por acaso é sua mãe biológica), enquanto Ramsés representa a vontade inamovível feita da mesma pedra que as pirâmides. No meio está Nefretiri (numa interpretação um pouco invulgar de Anne Baxter), seduzida pela riqueza milenar da sua tradição, mas vergada à humanidade de Moisés, por ele sentindo-se traída, quando este escolhe um destino que não a inclui.

Depois há a história de um povo, cujas condições deploráveis são traduzidas na relação quase proibida entre Josué e Lília (Debra Paget), a bonita escrava, cobiçada primeiro pelo egípcio Baka (Vincent Price), depois pelo oportunista hebreu Datã, ambos representações do mal, naquilo que ele tem de mais mesquinho e traiçoeiro. A história desse povo continua nos sacrifícios da construção, na abnegação de uma vida nos trabalhos mais duros (como a produção de tijolos), até à alegria da esperança na salvação, expressa na festiva (e longa) sequência da partida.

Por entre sequências de confronto de vontades (com Charlton Heston a definir para sempre o modelo do personagem bíblico, com uma dignidade maior que a vida), de gigantescos momentos colectivos (filmados em planos de conjunto elaborados), e de cenas inesquecíveis, como a sarça brilhante do Monte Sinai, o erguer do obelisco de Seti, a abertura do Mar Vermelho, ou o gravar dos dez mandamentos, o filme de DeMille é um portento quase sem pausas para se respirar, onde os efeitos especiais atingem também um patamar nunca antes visto. A isto juntam-se os céus pintados, a cor garrida do Technicolor, uma fotografia cristalina, a narração do próprio DeMille, que chamou ao filme uma peregrinação, e a música épica de Elmer Bernstein, com direito a uma suite sem imagens a meio do filme, em jeito de intervalo.

“Os Dez Mandamentos” tornou-se instantaneamente um clássico, sendo até hoje um dos filmes mais passados na televisão pela Páscoa. Tornou-se o filme mais lucrativo de então, desde “E Tudo o Vento Levou” (Gone with the Wind, 1939), um record quebrado só nove anos depois, por “Música no Coração” (The Sound of Music, 1965). Foi nomeado para sete Oscars, incluindo o de Melhor Filme, tendo vencido apenas o de Melhores Efeitos Especiais. Tanto Charlton Heston como Yul Brynner foram elogiados pelas suas prestações, tendo, tal como DeMille sendo nomeados a muitos outros prémios. O mito perduraria, e o filme tornava-se a fasquia a bater.

Charlton Heston, Yul Brynner, Cecil Hardwicke e Ann Baxter

Produção:

Título original: The Ten Commandments; Produção: Paramount Pictures / Motion Picture Associates, Inc.; País: EUA; Ano: 1956; Duração: 218 minutos; Distribuição: Paramount Pictures; Estreia: 5 de Outubro de 1956 (EUA), 1 de Outubro de 1958 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Cecil B. DeMille; Produção: Cecil B. DeMille; Produtor Associado: Henry Wilcoxon; Argumento: Æneas MacKenzie, Jesse Lasky Jr., Jack Gariss, Fredric M. Frank [baseado nos livros “Prince of Egypt” de Dorothy Clarke Wilson, “Pillar of Fire” de J. H. Ingraham, e “On Eagle’s Wing” de A. E. Southon]; Música: Elmer Bernstein; Fotografia: Loyal Griggs [filmado em VistaVision, cor por Technicolor]; Montagem: Anne Bauchens; Direcção Artística: Hal Pereira, Walter H. Tyler, Albert Nozaki; Cenários: Sam Comer, Ray Moyer; Figurinos: Edith Head, Ralph Jester, John Jensen, Dorothy Jeakins, Arnold Friberg; Caracterização: Wally Westmore, Frank Westmore, Frank McCoy; Coreografia: Leroy Prinz, Ruth Godfrey; Efeitos Especiais: John P. Fulton; Direcção de Produção: Frank Caffey, C. Kenneth DeLand, Don Robb.

Elenco:

Charlton Heston (Moisés), Yul Brynner (Ramsés II), Anne Baxter (Nefretiri), Edward G. Robinson (Datã), Yvonne De Carlo (Zípora), Debra Paget (Lília), John Derek (Josué), Cedric Hardwicke (Seti), Nina Foch (Bítia), Martha Scott (Joquebede), Judith Anderson (Memnet), Vincent Price (Baka), John Carradine (Aarão), Olive Deering (Miriam), Douglass Dumbrille (Jannes), Frank DeKova (Abiram), Henry Wilcoxon (Pentaur), Eduard Franz (Jetro), Donald Curtis (Mered), Lawrence Dobkin (Hur Ben Caleb), H.B. Warner (Amminadab), Julia Faye (Eliseba), Lisa Mitchell (Filha de Jetro), Noelle Williams (Filha de Jetro), Joanna Merlin (Filha de Jetro), Pat Richard (Filha de Jetro), Joyce Vanderveen (Filha de Jetro), Diane e Hall (Filha de Jetro), Abbas El Boughdadly (Auriga de Ramsés), Fraser Clarke Heston (Moisés Criança), John Miljan (Cego), Francis McDonald (Simão), Ian Keith (Ramsés I), Paul De Rolf (Eleazar), Woody Strode (Rei da Etiópia), Tommy Duran (Gershom), Eugene Mazzola (Filho de Ramsés), Ramsay Hill (Korah), Joan Woodbury (Mulher de Korah), Esther Brown (Princesa Tharbis).

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