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The PrizeMais uma cerimóna de entrega e prémios Nobel é preparada em Estocolmo, esta com um problema, o comportamento errático do laurelado da literatura, o irreverente e permanentemente alcoolizado escritor Andrew Craig (Paul Newman). Apesar dos esforços da sua “babysitter” para a cerimónia, Miss Andersson (Elke Sommer), Craig consegue escapar-se algumas vezes, conseguindo o interesse de Emily Stratman (Diane Baker), sobrinha do laureado de física, Dr. Max Stratman (Edward G. Robinson). A aproximação aos Stratman leva Craig a pensar que algo se passa com o laureado, começando uma investigação por Estocolmo, que lhe põe em perigo a própria vida.

Análise:

Se um dia se fizer a lista dos filmes hitchcockianos não realizados por Alfred Hitchcock, “O Prémio” vai lá estar em destaque, tal o modo como se cola ao universo do mestre do suspense. É não só o género (um thriller de espionagem), mas também toda a atmosfera, e muitos dos episódios que remetem para obras de Hitchcock. Curiosamente o caminho inverso foi seguido por Hitchcock, que três anos mais tarde escolheria Paul Newman para protagonizar “Cortina de Ferro” (Torn Curtain, 1966), um filme com pontos em comum com “O Prémio”, pois também envolve especialistas em Física à beira de trocar o Ocidente pelo Leste.

Filmado por Mark Robson (um realizador já experiente, e que se notabilizou sobretudo nos filmes B de Val Lewton), para a Roxbury Productions, “O Prémio” baseou-se no livro homónimo de Irving Wallace, adaptado por Ernest Lehman, um dos mais prestigiados argumentistas do seu tempo, sendo, por exemplo, responsável pelo argumento de “Intriga Internacional” (North by Northwest, 1959) do citado Hitchcock.

Com acção a decorrer em Estocolmo, durante a semana de entrega dos prémios Nobel, “O Prémio” acompanha o laureado de Literatura, o jovem americano Andrew Craig (Paul Newman), constantemente alcoolizado e em litígio com a vida. Para o controlar é destacada a fria sueca Inger Lisa Andersson (Elke Sommer), uma espécie de babysitter, que não vai conseguir evitar as escapadelas de Craig. Numa delas, Craig é salvo por Emily Stratman (Diane Baker), sobrinha do laureado de Física, Dr. Max Stratman (Edward G. Robinson), o que o leva a aproximar dos Stratman. Essa aproximação fá-lo começar a desconfiar de que o Dr. Stratman foi substituído por um sósia, suspeita que se acentua quando é chamado por alguém que acaba morto, e ele próprio é vítima de um atentado.

Claro que, dada a sua reputação, ninguém acredita nas histórias fantásticas de Craig, o que o faz continuar a investigação por conta própria, até que descubra o paradeiro do verdadeiro Dr. Stratman, as razões do seu rapto (colocar o seu sósia a desertar publicamente para o Leste), quem são os criminosos, e por fim, até que consiga convencer Inger Lisa da veracidade das suas suspeitas.

Centrando-se no personagem cínico, mulherengo, insolente e sempre de réplica mordaz, de Paul Newman, “O Prémio” alia o humor aos tradicionais thrillers de espionagem, num ambiente de filme clássico, com personagens e cenários que exalam charme e classe. Tudo isto, como se disse atrás, é evocativo de Hitchcock, o qual lidaria mais tarde com a deserção de cientistas (“Cortina de Ferro”), e antes já lidara com histórias de detectives improvisados, arrastados para uma história que não compreendem, e passam a ter a sua vida em risco.

O tema do detective inusitado (e geralmente forçado) está em Hitchcock desde “Os 39 Degraus” (The 39 Steps, 1935) até ao já mencionado “Intriga Internacional”, escrito pelo mesmo Ernest Lehman, que repete alguns dos momentos no filme de Robson. Senão vejamos. A fuga isolada na noite, para ver a vida atentada por um carro é ou não evocativa da famosa cena do campo de milho em que Cary Crant é perseguido por um avião? A cena na colónia de nudistas, em que o personagem de Newman tem de se misturar com a audiência, para fazer figuras ridículas que o levem dali escoltado pela polícia, é ou não uma imitação da cena de Cary Grant no leilão?

Junte-se a estes ingredientes o humor fino, o olhar insolente de Newman e as imensas insinuações de carácter sexual (e porque não a loura fria e superior, interpretada por Elke Sommer), e estamos em perfeito domínio hitchcockiano, onde, como o mestre pretendia, somos colocados sempre um passo à frente do protagonista, podendo por isso sofrer por ele com a nossa antecipação.

A isto Robson junta ainda uma série de vinhetas de histórias paralelas: a ansiedade do conde Jacobsson (Leo G. Carroll, adivinhe-se, um dos actores mais vezes presentes na obra de Hitchcock), a rivalidade entre os laureados de Medicina, a crise matrimonial dos laureados de Química. Histórias que emprestam algum colorido à história, e trazem momentos de desbloqueamento no avanço no enredo perseguido por Craig.

Com um argumento forte, e diálogos interessantes, o filme falha apenas um pouco por… não ser Hitchcock, dando sempre a ideia de se estar no campo da homenagem. Ainda assim cumpre perfeitamente esse propósito, com boas interpretações, e um bom uso do cenário da cidade de Estocolmo.

Produção:

Título original: The Prize; Produção: Roxbury Productions Inc.; País: EUA; Ano: 1963; Duração: 129 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 25 de Dezembro de 1963 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Mark Robson; Produção: Pandro S. Berman; Produtora Associada: Kathryn Hereford; Argumento: Ernest Lehman [baseado num livro de Irving Wallace]; Música: Jerry Goldsmith; Fotografia: William H. Daniels [filmado em Panavision, cor por Metrocolor]; Montagem: Adrienne Fazan; Direcção Artística: George W. Davis, Urie McCleary; Cenários: Henry Grace, Richard Pefferle; Guarda-roupa: Bill Thomas; Caracterização: William Tuttle; Efeitos Especiais: J. McMillan Johnson, A. Arnold Gillespie, Robert R. Hoag.

Elenco:

Paul Newman (Andrew Craig), Edward G. Robinson (Dr. Max Stratman), Elke Sommer (Inger Lisa Andersson), Diane Baker (Emily Stratman), Micheline Presle (Dr. Denise Marceau), Gérard Oury (Dr. Claude Marceau), Sergio Fantoni (Dr. Carlo Farelli), Kevin McCarthy (Dr. John Garrett), Leo G. Carroll (Conde Bertil Jacobsson), Sacha Pitoëff (Daranyi), Jacqueline Beer (Monique Souvir), John Wengraf (Hans Eckhart), Don Dubbins (Ivar Cramer), Virginia Christine (Mrs. Bergh), Rudolph Anders (Mr. Rolfe Bergh), Martine Bartlett (Saralee Garrett), Karl Swenson (Hilding), John Qualen (Oscar), Ned Wever (Clark Wilson).

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