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Anna-LiisaAnna-Liisa (Helmi Lindelöf), a filha dos proprietários rurais de Kortesuon, é pedida em casamento por Johannes (Emil Autere), por quem está apaixonada. Mas nesse momento chega Mikko (Einar Rinne), um antigo agricultor nas terras dos Kortesuon, que trabalhava a indústria da madeira, onde fez algum dinheiro. Com a sua mãe, Husso (Mimmi Lähteenoja), Mikko vai chantagear Anna-Liisa a casar consigo. É que Mikko e Anna-Liisa tiveram uma relação três anos antes, da qual nasceu um filho, que Anna-Liisa acabou por matar. A revelação desse segredo poderá deitar tudo a perder para Anna-Liisa, que continua a viver amargurada pela sua culpa.

Análise:

A Finlândia, que só se tornaria independente da Rússia em 1917, embora já tivesse uma cinematografia própria antes disso, viu por várias vezes essa actividade inibida por motivos políticos. Foi em 1919, com a fundação da produtora e distribuidora Suomi-Filmi, pelo produtor e realizador Erkki Karu, que o cinema finlandês deu um decisivo passo em frente. É de um dos homens-chave dessa era, Teuvo Puro, o mais importante filme da fase formativa do cinema finlandês, “Anna-Liisa”, que Puro realizou em colaboração com o também argumentista Jussi Snellman, numa produção do próprio Erkki Karu.

A partir de uma peça de teatro de 1895 de Minna Canth, “Anna-Liisa” conta-nos a história da rapariga com aquele nome (Helmi Lindelöf), que vive numa propriedade rural dos Kortesuon, e se encontra noiva de Johannes (Emil Autere). Só que, entretanto, a velha Husso (Mimmi Lähteenoja) recebe a notícia de que o seu filho Mikko (Einar Rinne), um antigo agricultor nas terras dos Kortesuon, vai regressar, já financeiramente independente, depois de trabalhar na indústria da madeira. Mikko foi um antigo namorado de Anna-Liisa, e volta disposto a reclamar aquela que considera sua. Embora Anna-Liisa esteja decidida a casar com Johannes, e repita que nunca esteve noiva de Mikko, tudo não passando de uma teimosia dele, Husso e Mikko chantageiam-na, já que sabem segredos sobre ela que podem fazer com que seja repudiada por toda a comunidade. Anna-Liisa vai ter que enfrentar a verdade, para se livrar dos chantageadores, deixando todos saber que em tempos esteve grávida de Mikko, e matou o seu bebé, preferindo enfrentar a justiça que ficar presa a Mikko.

“Anna-Liisa” começou por ser uma peça de teatro da escritora feminista Minna Canth, célebre pelo realismo das suas obras, e a sua tenaz luta pelos direitos das mulheres. A peça aborda temas ainda hoje pertinentes, e mesmo chocantes e tabus, algo característico do cinema escandinavo dos anos 20.

Com tal material, Teuvo Puro usa a natureza inóspita da Finlândia como personagem de pleno direito, que modela comportamentos e estados de espírito. O seu filme, um pouco à luz do melhor cinema escandinavo do seu tempo, é um testemunho de um modo de vida, invocando a ruralidade do seu país, e as condições de vida do seu povo. Vemos por isso uma realidade de quintas, trabalho da madeira, muito gelo e neve, e um povo humilde apegado aos seus valores morais. Nesse universo destoa Anna-Liisa, que se atreve a colocar tudo em causa, e termina abençoada por um pastor que aceita a sua confissão como caminho para a salvação, mesmo que a justiça dos homens tenha outra solução. Anna-Liisa é por isso uma história de coragem feminina, e de revolta contra a sociedade patriarcal.

Puro e Snellman filmam esta história igualmente em interiores e exteriores, em cenários puramente realistas, com planos fixos, mas uma decoupage interessante, com um ritmo sempre envolvente, e onde não faltam rebuscados flashbacks, que ajudam a dar a todo o filme um aspecto sofisticado para o seu tempo. Destaca-se ainda a prestação dos actores principais que carregam um peso de melodrama que torna a história ainda mais emocional.

A força da peça de Minna Canth levou a que já antes tivesse sido adaptada ao cinema, pelas mãos de Teppo Raikas, em 1911. Voltaria a ser adaptado por Orvo Saarikivi (1945) e por Tuija-Maija Niskanen (1988). Foi ainda motivo de uma ópera, do compositor finlandês Veli-Matti Puumala, estreada em 2008.

“Anna-Liisa” foi um dos primeiros (senão o primeiro) filmes finlandeses a ultrapassar as fornteiras nacionais, e a ser visto com interesse em diversos outros países.

Produção:

Título original: Anna-Liisa; Produção: Suomi-Filmi; País: Finlândia; Ano: 1922; Duração: 49 minutos; Distribuição: Suomen Biografi; Estreia: 20 de Março de 1922 (Finlândia).

Equipa técnica:

Realização: Teuvo Puro, Jussi Snellman; Produção: Erkki Karu; Argumento: Jussi Snellman [baseado na peça homónima de Minna Canth]; Fotografia: Kurt Jäger (interiores), A. J. Tenhovaara (exterior) [preto e branco]; Montagem: Kurt Jäger, Teuvo Puro; Direcção Artística: Karl Fager.

Elenco:

Helmi Lindelöf (Anna-Liisa), Hemmo Kallio (Senhor de Kortesuon, Pai de Anna-Liisa), Meri Roini (Senhora Kortesuon, Mãe de Anna-Liisa), Greta Waahtera (Pirkko, Irmã de Anna-Liisa), Emil Autere (Kivimaan Johannes, Noivo de Anna-Liisa), Einar Rinne (Mikko), Mimmi Lähteenoja (Husso, Mãe de Mikko), Axel Ahlberg (Rovasti, O Reverendo), Tauno Ensio Järvinen (Matti, O Rapaz Portador da Carta).

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