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From Russia with LoveQuando a poderosa organização criminosa SPECTRE decide roubar uma máquina de descodificação russa, Lektor, planeia recrutar, sem que este o saiba, o agente secreto do MI6, James Bond (Sean Connery). Para isso, Bond é atraído a Istambul, onde a tradutora Tatiana Romanova (Daniela Bianchi) o chama para que a ajude a fugir para o Ocidente. Tatiana segue ordens da ex-agente do KGB Rosa Klebb (Lotte Lenya) que, sem que ela saiba que Klebb trabalha na verdade para o SPECTRE. Bond e o seu contacto turco, Kerim Bey (Pedro Armendáriz), vão tentar escapar à vigilância soviética, resgatar Tatiana e roubar a máquina Lektor, com outro agente do SPECTRE (Robert Shaw) no seu encalce, pronto para recolher os frutos desse trabalho.

Análise:

Depois do estrondoso sucesso de “Agente Secreto 007” (Dr. No, 1962), de Terence Young, ficou certo que o agente criado por Ian Fleming passaria a ser motivo de uma série de filmes, numa franchise gerida por Harry Saltzman e Albert R. Broccoli, na sua produtora Eon Productions, e distribuída pela United Artists.

De novo com Terence Young ao leme, e com Sean Connery a interpretar o sedutor agente secreto, o segundo filme da série, “007 – Ordem para Matar”, serve desde logo para estabelecer os clichés que funcionariam como imagem de marca, reconhecível por fãs e não fãs. Estes são, o tema musical, o genérico inicial por entre uma mira de uma arma de fogo, uma sequência inicial sem consequência para a história, a sequência de créditos que inclui temas de corpos femininos, o estabelecimento de personagens fixas (Miss Moneypenny, M, Q), a apresentação de gadgets, um enredo que envolve viagens por todo o mundo, o uso de carros caros, a constante sedução de belas mulheres, e claro o vodka Martini, “shaken, not stirred”.

Com todos estes ingredientes a estabelecer uma fórmula ganhadora, que continua por mais de 50 anos, em “007 – Ordem para Matar” temos um James Bond ainda bastante contido, algo sério (apesar do seu constante sorriso, e réplicas de humor fino), e longe das acrobacias dos tempos vindouros.

A história é uma das poucas de um filme de 007 que lida directamente com a Guerra Fria, quando o habitual em Ian Fleming são os cenários em que temos vilões excêntricos com planos mirabolantes de domínio do mundo, e organizações ultra-nacionais, como o famoso SPECTRE (acrónimo de SPecial Executive for Counter-intelligence, Terrorism, Revenge and Extortion). Aqui, o SPECTRE, presente, ao contrário do que acontece no livro, usa a rivalidade entre a SMERSH soviética (Shmert Spionam, isto é, Morte aos Espiões) e o MI6 para obter os seus intentos. E estes são o roubo de máquina de descodificação russa, Lektor. O plano do seu agente Kronsteen (Vladek Sheybal) é fazer James Bond pensar que tem a oportunidade de roubar uma Lektor. Para tal, cabe à ex-KGB Rosa Klebb (Lotte Lenya) convencer a tradutora Tatiana Romanova (Daniela Bianchi) que está numa missão secreta para seduzir James Bond.

Bond viaja para Istambul, e com a ajuda do agente local, Kerim Bey (Pedro Armendáriz), trava conhecimento com Tatiana, e planeia o roubo da máquina, isto entre fugas e conflitos entre os filhos de Bey (e seus guarda-costas), agentes búlgaros ao serviço dos soviéticos, e um grupo de ciganos aliados do MI6. Quando Bond consegue fugir de Istambul num comboio, com a Lektor e Tatiana, entretanto já apaixonada por ele, resta derrotar Grant (Robert Shaw), o agente do SPECTRE que segue Bond desde o primeiro dia, para lhe roubar a máquina.

Mesmo sem o maior aparato de filmes seguintes, temos já o uso de cenários exóticos, diversos vilões temíveis, e claro, várias mulheres a caírem por Bond, sempre usando fatos impecáveis, e escolhendo ambientes de luxo. Isto quando Saltzman e Broccoli conseguiram duplicar o orçamento do filme anterior, e os exteriores foram filmados na Escócia e na Turquia, com algumas sequências em Veneza.

A história é relativamente simples, com Bond a seguir sempre, sem o saber, os planos traçados para si, reagindo, mas nunca antecipando os acontecimentos. Tal torna-o um agente ainda bastante humano, do qual se pode até pensar que sinta algum carinho pela sua inexperiente oponente feminina. O melhor do filme, para lá de uma história que está a par das de outros filmes de espionagem mais realistas, é a diversidade de cenários e situações, das quais Bond se desenvencilha sempre com elegância. A isto alia-se uma ênfase na sedução e erotismo, que ganham realismo graças à interpretação de Daniela Bianchi como uma agente que desde logo se torna a mais humana pessoa da história, e se destaca pela sinceridade, não tendo outra intenção que merecer o amor de Bond.

Do lado da acção não se deve esquecer as várias cenas de tiroteio, algumas explosões, e o papel do musculado e gélido louro (figura recorrente dos oponentes de Bond), interpretado por Robert Shaw. Destaca-se ainda a sequência da perseguição por um helicóptero, uma homenagem a Alfred Hitchcock, que anos antes fora sondado para realizar o primeiro filme da série 007.

Marcado por uma tentativa de manter o espírito do livro de Ian Fleming, retendo mais realismo do que seria habitual em filmes posteriores, “007 – Ordem para Matar” consegue definir um Bond clássico, com iguais quantidades de subtileza de história, cenas de acção e glamour. Tal coloca-o, ainda hoje, frequentemente no topo da lista de melhores filmes da série 007.

Como curiosidade refira-se que a personagem Sylvia (Eunice Gayson) foi pensada como namorada de longa duração de Bond, que deveria surgir em vários filmes, mas a ideia foi logo abandonada. Finalmente, o chefe do SPECTRE é interpretado por Anthony Dawson (embora não se lhe veja a cara), enquanto a sua voz foi dobrada por Eric Pohlmann.

“007 – Ordem para Matar” foi ainda o primeiro filme a série a terminar com: “James Bond will return in …”, neste caso mencionando o filme “007 – Contra Goldfinger” (Goldfinger, 1964) de Guy Hamilton.

Produção:

Título original: From Russia with Love; Produção: Eon Productions / Danjaq; País: Reino Unido; Ano: 1963; Duração: 115 minutos; Distribuição: United Artists; Estreia: 10 de Outubro de 1963 (Reino Unido).

Equipa técnica:

Realização: Terence Young; Produção: Harry Saltzman, Albert R. Broccoli; Produtor Associado: Stanley Sopel [não creditado]; Argumento: Richard Maibaum, Berkely Mather [não creditado]; Adaptação: Johanna Harwood [a partir do livro de Ian Fleming]; Música: John Barry, Monty Norman (‘James Bond’ theme), Lionel Bart (canção tema); Fotografia: Ted Moore [filmado em Eastman, cor por Technicolor]; Montagem: Peter R. Hunt; Direcção Artística: Syd Cain; Cenários: Freda Pearson; Figurinos: Jocelyn Rickards; Caracterização: Basil Newall, Paul Rabiger; Efeitos Especiais: John Stears; Direcção de Produção: William Hill.

Elenco:

Sean Connery (James Bond), Daniela Bianchi (Tatiana Romanova), Pedro Armendáriz (Kerim Bey), Lotte Lenya (Rosa Klebb), Robert Shaw (Grant), Bernard Lee (‘M’), Eunice Gayson (Sylvia), Walter Gotell (Morzeny), Francis De Wolff (Vavra), George Pastell (Revisor do Comboio), Nadja Regin (Amante de Kerim), Lois Maxwell (Miss Moneypenny), Aliza Gur (Vida), Martine Beswick (Zora), Vladek Sheybal (Kronsteen), Lisa Guiraut [como Leila] (Bailarina Cigana), Fred Haggerty (Krilencu), Neville Jason (Motorista de Kerim Bay), Peter Bayliss (Benz).