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Blade af Satans BogEm quatro histórias diferentes é-nos mostrada a acção de Satanás (Helge Nissen) na Terra, depois de ter sido expulso do Céu por Deus, e condenado a fazer o mal, sabendo que por cada homem que corrompa, a sua maldição acresce de mais cem anos, por cada homem que resistir, esta diminui mil anos. Vemos o seu papel perante Judas (Jacob Texiere), na traição a Cristo (Halvard Hoff); a sua presença na Inquisição, forçando o monge Don Fernandez (Johannes Meyer) a entregar a família de Isabel (Ebon Strandin); o modo como durante a revolução francesa corrompe o fiel Joseph (Elith Pio), contra a família que este devia proteger; e por fim, numa história contemporânea, o seu papel falhado na resistência finlandesa contra a Rússia Vermelha, impelindo Siri (Clara Pontoppidan) a trair o marido (Carl Hillebrandt), combatente pela Finlândia livre.

Análise:

Inspirado pelo épico “Intolerância” (Intolerance, 1916) de D. W. Griffith, Carl Theodor Dreyer, na altura um promissor realizador dinamarquês, que realizava o seu terceiro filme, servia-se do mesmo recurso de Griffith, apresentar histórias de quatro épocas distintas, para, por entre metáforas, dar uma ideia da natureza humana. Se no caso de Griffith era a citada intolerância, como culpada dos conflitos e maldade que afligem o homem ao longo dos séculos, já Dreyer, mais metafísico, preferia culpar directamente Satanás.

Tal com Griffith, Dreyer vai à antiguidade buscar a história de Jesus (Halvard Hoff) e em particular à traição de Judas (Jacob Texiere), que aqui é impelido por um falso sacerdote judeu, que é nem mais nem menos que Satanás (Helge Nissen).

A segunda história passa-se durante a Inquisição Espanhola, quando o monge Don Fernandez (Ebon Strandin), apaixonado pela bela Isabel (Ebon Strandin), é convidado pelo Grande Inquisidor (de novo Helge Nissen como Satanás disfarçado), a juntar-se-lhe. Ao descobrir-se que o pai de Isabel, Don Gomez de Castro (Hallander Helleman) pratica astrologia, este é condenado como herege, juntamente com a filha, numa sentença que terá de ser levada a cabo pelo próprio Don Fernandez.

A terceira história passa-se durante revolução francesa, onde, perante o avanço do poder jacobino, a rainha Maria Antonieta (Tenna Kraft) espera a morte, e confia no criado Joseph (Elith Pio) a protecção da condessa de Chambord (Emma Wiehe) e sua filha Genevieve (Jeanne Tramcourt). Mas Joseph deixa transparecer a sua paixão por Genevieve, o que é captado por Erneste (de novo Helge Nissen) que o impele a usar a sua nova posição de força para chantagear a rapariga. Quando isto não funciona, as nobres são denunciadas à revolução, e Joseph, para salvar a própria pele é forçado a dizer que foi ele que as denunciou.

Finalmente, a quarta história lida com a situação contemporânea na Finlândia, onde se vive uma guerra civil entre as forças pró-Russas e as independentistas. Em casa de Siri (Clara Pontoppidan) e do marido Paavo (Carlo Wieth) é colocada uma linha telefónica pelos independentistas. Mas o seu amigo Rautamiemi (Carl Hillebrandt), que deseja Siri, é seduzido a denunciar o casal. Perante as chantagens, Siri mantém-se forte e resiste a tudo, sendo a primeira pessoa a escapar às tentações de Satanás.

Apesar da ideia de “Páginas do Livro de Satanás” seguir de muito próximo a ideia de “Intolerância” Griffith (não faltando mesmo um quadro sobre Cristo, e outro sobre realidade contemporânea), faltando-lhe a grandiosidade e a inovação do cross-cutting da obra americana, o filme de Dreyer destacava-se por uma maior ênfase nos aspectos psicológicos das suas personagens.

Assim, ainda que seja Satanás o culpado pelo mal, na verdade este cumpre uma maldição divina, e é obrigado a tentar os humanos. Pode-se perguntar quem é mais maléfico, Deus ou o Diabo, se o segundo é impelido pelo primeiro, sabendo que por cada triunfo a sua maldição piora. Por outro lado ainda, em qualquer das histórias, embora Satanás tente os homens, é sempre deles a decisão, que aquele apenas sugere.

Todo o filme torna-se portanto um debate metafísico sobre a alma humana e a sua propensão para bem ou para mal. Com muita iconografia religiosa (Cristo, a Inquisição, o monge finlandês que parece Rasputin), é curioso ver como todas as posições de autoridade (política e religiosa) são sempre exemplos de hipocrisia, onde até o único episódio de Cristo mostrado é aquele em que este incita os discípulos a venerá-lo acima dos pobres.

Mas, apesar de alguma ingenuidade no contar das histórias, “Páginas do Livro de Satanás” destaca-se sobretudo pelo seu aspecto visual. Dreyer distingue-se dos autores escandinavos do seu tempo pelo preferir filmar em estúdio, e não em cenários naturais de exteriores. Em estúdio (e principalmente na segunda sequência), Dreyer constrói a sua assinatura visual, que culminaria com o brilhante “A Paixão de Joana d’Arc” (La passion de Jeanne d’Arc, 1928). Nela os cenários são estilizados, austeros, e iluminados, em camadas de cinzento que ajudam a dar personalidade a cada cena. Os actores apresentam já uma expressividade facial que faz de cada close-up um pequeno filme. E principalmente, Dreyer arranja cada enquadramento com uma atenção minuciosa, como se estivéssemos perante quadros medievais vivos.

Com uma produção exigente, longa e altamente controlada por Dreyer, o filme falhou as expectativas da Nordisk, mostrando a Dreyer que se quisesse manter os padrões elevados teria de procurar produtoras mais ambiciosas, o que ele faria nos filmes seguintes.

Produção:

Título original: Blade af Satans bog; Produção: Nordisk Film Kompagni; País: Dinamarca; Ano: 1921; Duração: 137 minutos; Distribuição: Fotorama; Estreia: 15 de Novembro de 1920 (Noruega), 21 de Janeiro de 1921 (Dinamarca).

Equipa técnica:

Realização: Carl Theodor Dreyer; Argumento: Edgar Høyer, Carl Theodor Dreyer [não creditado] [baseado no livro de Marie Corelli]; Fotografia: George Schnéevoigt Dreyer [não creditado] [preto e branco]; Direcção Artística: Axel Bruun Dreyer [não creditado], Carl Theodor Dreyer Dreyer [não creditado], Jens G. Lind Dreyer [não creditado].

Elenco:

Helge Nissen (Satanás / Grande Inquisidor / Erneste Durand / Ivan)
Primeiro Episódio:
Halvard Hoff (Jesus), Jacob Texiere (Judas).
Segundo Episódio:
Hallander Helleman (Don Gomez de Castro), Ebon Strandin (Isabel, Filha de Don Gomez), Johannes Meyer (Don Fernandez Y Argote), Nalle Halden (O Mordomo).
Terceiro Episódio:
Tenna Kraft (Marie Antoinette), Viggo Wiehe (Conde de Chambord), Emma Wiehe (Condessa de Chambord), Jeanne Tramcourt (Lady Genevieve de Chambord), Hugo Bruun (Conde Manuel), Elith Pio (Joseph), Emil Helsengreen (Comissário Popular), Viggo Lindstrøm (Velho Pitou), Vilhelm Petersen (Fouquier-Tinville).
Quarto Episódio:
Clara Pontoppidan (Siri), Carlo Wieth (Paavo), Karina Bell (Naimi), Carl Hillebrandt (Rautamiemi), Christian Nielsen (Cabo Matti).

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