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Martin Scorsese

Texto de Rui Alves de Sousa
Colaborador do website “Máquina de Escrever
Apresentador do programa da Rádio Autónoma “Um Lance no Escuro
Autor do blogue “Companhia de Amêndoas
Blogger do ano 2014 dos TCN Blog Awards

Mais do que um conhecido cinéfilo e divulgador da cinefilia (envolve-se em vários projectos de preservação de filmes, ou em análises profundas sobre algumas cinematografias, do que é exemplo a sua viagem pessoal pelo Cinema americano), Martin Scorsese é um dos nomes mais reconhecíveis da Hollywood ressurgida das cinzas nos anos 70, graças aos seus filmes e aos de muitos colegas da sua geração (Coppola com «O Padrinho», por exemplo). Inspirado pela rebeldia da Nouvelle Vague, pela imposição cada vez maior de outros tipos de Cinema que ganham popularidade nos EUA, Scorsese começa em força a sua carreira com uma série de pequenos, mas ambiciosos filmes. Desde a curiosa curta «The Big Shave», passando pelo filme que verdadeiramente o lançou entre o público e a crítica (falamos de «Mean Streets», uma história filosófica com o seu quê de autobiográfica, que marca a primeira colaboração entre o realizador e Robert de Niro) e terminando em «Alice Doesn’t Live Here Anymore», encontramos um percurso acidentado e irregular, mas que marcaria, de forma definitiva, o crescimento criativo demonstrado na sua “época de ouro”, que começaria com «Taxi Driver».

E foi a partir das deambulações de Travis Bickle pelas ruas sujas e poeirentas da noite nova iorquina, que Scorsese conseguiu realmente afirmar-se como um realizador de culto. O filme foi vaiado em Cannes, apesar de ter recebido a Palma de Ouro, e hoje permanece como um dos títulos mais discutidos do Cinema contemporâneo. Pontuados por êxitos (como «Raging Bull» e o irregular, mas interessante «The Color of Money») e alguns fracassos que, com o passar do tempo, começaram a ser apreciados como mereciam, os anos seguintes da vida de Scorsese são também marcados, primeiro, por uma instabilidade psicológica do realizador, e depois, por uma consagração cada vez maior entre as audiências e a crítica mais especializada. Pelo caminho, ficam grandes filmes que, entre os mais famosos do cineasta, continuam a ser algo menosprezados – e aqui, gostaria de referir um dos meus favoritos Scorseses: esse fabuloso estudo sobre o mediatismo e a sede da fama ilustrada pelo magnífico «The King of Comedy», que até ao momento, ainda não conheceu nenhuma edição nacional no mercado do home vídeo. Há também que relembrar filmes como «The Last Temptation of Christ», «New York, New York» e «After Hours».

Com os anos 90 chega «Goodfellas», um dos filmes mais rentáveis de Scorsese, e a história que definiu um outro estilo do realizador que se repetiria em alguns filmes posteriores, com narrativas contadas na primeira pessoa sobre o mundo do crime, das falcatruas, das máfias mundanas e da violência urbana. Voltámos a esse(s) mundo(s) com «Casino», também dessa mesma década, e com o mais recente «The Wolf of Wall Street». Mas é com esse segundo filme de uma imaginária “trilogia” scorsesiana que acaba um período para o realizador, e que começa outro, que inclui alguns filmes que passaram ao lado («Bringing Out the Dead» e «Kundun») e que continua pelo século XXI. O Scorsese da actualidade é autor de grandes produções hollywoodescas que revisitam, mais do que nunca, o imaginário da Sétima Arte, e o imaginário do próprio Scorsese, com filmes que conquistam prémios, mas que têm afastado os antigos seguidores do cineasta.

Contudo, e apesar das divergências, Martin Scorsese é ainda um dos nomes mais importantes do Cinema americano moderno – e sou só eu que encontro engenho no retrato obscuro de Howard Hughes («The Aviator») ou na subtil desconstrução do classicismo norte-americano e do film-noir («Shutter Island»)? São filmes mais “polidos”, é certo (e o mais polido deles todos é o colorido e infantil «Hugo»), mas não menos Scorsesianos (e o «Wolf», sendo uma recriação do estilo de «Goodfellas» e «Casino», funciona muito bem de forma autónoma, ao contrário do que muitos afirmaram – de que esta era apenas uma repetição dos ”greatest hits” de Scorsese). E se ele é já um realizador afirmado dentro da “elite”, esperemos que, mesmo assim, continue a pegar em projectos tão distintos, e a tirar deles o melhor que só Scorsese sabe como fazer – e o próximo projecto, baseado num livro de Shusaku Endo, parece ser muito interessante. Esqueçam a publicidade de Scorsese (e aquele dispendioso reclame dos casinos para o qual já saiu um “teaser”) e entrem no maravilhoso mundo das suas longas-metragens. Porque para perceber a evolução das últimas décadas de Hollywood, é fundamental conhecer a obra de Martin Scorsese.

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