Etiquetas

, , , , , ,

Who's that Knocking at My Door?J.R. (Harvey Keitel) é um jovem italo-americano, constantemente envolvido em brigas de bairro, e aventuras de adolescente, com os seus amigos Joey (Lennard Kuras) e Sally Gaga (Michael Scala). Um dia J.R. conhece uma rapariga por quem se apaixona. Mas quando esta lhe conta que foi violada por um antigo namorado, J.R. tem dificuldades em aceitar, afastando-se dela. Preso entre uma moral católica, e reprimidos desejos carnais, J.R. entra em colisão com a sua vida e amigos do dia a dia, procurando uma ponte que o faça aceitar a namorada que perdeu.

Análise:

Foi um ainda universitário Martin Scorsese que em 1965 começou a rodagem daquela que seria a sua primeira longa-metragem. Ao mesmo tempo que ia realizando algumas curtas-metragens, Scorsese, trabalhando com colegas de universidade, como o actor Harvey Keitel, dedicou-se a um projecto que os críticos têm visto como autobiográfico.

O filme começou por se chamar “Bring on the Dancing Girls”, dedicado a um grupo de jovens amigos italo-americanos, na Little Italy nova-iorquina. Com a inclusão da passagem amorosa proporcionada pela presença da actriz Zina Bethune, o filme foi reconstruído, sob o título “I Call First”. Esta versão seria apresentada no Chicago International Film Festival em 1967. O fraco interesse no filme levou-o a ser deixado de lado até, em 1968, o distribuidor independente Joseph Brenner (vocacionado para sexploitation) sugerir a Scorsese uma mais explícita abordagem sexual. A inclusão das cenas de sonho do personagem de Keitel levou à versão de 1968, agora chamada “Who’s that Knocking at My Door?”, que finalmente teve estreia comercial. Em 1970 uma nova montagem do filme seria intitulada “J.R.”, mas é a versão de 1968 que mais frequentemente é exibida, ficando como principal referência da estreia de Scorsese.

Com tão grande período temporal entre início e versão final do projecto, com tantas montagens e diferentes inflexões na história, e com tão poucos meios ao seu dispor, é de espantar que a estreia de Scorsese possa ter resultado num filme tão coerente. Parte do segredo desse sucesso será, sem dúvida, o olhar honesto do realizador para uma realidade que muito lhe dizia respeito, a do seu ambiente de origens italianas, confrontado com uma sociedade anglo-saxónica em frenética mudança de costumes e valores.

“Who’s that Knocking at My Door?” traz-nos a história de J.R. (Harvey Keitel), um jovem italo-americano, que passa os dias com os amigos que, como ele, nada mais fazem que envolver-se em quezílias de bairro, gabar-se de feitos inauditos, e sonhar em conquistar raparigas fáceis (as mal afamadas “broads“). Por trás têm a tradição familiar (exemplificada na cena inicial em que vemos a própria mãe de Scorsese a cozinhar), a cultura ancestral que preza o duplo padrão que mostra os homens como heróis e as mulheres como santas ou putas. Tudo isto sob o peso da influência católica, sempre pronta a regar com culpa qualquer comportamento menos respeitável.

Quando J.R. conhece a rapariga por quem se virá a apaixonar (Zina Bethune), o seu mudo irá mudar. Mas onde ele ouve cançonetas italianas, ela ouve jazz, onde ele admira filmes de John Wayne, ela lê revistas francesas, onde ele pensa que sexo antes do casamento é só com outras mulheres, ela tem uma visão mais progressista. Se a diferença de opiniões e modos de estar começa por ser um desafio, tudo muda quando a rapariga conta a J.R. não ser já virgem, pois foi violada por um antigo namorado. J.R. não consegue aceitar a ideia, envergonhando-se da namorada, e deixando que uma série de fantasmas o atormente, acabando por a deixar.

Preso entre o desejo e a moral católica, J.R. vive num mundo de clichés e culpa, como explicitado pelos seus sonhos sexuais, onde ele se vê em práticas sado-masoquistas com diferentes mulheres, para logo a seguir precisar do conforto da igreja. Empurrado pelos amigos para as conquistas fanfarronas de mulheres fáceis, J.R. quer escapar um pouco a esse mundo estagnado, bebendo da novidade e desafio da sua namorada que, por isso, sente que deve perdoar, sem perceber o quão sexista está a ser.

Filmando a preto e branco, Martin Scorsese mostra-se um adepto da Nouvelle Vague francesa, com uma narrativa não linear, um assumido desrespeito pelo raccord (chegamos a ver takes diferentes da mesma cena a suceder-se), planos aparentemente soltos e não estudados, e um suceder de planos pouco convencional (onde se vai da câmara lenta à paragem da imagem). O resultado é um filme fluido e provocador, tanto pelos temas, como pelos movimentos de câmara, e forma austera de representar, com diálogos parcos, crus e agressivos. Essa provocação e irreverência integrava-se na nascente contra-cultura americana, destacando-se desde logo o modo como Scorsese usa a música moderna, pontuando cenas e estados de espírito (outra característica da Nova Vaga em que o seu filme se insere), e onde o uso de “The End” dos Doors, sobre a inebriante fantasia sexual de J.R. é um dos pontos culminantes.

Harvey Keitel, então ainda um estudante, destaca-se já pelas qualidades que o iriam tornar um dos actores mais famosos da sua geração, e dos que mais vezes viria a trabalhar com Scorsese. Ora inocente, ora agressivo, ora tímido ora prepotente, Keitel consegue com graciosidade um vasto leque de registos que tornam o seu personagem tão encantador quanto inapto a compreender o mundo em que se insere

Produção:

Título original: Who’s that Knocking at My Door? [Título Alternativo: I Call First]; Produção: Trimod Films; País: EUA; Ano: 1967; Duração: 90 minutos; Distribuição: Joseph Brenner Associates (JBA); Estreia: 15 de Novembro de 1967 (EUA).

Equipa técnica:

Realização: Martin Scorsese; Produção: Joseph Weill, Betzi Manoogian, Haig Manoogian; Argumento: Martin Scorsese; Diálogos Adicionais: Betzi Manoogian; Fotografia: Richard H. Coll, Michael Wadleigh [preto e branco]; Montagem: Thelma Schoonmaker; Design do clube: Victor Magnotta; Direcção de Produção: Barbara Battle.

Elenco:

Zina Bethune (A Rapariga), Harvey Keitel (J.R.), Anne Collette (Rapariga no sonho), Lennard Kuras (Joey), Michael Scala (Sally Gaga), Harry Northup (Harry), Tsuai Yu-Lan (Rapariga no sonho), Saskia Holleman (Rapariga no sonho), Bill Minkin (Iggy na festa), Philip Carlson (Rapaz em Copake), Wendy Russell (Rapariga de Gaga), Robert Uricola (Rapaz com pistol), Susan Wood (Rapariga na festa), Marissa Mathes [como Marrisa Joffrey] (Rapariga na festa), Catherine Scorsese (Mãe), Victor Magnotta (Rapaz numa luta), Paul DeBonde (Rapaz numa luta).

Anúncios