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Magic in the MoonlightContinuando a oscilar entre a Europa e os Estados Unidos, o filme de 2014 de Woody Allen trouxe-o de volta ao velho continente, para um novo exercício de época, desta vez nos anos 1920. O tema seria a fé (ou falta dela) em algo que nos eleve para lá de um racionalismo puro. Com Colin Firth, Emma Stone e Simon McBurney Nos principais papéis, o filme foi novamente distribuído pela Sony, como vem acontecendo desde 2009.

Sinopse:

Stanley (Colin Firth), conhecido no mundo do espectáculo como Wei Ling Soo, é um arrogante ilusionista, que acredita que tudo o que existe pode ser explicado racionalmente. Um dia o amigo e colega Howard (Simon McBurney) pede-lhe ajuda para desmascarar uma médium (Emma Stone), que está a influenciar, e a aproveitar-se da credulidade de uma família ria sua amiga. Stanley acede, mas todas as tentativas são infrutíferas, o que o leva a considerar a hipótese de que a rapariga seja genuína, e o transcendente possa estar mesmo à sua frente.

Análise:

Se há algo que caracteriza a carreira de Woody Allen é conseguir sempre surpreender-nos com a diversidade de tons (outros dirão qualidade) que coloca nos seus filmes. Seguindo-se a um dos seus filmes mais pesados e parcos em humor, “Magia ao Luar” é um exemplo dessa constante mudança, ao ser um filme leve e bem-humorado.

De regresso aos anos 1920, Woody Allen volta a mostrar a sua admiração pela golden age a que dedicara o recente “Meia-noite em Paris” (Midnight in Paris, 2011), de que o presente filme é de certo modo um sucessor. Um conhecido bota-de-elástico, é compreensível em Woody Allen estes refúgios temporais que o levam a eras nas quais ele se sente mais à vontade, e que pretende homenagear. Isto é recorrente deste “Zelig” (1983), “A Rosa Púrpura do Cairo” (The Purple Rose of Cairo, 1985) e “Os Dias da Rádio” (Radio Days, 1987) até ao mais recente: “A Maldição do Escorpião Jade” (The Curse of the Jade Scorpion, 2001).

Como pano de fundo temos outros lugares comuns: o ilusionismo (uma velha paixão de Allen) já presente em “Scoop” (Scoop, 2006); o contacto com o além, presente também em Scoop, e em “Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos” (You Will Meet a Tall Dark Stranger, 2010); e finalmente o fascínio e a sátira da alta classe inglesa, já vistos em “Match Point” (Match Point, 2005) e Scoop.

Continuando a escrever filmes de tema mais concentrado, se exceptuarmos “Para Roma com Amor” (To Rome with Love, 2012), Allen dá-nos uma história que tem por intuito fazer-nos pensar na nossa relação com o transcendente. E se o tema parece pesado, Allen trata-o com leveza e humor, na história de Stanley (Colin Firth), um reputado ilusionista, e habitual caçador de fraudes (um personagem sem dúvida inspirado na história pessoal de Harry Houdini), que um dia tem que se confrontar com uma médium, Sophie (Emma Stone), que parece genuína.

Tudo se passa na Côte d’Azur, entre a alta classe inglesa, passeios pela beira-mar, cocktails e festas de gala. Stanley é um típico cínico, racional ao ponto de ter eliminado qualquer centelha de paixão na sua vida (com uma relação com uma mulher que a razão dita como perfeita para si), e de um materialismo a toda a prova. Mas quando se convence que Sophie é genuína, abre a porta a todo um novo tipo de sentimentos. Passa a ver magia nas coisas pequenas da vida, e percebe que isso o faz mais feliz.

Só que, mais uma vez, tal como num truque de ilusão, nem tudo o que parece é, e Stanley fica a braços com mais um volte-face na sua vida e nas suas crenças. Tudo quando chegara ao ponto de já rezar por alguém. Algo perdura, no entanto, para lá de todo o racionalismo, verdade ou truques de ilusionismo. Os sentimentos de Stanley por Sophie, que para ele são um salto no escuro, e essa sim uma verdadeira prova de fé.

Colin Firth é competente no arrogante snob inglês, resistindo à habitual tentação de imitar Woody Allen (vejam-se os casos recentes de Jesse Eisenberg e Owen Wlson). Curiosamente é Emma Stone, numa personagem muito colorida, que parece mais perto da persona pública de Allen. É da relação dos dois actores que o filme evolui, mesmo sendo um dos pares mais atípicos do universo alleniano.

Se bem que fotografando e recriando uma era com a elegância a que nos habituou, Allen peca pela ligeireza com que nos mostra a evolução nos personagens, tornando Colin Firth pouco credível nas suas conversões. Percebe-se que o intuito de Allen é apenas atirar-nos com as suas metáforas à cara, sem construções elaboradas, o que consegue com um filme leve e divertido.

Numa fase da sua vida em que parece buscar uma nova forma de entender o transcendente, Woody Allen parece dizer-nos que talvez a verdadeira magia, aquela que a razão não pode explicar, esteja na capacidade que temos de amar.

Produção:

Título original: Magic in the Moonlight; Produção: Dippermouth / Gravier Productions / Perdido Productions / Ske-Dat-De-Dat Productions; Produtores Executivos: Ron Hez, Jack Rollins; País: EUA; Ano: 2014; Duração: 97 minutos; Distribuição: Sony Pictures Classics; Estreia: 25 de Julho de 2014 (EUA), 4 de Setembro de 2014 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Stephen Tenenbaum, Edward Walson; Argumento: Woody Allen; Co-Produção: Helen Robin, Raphaël Benoliel; Fotografia: Darius Khondji [filmado em Panavision, cor por DeLuxe]; Design de Produção: Anne Seibel; Montagem: Alisa Lepselter; Figurinos: Sonia Grande; Cenários: Jille Azis; Efeitos Especiais: Andrew Lim; Caracterização: Thi Thanh Tu Nguyen; Direcção de Produção: Helen Robin, Matthieu Rubin (França).

Elenco:

Colin Firth (Stanley), Emma Stone (Sophie), Simon McBurney (Howard Burkan), Eileen Atkins (Tia Vanessa), Erica Leerhsen (Caroline), Jeremy Shamos (George), Hamish Linklater (Brice), Jacki Weaver (Grace), Didier Muller (Mordomo), Marcia Gay Harden (Mrs. Baker), Peter Wollasch (Director de Palco), Ute Lemper (Cantora de Cabaret), Catherine McCormack (Olivia), Lionel Abelanski (Médico).

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