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Dial M for MurderE Hitchcock descobriu Grace Kelly! Com a estreia de “Chamada para a Morte” iniciava-se a breve colaboração de três filmes consecutivos entre Alfred Hitchcock e a preferida das suas divas: Grace Kelly. Continuando com a Warner Bros. Hitchcock voltava a filmar a cores (sempre com Robert Burks), e desta vez experimentando o 3D. Voltando a basear-no no teatro, Hitchock trabalhou um drama criminal de Frederick Knott, que também escreveu o argumento. Com Grace Kelly contracenavam Ray Milland, Robert Cummings e John Williams.

Sinopse:

O casal Wendice recebe a visita do escritor Mark Halliday (Robert Cummings), que às escondidas de Tony Wendice (Ray Milland), foi amante da sua esposa Margot (Grace Kelly). Temendo um divórcio o deixará sem dinheiro Tony planeia o assassinato da esposa, chantageando o antigo conhecido Lesgate (Anthony Dawson), para executar um crime elaboradamente planeado. Só que nem tudo corre como planeado, e quando Tony chega a casa tem de improvisar, tanto para esconder o móbil do crime, como para se tentar livrar ele próprio da esposa de uma forma ainda mais cruel.

Análise:

“Chamada para a Morte” é o primeiro filme da trilogia daqueles que Grace Kelly filmou com Alfred Hitchcock. É um dos mais conhecidos e citados filmes do realizador, e um dos pontos mais altos da carreira da actriz.

Voltando a usar como inspiração uma peça de teatro (algo que tanto fez desde o início da sua carreira), Hitchcock contou desta vez com o próprio autor, Frederick Knott, como argumentista. Tal revelar-se-ia essencial no preservar do espírito da obra, que Hitchcock queria que fosse fiel a uma certa unidade e claustrofobia que resulta do espaço cénico teatral. De facto, quase todo o filme decorre numa única sala, a sala de estar do casal Wendice, sendo as excepções uma breve sequência num clube, alguns planos da escada de acesso ao prédio, algumas vistas do exterior, e uma cena num tribunal que é filmada de um modo puramente abstracto (grande plano de Grace Kelly contra um cenário estilizado).

Na temática, algo muito caro a Hitchcock, o tema do falso culpado, aqui num cenário de montagem e desmontagem do crime perfeito, onde o suspense reside, não tanto no mistério (somos desde o início informados do que está para acontecer), mas sim sobre a sua solução. A este tema adiciona-se ainda a habitual transferência de culpa (Margot culpada de adultério é vítima da maquinação do marido, culpada de matar o seu assassino, e novamente vítima do marido). Acrescente-se a isto aquilo que alguns autores chamam a tortura de Hitchcock sobre as suas personagens femininas. O tema vem já desde “The Pleasure Garden” (1925) e “Easy Virtue” (1927), filmes do início da sua carreira, e tornar-se-ia recorrente. Mas poucas vezes o tema foi tão bem exemplificado como na descida ao inferno que é a evolução da história da personagem de Grace Kelly.

Todo o modo de criação de suspense de “Chamada para a Morte” é quase uma lição sobre o modo de pensar de Hitchcock. Com duas simples imagens de beijos, separadas por uma leitura de jornal, somos informados de que Margot Wendice (Grace Kelly) é infiel ao seu marido, Tony (Ray Milland), com um antigo conhecido, o escritor Mark Halyday (Robert Cummings). Sabemos de cartas roubadas e chantagens e nesse momento estamos com Margot e Mark, à frente de Tony. Só que a cena seguinte inverte os papéis. Assistimos ao planear de Tony, à sua revelação sobre quem roubou a carta e fez chantagem, e passamos a saber tudo o que ele sabe (e todos nós ansiamos por ver o crime concretizado). Mas ao dar-se o crime tudo sai ao contrário, e passamos a assistir ao modo como Tony pensa e tenta inverter os acontecimentos a seu favor. Tudo para no final, ajudados pelo Inspector Hubbard (John Williams) voltarmos a adiantar-nos a Tony, descobrindo o único pormenor que ele descurou, a localização da chave. É belíssima a cena em que o inspector descreve o pensamento de Tony, quase como um narrador exterior aos acontecimentos.

A planificação do crime (num duelo estarrecedor entre Ray Milland e Anthony Dawson), a sua execução de final imprevisto, a desmontagem que se segue, e as tentativas de Mark Halliday de criar um novo enredo (com a ironia macabra de, ao querer inventar uma história, acaba por escrever a verdadeira), até ao desenvolvimento final, são momentos inesquecíveis de golpes e contra-golpes no thriller hitchcockiano. No final temos um crime perfeito que só falhou porque houve um atraso num telefonema, e uma chave reveladora que só voltou ao lugar por esse atraso, algo que ninguém, excepto nós, sabe.

O filme é ainda servido por um grande elenco onde qualquer um dos cinco actores principais tem espaço para brilhar e construir a sua personagem de modo eficaz. Destacam-se ainda os diálogos magníficos, num misto de frieza cínica e emoção controlada, bem ao jeito do universo de Hitckcock. Por fim, relembre-se mais uma vez que, filmado quase como um teatro, o filme flui, virtude da escolha sempre perfeita de ângulos e planos.

O filme seria no entanto do desagrado de Hitchcock, que confessou só o ter filmado porque era o melhor argumento que tinha à mão, sem que a sua produção lhe trouxesse grande alegria.

“Chamada para a Morte” foi filmado fazendo uso da técnica 3D, mas tal não parece essencial para o filme. Destaca-se no entanto a inesquecível cena em que Grace Kelly procura a tesoura, quando está a ser estrangulada. Aí sim, a sua mão dirige-se para nós numa profundidade que ainda traz mais angústia a quem observa esse duelo. 1954 foi, aliás, um ano em que o breve namoro entre Hollywood e o 3D definhou, já que a técnica estava mal desenvolvida e nem sempre resultava, pelo que poucos cinemas a adoptavam. A partir de 2013 uma nova versão 3D do filme tem sido exibida nos cinemas.

Como curiosidade acrescente-se o facto de Anthony Dawson e John Williams repetirem os papéis da peça teatral (Lesgate e Inspector Hubbard), enquanto a primeira escolha de Hitchcock para o papel entregue a Ray Milland tinha sido Cary Grant.

O remake “Um Homicídio Perfeito” (A Perfect Murder, 1998) foi filmado por Andrew Davis, com Michael Douglas e Gwyneth Paltrow nos papéis do casal Wendice. Nesta versão os papéis do criminoso Lesgate e do amante Halliday são combinados num só, interpretado por Viggo Mortensen.

Produção:

Título original: Dial M for Murder; Produção: Warner Bros. Pictures; País:EUA; Ano: 1954; Duração: 88 minutos; Distribuição: Warner Bros.; Estreia: 28 de Maio de 1954 (EUA), 17 de Maio de 1955 (Cinema Monumental, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alfred Hitchcock; Produção: Alfred Hitchcock [não creditado]; Argumento: Frederick Knott [adaptado da sua peça homónima]; Música e Direcção de Orquestra: Dimitri Tiomkin; Fotografia: Robert Burks [cor por WarnerColor, Dual-Strip 3D por WarnerVision]; Direcção Artística: Edward Carrere; Montagem: Rudi Fehr; Cenários: George James Hopkins; Figurinos: Moss Mabry; Caracterização: Gordon Bau.

Elenco:

Ray Milland (Tony Wendice), Grace Kelly (Margot Mary Wendice), Robert Cummings (Mark Halliday), John Williams (Inspector-Chefe Hubbard), Anthony Dawson (Capitão Lesgate / Swann), Leo Britt (Narrador), Patrick Allen (Detective Pearson), George Leigh (Detective Williams), George Alderson (Primeiro Detective), Robin Hughes (Sargento O’Brien).