Etiquetas

, , , , , , , , ,

Hollywood EndingComo segundo filme produzido pela Gravier Productions, de Letty Aronson e Stephen Tenenbaum, e terceiro filme do seu contrato com a Dreamworks, Woody Allen deu-nos mais uma comédia ligeira sobre o mundo do cinema. Desta vez sem estrelas de maior no elenco, a principal mudança a nível técnico foi a substituição do director de fotografia que passou a ser Wedigo von Schultzendorff. O filme conta com as participações de George Hamilton, Téa Leoni, Debra Messing, Mark Rydell e Treat Williams.

Sinopse:

Val (Woody Allen) é um realizador de cinema numa fase perdida da sua carreira, quando se menciona apenas aquilo que fazia há 10 anos. A oportunidade para mudar chega quando a sua ex-mulher Ellie (Téa Leoni), lhe propõe fazer um filme para a produtora Galaxie de Hollywood, propriedade do seu novo noivo Hal (Treat Williams). A braços com dilemas artísticos e emocionais, Val acaba por aceitar, mas o stress é tal que Val fica psicossomaticamente cego no primeiro dia de filmagens.

Análise:

“Hollywood Ending” é mais uma comédia ligeira no estilo daquelas que Woody Allen tem vindo a fazer desde 1993, trazendo esta o sabor de material reciclado, como que um revisitar de conceitos habituais ao autor.

Senão vejamos, o filme centra-se sobre um super-neurótico Val (Woody Allen), que parece quase uma paródia de si próprio. Val é hipocondrícaco e passa o tempo a tomar comprimidos (como em “Ana e as Suas Irmãs” e “As Faces de Harry”), é um realizador de cinema cuja carreira parece perdida e de quem se admira apenas o passado (como em “Recordações”, ou “Crimes e Escapadelas”), odeia tudo o que seja relacionado com a Califórnia (como em “Annie Hall”), vê a mulher que ama trocá-lo por alguém que despreza artisticamente (como em “Crimes e Escapadelas”), quer filmar Nova Iorque a preto e branco (como fez com “Manhattan”), tem um director de fotografia chinês que não fala uma palavra de inglês (como foi o caso de Fei Zhao, em três dos seus filmes), vive com uma mulher pelo menos 30 anos mais jovem, que culturalmente não tem qualquer ligação com ele (o clichè da mulher desinteressante, mas simples e feliz transversal a toda a sua obra), continua apaixonado pela sua ex-mulher, com quem, apesar de momentos de raiva, consegue reviver alguma ternura (como em “Toda a Gente diz que Te Amo”) e graças à sua cegueira acaba com uma obra que é feita de palpites aleatórios de quem o rodeia (lembrando “Balas sobre a Broadway”). Por tudo isto é fácil ver este filme como um requentar de ideias antigas, ao mesmo tempo que se torna impossível dissociar Val personagem, de Woody Allen enquanto pessoa real, embora o mesmo continue a insistir que os seus filmes não o retratam.

O toque de originalidade provém do artifício que é a cegueira psicossomática do personagem de Allen, que tem de ser disfarçada pelos poucos a quem ele a confidencia, o que proporciona o humor do filme. Tal “doença” desaparece quando Val e o seu psiquiatra decidem que Val apenas precisa de voltar a contactar o filho, o que acontece de um modo bastante forçado, quando até aí nem sabíamos que Val tinha um filho. Igualmente inesperada é a reconcilação com Ellie, que acentua a tendência de Allen a partir de 1993 dar finais felizes aos seus filmes (com excepção de “Celebridades”), mesmo quando nada aponta nesse sentido. É o tal “final à Hollywood” que Allen outrora repudiava e que agora procura a toda a força, e que dá o nome ao seu filme.

Passando às interpretações, nenhuma se destaca num filme onde apenas Woody Allen consegue ser um centro de atenções, mas o que nem sempre é positivo, dado o exagero da sua auto-paródia. Al (Mark Rydell) é um bom sidekick para Allen. Hal (Treat Williams) é competente no papel do patrão e némesis de Val, um papel que já foi de Alan Alda, mas aqui com maior discrição, que nos faz simpatizar com Hal. Ellie (Téa Leoni) é demasiado estática para ser levada a sério como a fonte de toda a paixão e conflito de Val, e por contraste, Lori (Debra Messing), a sua nova companheira, é demasiado anedótica. Destaca-se a presença de Tiffani Thiessen, cujo curto papel resulta, talvez, na mais bem conseguida cena do filme.

Com uma cor saturada, Wedigo von Schultzendorff não consegue filmar Nova Iorque com a mesma candura e subtileza dos seus antecessores, mesmo que a nível da direcção artística o filme continue no patamar a que Allen nos habituou. Como curiosidade acrescente-se que o fotógrafo inicial foi Haskell Wexler, despedido por Allen por não conseguir dar ao filme a imagem pretendida pelo realizador, algo que já lhe tinha acontecido em “O Vigilante” (The Conversation, 1974) de Francis Ford Coppola. A própria montagem é pobre, resultando num filme longuíssimo, cheio de diálogos inconsequentes, onde raras vezes se entende se uma cena pretende ser cómica ou séria.

Resta a sátira implícita à produção cinematográfica, aquilo que move as produtoras, os resultados que “parecem filmados por cegos” e a volatilidade da fama e daquilo que constitui moda em termos artísticos. Mas mesmo estes conceitos são abordados de uma forma superficial que nunca se chega a levar a sério. A cereja no topo do bolo da sátira ao cinema, é que apesar de Val e todos considerarem o filme um lixo, em França é considerado uma obra prima. As frases finais “Aqui sou um vagabundo, em França um génio… Graças a Deus que os franceses existem”, acompanhado do convite para filmar na Europa é uma curiosa premonição do que aconteceria à carreira de Allen nos anos seguintes, quando passou a filmar quase exclusivamente na Europa.

“Hollywood Ending”, o mais longo filme da carreira de Allen até então tornou-se também o seu maior fracasso de bilheteira até então, e embora tornasse a ser mais visto na Europa que nos Estados Unidos, não chegou sequer a estrear no Reino Unido. Esta curva descendente continuaria nos dois filmes seguintes.

Produção:

Título original: Hollywood Ending; Produção: DreamWorks Pictures / Gravier Productions Inc. / Perdido Productions; Produtor Executivo: Stephen Tenebaum; País: EUA; Ano: 2002; Duração: 112 minutos; Distribuição: DreamWorks SKG; Estreia: 3 de Maio de 2002 (EUA), 3 de Janeiro de de 2003 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Letty Aronson; Argumento: Woody Allen; Co-Produção: Helen Robin; Fotografia: Wedigo von Schultzendorff (filmado em Technicolor); Design de Produção: Santo Loquasto; Montagem: Alisa Lepselter; Figurinos: Melissa Toth; Directora de Produção: Janice Williams; Direcção Artística: Tom Warren; Cenários: Regina Graves; Efeitos Especiais: John Ottesen, Ronald Ottesen; Caracterização: Nuria Sitja, Lori Hicks.

Elenco:

Woody Allen (Val Waxman), George Hamilton (Ed), Téa Leoni (Ellie), Debra Messing (Lori), Mark Rydell (Al), Treat Williams (Hal Yeager), Peter Gerety (Psiquiatra), Erica Leerhsen (Actriz), Jodie Markell (Andrea Ford), Isaac Mizrahi (Elio Sebastian), Marian Seldes (Alexandra), Aaron Stanford (Actor), Tiffani Thiessen (Sharon Bates), Mark Webber (Tony Waxman), Yu Lu (Cameraman), Barney Cheng (Tradutor), Anthony Arkin (Leitor na Audição), Ramsey Faragallah (Leitora na Audição), Kenneth Edelson (Oftalmologista), Ted Neustadt (Médico na Ressonância Magnética), Greg Mottola (Assistente de Realização), Fred Melamed (Pappas), Rochelle Oliver (Supervisora de Argumento).

Anúncios