Etiquetas

, , , , , , , ,

Něco z AlenkyBaseado na obra de Lewis Carroll “Alice no País das Maravilhas”, O filme de animação “Neco z Alenky” conta-nos a história da pequena Alice que, perdida entre a leitura de um livro, os seus sonhos e imaginação, se vê transportada para um mundo fantástico, onde os mais inusitados objectos ganham vida, os animais falam e se comportam como pessoas, e a lógica é ditada por um absurdo incompreensível.

Análise:

Membro do grupo surrealista checo, Jan Švankmajer é um autor que trabalhou no teatro, e mais tarde no cinema, onde se especializou em filmes de animação stop-motion, muitas vezes sob uma perspectiva infantil. Casado com a pintora surrealista Eva Svankmajerová, que é sua colaboradora em vários filmes, Švankmajer filmou várias curtas metragens a partir dos anos 1960, que lhe granjearam alguma fama, e o tornaram uma forte influência internacional (Terry Gilliam é um autor que o cita frequentemente como influência).

A primeira longa-metragem de Jan Švankmajer foi a sua adaptação de “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Carroll, a qual tem, já originalmente, uma forte componente surreal. O seu interesse pelos clássicos levá-lo-ia ainda a adaptar obras de Edgar Allan Poe e do Marquês de Sade.

Sendo o livro de Lewis Carroll uma alegoria de crescimento de uma jovem rapariga, através de uma paisagem tipicamente britânica, feita de momentos de humor absurdo e passagens simbólicas, Jan Švankmajer deixa de lado todo esse imaginário britânico, preferindo encenar a história na sua atmosfera negra feita de elementos bizarros.

Assim, com Švankmajer, Alice é uma criança verdadeira (as cenas em que surge em tamanho natural são filmagens em movimento real), que é filmada num mundo negro. Este é formado pelos interiores de um prédio lúgubre, de escadarias torpes em madeira, com as passagens de cenário feitas através de portas em estado decadente. Nesses ambientes negros e sujos, evoluem as restantes personagens, feitas dos materiais mais inesperados. As lagartas são meias, o cogumelo onde pousa a lagarta fumadora é uma maçaneta de madeira, os ouriços são almofadas de alfinetes, os restantes animais são embalsamados, por vezes perdendo serradura, outros feitos de esqueletos (inteiros ou parciais), ou mesmo marionetes (como o chapeleiro louco).

A atmosfera é por isso de sonho (ou pesadelo), com constantes transformações, e um imaginário infantil, de cacos, brinquedos antigos, cartas de jogar, pedaços de jogos ou objectos proibidos (como as omnipresentes tesouras). O espaço é ele próprio um personagem, transformando-se de modo ilógico, e fazendo com que cada porta anteriormente aberta seja sempre uma passagem para um novo lugar e episódio.

No essencial a história de Jan Švankmajer segue, quase como decalque, a de Lewis Carroll. Dá-se no entanto maior destaque à cenografia, e menos à linguagem que, à excepção das sequências da festa de chá e do julgamento de Alice, está quase ausente. A história perde assim algo do humor absurdo do original, ganhando na bizarria do imaginário visual. Esta bizarria usa temas recorrentes (alguns habituais à obra do autor) como partes do corpo (pedaços de carne, olhos, dentes), as citadas tesouras, a gaveta como portal entre mundos, os puxadores que são sempre arrancados das gavetas, a serradura no interior de cada animal, as escadas e portas, percorridas e atravessadas sem fim.

Tudo isto confere ao filme de Švankmajer uma identidade própria, que embora respeitando a história original, não deixa de construir sobre ela, com uma simbologia original, e uma atmosfera negra que cativa e surpreende em cada momento. A não negligenciar está a interpretação da jovem Kristýna Kohoutová, então com seis anos de idade, que faz todas as vozes, e de uma maneira única dá a Alice uma personalidade original, impulsiva, por vezes violenta, noutras doce.

Com o acordar de Alice no seu quarto, rodeada de objectos que lhe relembram momentos da história, mas vendo ainda que o coelho branco desapareceu por um compartimento secreto em forma de gaveta que contém uma tesoura, ficamos sem saber se a história foi ou não um sonho. Desse modo, Švankmajer prolonga a ambiguidade que perdura em todo o filme, num conto que é feito de associação livre, simbolismo, imaginação e muita fantasia.

O filme foi estreado primeiramente nos Estados Unidos, numa altura em que a obra de Švankmajer não era bem recebida no seu país de origem. Uma versão dobrada em inglês foi produzida em 1990, com a voz de Camilla Power no lugar da de Kristýna Kohoutová.

Produção:
Título original: Něco z Alenky; Produção: Condor Features / Film Four International / Hessischer Rundfunk (HR); País: Checoslováquia/Suíça/Reino Unido/República Federal Alemã; Ano: 1988; Duração: 86 minutos; Distribuição: First Run Features (EUA); Estreia: 3 de Agosto de 1988 (EUA), Novembro de 1990 (Checoslováquia).

Equipa técnica:
Realização: Jan Švankmajer; Produção: Peter-Christian Fueter; Argumento: Jan Švankmajer [baseado no livro de Lewis Carroll “Alice’s Adventures in Wonderland”]; Produtor Associado: Hannes Bressler; Design de Produção: Jan Švankmajer; Fotografia: Svatopluk Malý; Animação: Bedrich Glaser; Montagem: Marie Zemanová; Direcção Artística: Eva Svankmajerová, Jirí Bláha; Direcção de Produção: Jaromír Kallista, Eva Heiglová

Elenco:
Kristýna Kohoutová (Alice), Camilla Power (voz de Alice, na versão inglesa).

Anúncios