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The MaggieThe Maggie é a obsoleta barcaça à beira do colapso, conduzida teimosamente pelo capitão MacTaggart (Alex Mackenzie) e a sua tripulação (James Copeland, Abe Barker e Tommy Kearins) por rios, canais e costa escocesa. A necessitar de dinheiro para a licença do barco, MacTaggart engana um cliente, e oferece o seu barco como transporte de mercadorias. Quem não vai ficar contente ao descobrir o barco contratado é o dono da mercadoria, Calvin B. Marshall (Paul Douglas), um industrial americano que não vai olhar a esforços para parar The Maggie e resgatar aquilo que é seu.

Análise:

No mesmo ano em que estreara “A Lotaria do Amor” (The Love Lottery), realizado por Charles Crichton – um filme que a aproximava da fórmula da comédia romântica hollywoodesca –, a Ealing regressava ao seu formato habitual em “Loucuras de Milionário”. Mais que um regresso ao preto e branco, era acima de tudo o voltar ao solo inglês, e a histórias de derrotados que desafiam o mundo só porque querem manter a sua identidade e forma de viver, por mais arcaica e desactualizada que esta nos pareça. Realizado por um nome habitual da Ealing – Alexander Mackendrick, um norte-americano de origem escocesa – não espanta que o tema do filme seja o confronto entre o pragmático empreendedorismo norte-americano e a teimosia tradicionalista dos escoceses.

The Maggie é o nome da barcaça comercial do velho MacTaggart (Alex Mackenzie), em mau estado e a precisar de 300 libras para renovar a licença. Tal leva MacTaggart ao escritório da companhia marítima, onde ouve Mr. Pusey (Hubert Gregg) queixar-se ao seu patrão, o americano Calvin B. Marshall (Paul Douglas), por não conseguir um barco para lhe transportar peças de mobiliário. MacTaggart convence então Pusey de que trabalha para a companhia e engana-o mostrando-lhe um navio maior, conseguindo dele o dinheiro necessário para a licença. Quando Marshall se apercebe do logro decide procurar a barcaça, perseguindo-a de carro e de avião. Ao encontrá-la, Marshall coloca Pusey a bordo, para supervisionar a mudança da mercadoria para outro barco. Mas MacTaggart volta a enganar Pusey e este acaba preso, tomado por um caçador furtivo. Marshall toma então o assunto em mãos e embarca no The Maggie, mas os seus esforços vão sendo boicotados, ora por MacTaggart ora pelas próprias marés que chegam a deixar o barco atolado. Durante este tempo, e contacto com vilas por onde passam, e sobretudo com o pequeno grumete Dougie, Marshall começa a comover-se com a tripulação de MacTaggart. Quando, após mais uma falha do motor, The Maggie tomba, Marshall decide deitar fora a mobília já que prefere salvar o barco. No final, e apesar de MacTaggart nunca ter feito o pedido seguro pela mercadoria, Marshall deixa-o ficar com o dinheiro do contrato.

Com uma barcaça que significa um estilo de vida desactualizado, e uma tripulação de gente humilde que representa a solidariedade e amizade a toda a prova, “The Maggie” (o título português “Loucuras de Milionário” sentido para voltar a ser aqui repetido) é mais um exemplo da Ealing no elogio a estilos de vida da Grã-Bretanha profunda e a modos ser baseados em humildade, amizade e simplicidade, sentimentos ainda puros em relação às solicitações da sociedade moderna. Esta é, claro, representada pelo industrialista americano, homem de dinheiro, acção e propósitos firmes.

Sendo o filme uma (nevoeirenta) viagem, esta é-o tanto física (por canais e costa escocesa) como transformativa, com Marshall a chegar resoluto, irritado com o provincianismo de MacTaggart, para aos poucos ir absorvendo esses modos ainda intocados. Os episódios sucedem-se, sempre com alguma graça, como é a interacção de Marshall com o pequeno Dougie. Exemplos são a compra frustrada da barcaça, o aniversário na aldeia, ou a conversa com a jovem que explica preferir o pretendente que tem tempo para ela ao pretendente que só tem coisas para lhe dar – um murro no estômago de Marshall que está nesse momento a levar prendas a uma esposa que não é feliz.

Com o humor subtil típico da Ealing, que não procura o burlesco fácil nem situações demasiado rocambolescas, “The Maggie” traz-nos mais um olhar sobre modos diferentes de estar, onde o triunfo fica sempre do lado dos mais pequenos, que têm do seu lado a inocência dos modos simples e sem ambições que não sejam o viver entre os seus, preservando os hábitos ancestrais. Com escrita de William Rose, mais uma vez a Ealing nos dizia que o progresso e o futuro não são tudo, havendo muito a aprender com a tradição e a humildade.

O filme foi lançado nos Estados Unidos com o título “High and Dry”.

Imagem de "Loucuras de Milionário" (The Maggie, 1954), de Alexander Mackendrick

Produção:

Título original: The Maggie; Produção: Ealing Studios, Michael Balcon Productions; Produtor Executivo: Michael Balcon; País: Reino Unido; Ano: 1954; Duração: 92 minutos; Distribuição: General Film Distributors (GFD) (Reino Unido), Universal Pictures; Estreia: Fevereiro de 1954 (Reino Unido), 5 de Agosto de 1954 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Alexander Mackendrick; Produção: Michael Truman; Argumento: William Rose [a partir de uma história de Alexander Mackendrick]; Música: John Addison; Direcção Musical: Dock Mathieson; Fotografia: Gordon Dines [preto e branco]; Montagem: Peter Tanner; Direcção Artística: Jim Morahan; Guarda-roupa: Anthony Mendleson; Caracterização: Alex Garfath; Efeitos Especiais: Sydney Pearson; Efeitos Visuais: Geoffrey Dickinson; Direcção de Produção: L. C. Rudkin.

Elenco:

Paul Douglas (Calvin B. Marshall, O Americano), Alex Mackenzie (Capitão MacTaggart), James Copeland (MacGregor – O Imediato), Abe Barker (O Engenheiro), Tommy Kearins (Dougie – O Míúdo), Hubert Gregg (Pusey), Geoffrey Keen (Campbell), Dorothy Alison (Miss Peters, Secretária de Marshall), Andrew Keir (O Repórter), Meg Buchanan (Sarah MacTaggart), Mark Dignam (O Laird), Jameson Clark (Dirty Dan), Moultrie Kelsall (Capitão C.S.S.), Fiona Clyne (Sheena), Sheila Shand Gibbs (Empregada de Bar), Betty Henderson (Secretária de Campbell), Russell Waters (Hailing Officer), Duncan McIntyre (Hailing Officer), Roddy McMillan (Motorista Inverkerran), Jack Macguire (Estalajadeiro), John Rae (O Polícia), Jack Stewart (Capitão), Eric Woodburn (Capitão), Douglas Robin (Capitão), R.B. Wharrie (Inspector), David Cameron (Taxista Contratado), Catherine Fletcher (Empregada dos Correios), William Crichton (Mestre Portuário), Andrew Downie (Piloto do Avião), Herbert Cameron (Gillie), Gilbert Stevenson (Davy MacDougall).