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The Magnet Johnny (James Fox), o pequeno e muito imaginativo filho do casal de psicólogos Brent (Stephen Murray, Kay Walsh), aborrecido com uma quarentena que o impede de ir à escola, vagueia pela praia, e encontra um miúdo e quem convence a dar-lhe um enorme íman, a troco de um relógio invisível. Cedo Johnny se apercebe do seu erro, e tanto pelos remorsos como pelo medo das consequências, o rapaz vai tentando livrar-se do íman das mais diversas maneiras. Mas este vai, teimosamente, voltar-lhe sempre às mãos.

Análise:

Depois de “A Run for Your Money” (1949), “The Magnet” foi a segunda comédia realizada por Charles Frend para a Ealing. A partir de um argumento de T. E. B. Clarke – um dos nomes fortes da produtora – Frend dirigiu mais uma história com o pós-Segunda Guerra Mundial está sempre em pano de fundo, e na qual, mais uma vez, se vemos os mais pequenos (desta vez literalmente, pois o protagonista é uma criança) imiscuídos nas histórias dos grandes, sem perceberem bem como, algo que marcara logo a primeira comédia da Ealing: “Grito de Indignação” (Hue and Cry, 1947), de Charles Crichton, também ela escrito por T. E. B. Clarke.

Desta vez, a história segue as aventuras de Johnny Brent (a futura celebridade James Fox, então ainda creditado como William Fox), um rapaz de classe média-alta, filho de um psicólogo (Stephen Murray) e de uma sofisticada dona de casa (Kay Walsh). Criativo e de espírito aventureiro, Johnny, que devia estar em quarentena por contactos com escarlatina, vai brincar para a praia, onde vê um menino mais novo a brincar com um poderosíssimo íman. Fascinado, Johnny tenta trocá-lo pelo que tem nos bolsos, e consegue convencer o miúdo a aceitar um relógio invisível. Percebida a tramóia, Johnny é perseguido pela ama do menino (Gladys Henson), e ao cair na estrada, quase atropelado, um painel religioso que apela ao arrependimento pelos pecados do mundo convence-o de que o íman será a sua perdição. A partir daí Johnny tenta livrar-se do objecto, mas este vem sempre ter consigo, até que o dá ao inventor Pickering (Wylie Watson), que está construir um Iron Lung (um tipo de ventilador já obsoleto). Na apresentação do dito Iron Lung, Pickering conta a história do rapazinho que lhe deu o íman, descrevendo-o como o símbolo da generosidade. Segue-se um leilão beneficente, e o íman torna-se uma atracção, com Pickering a repetir e a alterar a história em função da audiência, e assim conseguindo uma avultada soma, que lhe permite terminar o projecto. O rapazinho mistério começa a ser procurado por todo o lado, ao mesmo tempo que Johnny ouve uma conversa da ama do menino enganado, em que esta fala da morte de alguém querido por coração partido. Não percebendo que a senhora fala de um periquito, Johnny imagina-se assassino do menino, e a partir daí qualquer alusão ao misterioso rapaz do íman de quem todos falam – inclusivamente os jornais e os seus pais – lhe parece uma busca pelo assassino. Isso fá-lo fechar-se em casa, e quando a mãe o força a sair, Johnny é identificado por Pickering, e tem de fugir à polícia, indo parar aos bairros periféricos de Liverpool, onde decide passar a viver. Aí, uma disputa com Spike (Keith Robinson), um rapaz local, provoca a queda deste e quase morte. Mas Johhny fica com ele até chegar ajuda, e acompanha-o ao hospital. Aí, Spike é salvo pelo uso do Iron Lung, e só então Johnny percebe que era procurado porque todos os viam como herói.

Embora acusado de tentar repetir a fórmula de “Hue and Cry”, o guião de T. E. B. Clarke é mais conciso e focado do que o daquele filme, centrando-se nas desventuras do jovem Johnny, um rapaz super-imaginativo. Note-se desde logo como Johnny é caracterizado, a experimentar com campainhas eléctricas, a aprender os signos dos vagabundos, ou em actividades tão inusitadas como tentar percorrer a sala sem tocar no chão. É essa imaginação desenfreada que o leva a temer um castigo divino e, depois disso, a deixar que a culpa o persiga, acreditando ter causado a morte de um rapaz mais novo, e vendo-se perseguido por todo o lado.

Desta vez, deixando Londres, e passando às margens do Mersey, perto de Liverpool (note-se o sotaque dos rapazes na sequência final), o filme de Charles Frend é mais um que nos leva ao coração da Inglaterra urbana, a refazer-se das feridas da guerra, para no-la mostrar através dos olhos de gente simples. Mais uma vez, não são as grandes decisões e causas que interessam num filme da Ealing, mas sim os mais prosaicos problemas locais, isto é, as desventuras de um jovem e o empenho de uma comunidade para conseguir um necessário aparelho médico. Por isso, e embora estejamos de vez em quando na casa luxuosa dos Brent, e nos salões onde se angariam fundos, muito do filme passa-se nas ruas, nos becos e esquinas, numa praia suja ou em comboios apinhados. Nos temas de conversa está ainda presente o esforço de guerra, o racionamento de comida e o medo de epidemias.

Nada disto impede o tom cómico do filme, seja pelo número de coincidências que levam Johnny ao seu desespero pessoal, seja pelas abordagens dos adultos, em particular o seu pai, psicólogo, sempre com explicações elaboradas para cada estado do filho, e sempre tão afastado da verdade. Como seria de esperar tudo acaba em bem, com Johnny a perceber que é visto como herói, mas, a mostrar ter aprendido a lição, entregando no final a sua medalha ao miúdo a quem tinha “roubado” o nominal íman. É, afinal, um conto moral que estamos a ver, e de modo divertido aprendemos mais um bocadinho do que são os valores morais e sociais que a nova Grã-Bretanha quer valorizar.

Talvez por ser comparado com filmes mais bem sucedidos do ano que o precedeu, “The Magnet” foi mal recebido por público e crítica, tornando-se um fracasso comercial.

William Fox em "The Magnet" (1950), de Charles Frend

Produção:

Título original: The Magnet; Produção: Ealing Studios / J. Arthur Rank Organisation; Produtor Executivo: J. Arthur Rank; País: Reino Unido; Ano: 1950; Duração: 78 minutos; Distribuição: General Film Distributors (GFD); Estreia: Outubro de 1950 (Reino Unido).

Equipa técnica:

Realização: Charles Frend; Produção: Michael Balcon; Produtor Associado: Sidney Cole; Argumento: T. E. B. Clarke; Música: William Alwyn; Direcção Musical: Ernest Irving; Fotografia: Lionel Banes [preto e branco]; Montagem: Bernard Gribble; Direcção Artística: Jim Morahan; Figurinos: Anthony Mendleson; Caracterização: Harry Wilton, Harry Frampton; Efeitos Especiais: Sydney Pearson; Efeitos Visuais: Geoffrey Dickinson.

Elenco:

Stephen Murray (Dr. Brent), Kay Walsh (Mrs. Brent), James Fox [como William Fox] (Johnny Brent), Meredith Edwards (Harper), Gladys Henson (Nannie), Wylie Watson (Pickering), Thora Hird (Amiga de Nannie), Julien Mitchell (O Mayor), Keith Robinson (Spike), Thomas Johnston (Perce), David Boyd (Mike), Geoffrey Yin (Choppo), Michael Brooke (Kit), Anthony Oliver (Policía), Molly Hamley-Clifford (Mrs. Dean), Harold Goodwin (Jogador de Pinball), Edward Davies (Jovem Delinquente), Joan Hickson (Mrs. Ward), Grace Arnold (Mrs. Mercer), Jane Bough (Sally Mercer), Bryan Michie (Locutor), Joss Ambler (Empresário), Sam Kydd (Carteiro), Russell Waters (Médica), Thea Gregory (Enfermeira), James Robertson Justice [como Seamas Mor Na Feasag] (Vagabundo).