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Publicação com o apoio de www.filmtwist.pt

The LodgersRachel (Charlotte Vega) e Edward (Bill Milner) são dois irmãos gémeos prestes a completar dezoito anos. Vivendo sozinhos numa ancestral mansão de família, os dois irmãos vivem aterrorizados pela maldição dos seus antepassados que os proíbe de estar fora dos seus quartos depois da meia-noite, de receber estranhos na mansão ou de se abandonarem um ao outro. Mas enquanto Edward aceita a tragédia como parte de si, Rachel sonha com a fuga e uma vida normal, o que ganha forma quando conhece Sean (Eugene Simon), um rapaz da aldeia vizinha que se enamora dela.

Análise:

E quando se pensa que o terror gótico é coisa do passado, surge sempre mais algum filme a mostrar-nos o contrário. É o que sucede com este “Os Inquilinos”, uma produção irlandesa filmada com elegância, fazendo bom uso dos cenários naturais de uma mansão centenária (a verdadeira Loftus Hall, a qual muitos crêem verdadeiramente assombrada) e terrenos circundantes. Aí, com uma luz misteriosamente húmida e sombras aflitivas, Brian O’Malley filmou um filme de época, no qual, desde o instante inicial, o peso de um passado tenebroso assombra os vivos, fazendo deles prisioneiros de um destino do qual não conseguem (ou parecem querer) escapar.

Estes vivos são os jovens irmãos, à beira dos dezoito anos, Rachel (Charlotte Vega) e Edward (Bill Milner), os quais se regem por uma canção de embalar que advoga três regras: nunca estar fora de casa depois da meia-noite, nunca deixar entrar um estranho, e nunca se deixarem um ao outro. Se estas forem desrespeitadas, os fantasmas dos seus antecessores voltarão para os castigarem. O equilíbrio (precário, já que Edward está convencido que o fim está próximo) é perturbado quando Sean (Eugene Simon), um rapaz local, se enamora de Rachel, a qual vê nele um meio de fuga.

Com um derrotismo e fatalismo que evocam “The Turn of the Screw”, de Henry James, ou ainda mais fortemente “The Fall of the House of Usher”, de Edgar Allan Poe, “Os Inquilinos” é a história de uma inevitabilidade que pesa sobre os protagonistas como se o seu destino estivesse definido pelo facto de terem nascido numa determinada família ou lugar. Com uma linha genealógica sui generis, a crença de que habitantes e casa (por casa entenda-se o seu passado e maldição) se fundem, é ao mesmo tempo o motor das acções do par de gémeos, mas também motivo de desconfiança tanto dos vizinhos, como de quem vem o filme. Maldição ou simples paranóia, poderemos perguntar. Talvez ambas sejam a mesma coisa, à luz do romantismo gótico, onde aflições de alma condicionam vidas, e estados de espírito derrotados se reflectem em exteriores como a mansão decadente ou o cemitério que lhe é vizinho.

Com a interpretação calma e contemplativa de Charlotte Vega a dominar o filme, em contraste com o nervosismo da de Bill Milner, “Os Inquilinos” é servido de bons efeitos especiais (sobretudo ligados à água e suas figuras fantasmagóricas) e algumas imagens inesquecíveis (a mansão sempre tenebrosa, o lago, as deslumbrantes cenas aquáticas). A água, como princípio e fim, omnipresente no filme, presta-se a muitas metáforas, no que pode ainda ser visto como um conto coming of age, feito de dolorosos crescimentos e descoberta sexual. Senão vejamos! A lengalenga que guia os irmãos não poderá estar simplesmente a ser mal interpretada, e ser apenas um conjunto de conselhos sensatos de pais a crianças? A morte dos pais não terá acontecido por razões bem prosaicas?

Mesmo com um enredo simples e um ritmo enervantemente lento (não é essa a intenção?), no qual nem todos os elementos contribuem validamente (as brigas na aldeia são bastante irrelevantes), “Os Inquilinos” triunfa pelo sábio construir de um ambiente bizarro, pelas interpretações, aspecto visual e sobretudo pelo final em aberto, que deixa qualquer ameaça ainda mais medonha.

Charlotte Vega e Bill Milner em "Os Inquilinos" (The Lodgers, 2017), de Brian O'Malley

Produção:

Título original: The Lodgers; Produção: Bórd Scannán na hÉireann, Epic Pictures Group, Tailored Films, Avatar Audio Post Production, Bowsie Workshop, E-Color Studios, Outer Limits Post Production, Point.360; Produtores Executivos: Patrick Ewald, Shaked Berenson, Macdara Kelleher, Rory Gilmartin; País: Irlanda; Ano: 2017; Duração: 90 minutos; Distribuição: Epic Pictures Group (EUA); Estreia: 8 de Setembro de 2017 (Festival de Toronto, Canadá), 23 de Fevereiro de 2018 (EUA), (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Brian O’Malley; Produção: Ruth Treacy, Julianne Forde; Produtora Em Linha: Ailish Bracken; Argumento: David Turpin; Música: Stephen Shannon, Kevin Murphy, David Turpin ; Fotografia: Richard Kendrick; Montagem: Tony Kearns; Design de Produção: Joe Fallover; Direcção Artística: Robert Clarke, Michael Moynihan; Figurinos: Sarajane ffrench O’Carroll; Caracterização: Edwina Kelly; Efeitos Especiais: Aoife Noonan, Ben O’Connor; Efeitos Visuais: Ben O’Connor.

Elenco:

Charlotte Vega (Rachel), Bill Milner (Edward), Eugene Simon (Sean), Deirdre O’Kane (Maura), Moe Dunford (Dessie), Roisin Murphy (Kay), David Bradley (Bermingham), Brendan O’Rourke (Soldado Inglês), Emmet Kelly (Soldado Inglês), Anthony Murphy (Pat), Elijah Egan (Colega de Dessie), Matthew Sludds (Colega de Dessie), Ronan Byrne (Colega de Dessie), Jack O’Malley (Jovem Edward).

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