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ShadowsBen (Ben Carruthers), um músico pouco empenhado e mais preocupado em sair com os amigos para beber, Lelia (Lelia Goldoni), uma pretendente a escritora em busca de amor, e Hugh (Hugh Hurd), um cantor romântico fora de tempo, são três irmãos que vivem entre tentativas de afirmação artística e intelectual e a rebeldia própria da beat generation, regada a álcool e muita música jazz. Ao mesmo tempo, assistimos também às descobertas românticas de Lelia, cortejada, primeiro pelo em>snob David (David Pokitillow), depois pelo fogoso Tony (Anthony Ray) e por fim pelo descontraído Davey (David Jones).

Análise:

Após o importante caso de tribunal Paramount vs. the Supreme Court, que pôs fim ao controlo em simultâneo dos três ramos das produtoras de Hollywood: produção, distribuição e exibição, o antigo studio system sofreu um severo golpe. Isto, aliado à ascensão da televisão, que fazia muita gente preferir ficar em casa, abalou o sistema de negócio de Hollywood. Por isso, a década de 1950 é uma década de extremos, por um lado é a década das superproduções em ecrã panorâmico e Technicolor, por outro é a década da abertura a um cinema mais intimista, com raízes no teatro, procurando emoções simples, mais honesto, longe do habitual escapismo que dominara o cinema norte-americano até então.

A década de 1950 é, também, a década da afirmação do chamado cinema independente, com autores de poucos recursos financeiros a trazerem novas vozes artísticas e novos modos de abordar o cinema. Entre eles, um dos mais destacados, que com os seus primeiros filmes tornou a expressão “cinema independente” algo apetecível, pelo menos num certo meio intelectual, foi um actor da mesma velha Hollywood, John Cassavetes. Iniciado como projecto da sua escola dramática (The Cassavetes-Lane Drama Workshop), o filme começou como prova de conceito, que passou ao plano concreto graças a uma espécie de crowdfunding entre colegas e amigos, décadas antes de o conceito ser inventado.

Com o realismo como sua primeira preocupação, John Cassavetes escreveu o guião (inicialmente procurava-se uma improvisação completa, e é assim que o filme é apresentado, mas acabou por existir mesmo um argumento escrito) que coloca os protagonistas na chamada beat generation, entre discussões pseudo-intelectuais, clubes de jazz, e autodescoberta de jovens adultos, entre relações amorosas e indecisões de vida.

A história centra-se em três irmãos mulatos, Ben (Ben Carruthers), Lelia (Lelia Goldoni) e Hugh (Hugh Hurd, o único dos três a ser verdadeiramente negro), o primeiro um trompetista pouco empenhado e em revolta com a vida, a segunda uma pretendente a escritora e o terceiro um cantor romântico. Filmando de um modo livre, em quadros separados, o filme de Cassavetes vai saltando de episódio em episódio. Neles vemos Ben a preferir passar mais tempo com os amigos Dennis (Dennis Sallas) e Tom (Tom Reese) a beber em bares e a engatar raparigas (e a envolver-se em brigas), que a tentar avançar a sua carreira. A sua rebeldia leva-os a rejeitar a intelectualidade que os rodeia, numa negação de valores e num cinismo para com os seus pares. Pelo contrário, Hugh leva a sua carreira tão a sério, que o vemos frequentemente envolvido em discussões pela integridade da sua actuação, pois o seu estilo antiquado coloca-o em conflito com os donos dos bares. Por fim temos Lelia, em descoberta pessoal, duvidando das suas capacidades como escritora, mas querendo descobrir mais sobre a arte e sobre si própria. O filme acompanha Lelia entre três relações, primeiro a mais platónica com David (David Pokitillow), um snob que provoca Lelia para a desafiar intelectualmente. O segundo é Tony (Anthony Ray), o qual conquista Lelia por ser mais fogoso que o asséptico David, mas que após as relações sexuais entre ambos deixa Lelia com uma sensação de vazio, à qual ele responde possessiva e obsessivamente, acabando por se chocar por os irmãos de Lelia terem pele mais escura que ela. O terceiro é Davey (David Jones), também ele um músico de jazz, descontraído, gentil e pouco pretensioso. Com Hugh a ter nova oferta de trabalho em Chicago, Lelia a aceitar sair com Davey, e Ben sem se definir quanto ao seu futuro, o filme termina em aberto.

Com um enredo muito solto, dividido em episódios separados (com o ecrã a passar a negro por um segundo, como forma de marcar os intervalos) e por vezes intercalados por imagens não relacionadas da vida nocturna da cidade, “Sombras” tem sempre uma atmosfera de certa improvisação. Esta é ainda sugerida pelas conversas díspares, com vozes que se sobrepõem e passagem entre vários grupos, como se alguém andasse de microfone a passear por uma festa. Por fim, a própria banda sonora, de jazz improvisado e sempre contínua, parece dizer-nos que não há pontos focais, crescendos ou dimuendos de intensidade emocional, mas sim um relato informal que vai mostrando descomprometidamente momentos da vida de alguns jovens da beat generation. Se o argumento dá um ar de improviso, ele foi na verdade escrito, mesmo que com liberdade para improvisar diálogos e comportamentos. Estes são frequentemente viscerais, sobretudo os de Ben Carruthers, com Lelia Goldoni a trazer o filme para uma atmosfera mais clássica. A própria fotografia, num preto e branco algo saturado, e a montagem, plena de cortes e saltos, ajuda a conferir ao filme um aspecto de documentário.

Como temas percebem-se a rebeldia juvenil, crises existenciais, viagens de autodescoberta na relação com o amor e o sexo, a relação entre mundo artístico e integridade profissional e toda a explosão da geração entre o renegar de verdades feitas e a descoberta de novos valores intelectuais e morais. Não espanta por isso a rebeldia de Ben ou a assertividade a amoralidade de Lelia, nem as discussões profissionais entre Hugh e o seu agente Rupert (Rupert Crosse). No seu todo, vê-se um Cassavetes que quer marcar uma posição, que sabe contrariar tudo o que aprendeu em Hollywood.

Embora bem recebido por alguns críticos de gosto mais avantgarde, o filme, estreado inicialmente em 1958, passou muito ao lado do público. Tal levou John Cassavetes a reeditá-lo, filmando mesmo novas cenas. A segunda versão, estreada em 1959 é, por isso, mais focada na relação entre os dois irmãos, sendo que o arco narrativo de Tony e o seu racismo perante os irmãos de Lelia surge atenuado. Tendo vindo a receber um culto crescente, “Sombras” foi galardoado com o Prémio da Crítica do Festival de Veneza de 1960.

Anthony Ray e Lelia Goldoni em "Sombras" (Shadows, 1959), de John Cassavetes

Produção:

Título original: Shadows; Produção: Lion International; País: EUA; Ano: 1958; Duração: 82 minutos; Distribuição: Lion International Films; Estreia: Novembro de 1958 (EUA), 30 de Dezembro de 1994 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: John Cassavetes; Produção: Maurice McEndree, Nikos Papatakis (novas filmagens); Produtor Associado: Seymour Cassel; Argumento: John Cassavetes; Música: Shafi Hadi (solos de saxofone), Charles Mingus (música adicional); Fotografia: Erich Kollmar [preto e branco]; Montagem: Len Appelson, John Cassavetes, Maurice McEndree; Design de Produção: Randy Liles, Bob Reeh; Cenários: Al Ruban, Bob Reeh; Direcção de Produção: Wray Bevins.

Elenco:

Ben Carruthers (Ben), Lelia Goldoni (Lelia), Hugh Hurd (Hugh), Anthony Ray (Tony), Dennis Sallas (Dennis), Tom Allen (Tom), David Pokitillow (David), Rupert Crosse (Rupert), David Jones (Davey), Pir Marini (Pir, o Pianista), Victoria Vargas (Vickie), Jack Ackerman (Jack, o Director do Estúdio de Dança), Jacqueline Walcott (Jacqueline), Cliff Carnell, Jay Crecco, Ronald Maccone, Bob Reeh, Joyce Miles (Rapariga no Restaurante), Nancy Deale (Rapariga no Restaurante), Gigi Brooks (Rapariga no Restaurante), Lynn Hamilton (Rapariga na Festa), Marilyn Clark (Rapariga na Festa), Joanne Sages (Rapariga na Festa), Jed McGarvey (Rapariga na Festa), Greta Thyssen (Rapariga na Festa).