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Whisky Galore!Em 1943, em Todday, uma remota ilha escocesa das Hébridas, a Segunda Guerra Mundial passa muito ao longe. Mas a tragédia abate-se de outra forma: o racionamento no Reino Unido resulta na falta de whisky na ilha. Enquanto os habitantes de Todday caem em depressão, e toda a vida social parece estagnada, um navio inglês encalha na costa, carregado de whisky. Parece óbvio aos ilhéus que têm de salvar o whisky do afundamento, o que é visto como acto de pilhagem pelo sisudo Capitão Waggett (Basil Radford), o inglês responsável por treinar a milícia local.

Análise:

Filme de estreia do realizador Alexander Mackendrick, “Whisky Galore!” (que é como quem diz: whisky a rodos!), baseia-se num livro de Compton McKenzie, o qual participou na escrita do argumento. Foi mais uma da comédias sociais com a que os Ealing Studios começavam a habituar os espectadores. Desta vez ambientado numa remota (e fictícia) ilha escocesa, e novamente fazendo referência à Segunda Guerra Mundial, o filme teve como ponto de partida uma história real (na ilha de Eriskay, em 1941), que nos vem mostrar o valor da união de uma comunidade remota face a tragédia descomunal: a falta de whisky.

O ano é 1943, e combate-se na Europa. Mas em Todday – uma ilha das Hébridas escocesas –, tirando os exercícios da milícia do Capitão Paul Waggett (Basil Radford), poucos se interessam por essa longínqua guerra. Tudo muda de figura quando o whisky acaba, o que leva o povo a entrar em depressão. Só que, providencialmente, um navio carregado de whisky encalha na costa. Salvos os tripulantes, há que decidir o que fazer com o carregamento. Enquanto Waggett está certo que é preferível deixá-lo afundar, pois o seu saque seria uma prova de anarquia, todos minam os seus intentos. E tal começa logo nos seus sargentos Odd (Bruce Seton) e George Campbell (Gordon Jackson), ambos noivos de filhas do dono do bar local, e interessados em reatar a vida social da ilha, para poderem casar. O resgate do whisky é um sucesso, como o são as peripécias que visam esconde-lo das buscas de Waggett, que entretanto pede ajuda às inglesas.

Exactamente como acontecera com “Passaporte para o Paraíso” (Passport to Pimlico), de Henry Cornelius, estreado no mesmo ano, temos de novo uma história em que uma comunidade fechada tem de se afirmar pela união contra poderes mais altos. Se no filme de Cornelius se tratava de um bairro londrino que declara a sua independência do Reino Unido, agora temos uma ilha escocesa que tem de desobedecer para obter ilicitamente o whisky de que tanto precisa. Como sempre, são as particularidades locais, o modo próprio de estar dos cidadãos, e aquilo que os distingue que marca a motivação. Neste caso é o whisky, um bem tão caro aos escoceses, e que na fictícia ilha de Todday é mais precioso que a água.

Por essa razão, a falta do whisky (que nos é descrita como calamidade maior que fome, peste ou invasão nazi) é motivo de tristeza e mau humor. Isto só não é compreendidos pelo Capitão Waggett, o inglês encarregado da defesa da ilha, mais preocupado em seguir regras à risca que em ambientar-se com os costumes locais. E estes – sendo-nos descrito no prólogo que os ilhéus não têm o conforto nem o entretenimento das grandes metrópoles – passam pela confraternização nos bares locais, na partilha de histórias regadas a whisky e nos bailes ao som da música tradicional que enche boa parte do filme.

E é quase como recolha etnográfica (conjuntamente com todo um anedotário que mostra a diferença entre ilhéus e a Grã-Bretanha, e com um elenco de escoceses e figurantes recrutados na ilha de Barra, que serviu de local de filmagens) que vamos passeando por Todday. Na ilha, vamos conhecendo as suas peripécias. Entre elas, os atribulados noivados do Sargento Odd com Peggy Macroon (Joan Greenwood) e do professor George Campbell com Catriona Macroon (Gabrielle Blunt). Vemos ainda como a mãe deste (Jean Cadell) tranca o filho em casa, proibindo-o de participar nas manobras militares, e como o pai noivas (Wylie Watson) vai exigir que os noivados sejam anunciados numa rèiteach, uma festa que tem de ser regada a whisky.

Por isso, à excepção do sisudo Capitão Waggett, todos têm razões para querer espoliar o navio naufragado na costa, e albergando 50 000 caixas de whisky, desde que isso não ocorra no Sabbath, claro, dia em que os calvinistas não podem trabalhar. E entre confusões, conversas, brigas inconsequentes e mal-entendidos entre todos, a população vai-se organizar para “salvar” o whisky do afundamento, e esconde-lo de Waggett que acha tudo isto uma queda na anarquia.

Entre o humor ligeiro, os momentos para as canções, um leve romantismo, e as corridas finais, o filme é uma viagem divertida pelo provincianismo e tudo o que isso tem de puro e original, ao mesmo tempo que nos volta a dizer (como outros filmes da Ealing antes deste) que é nesse original modo de vencer o dia a dia, e não em grandes feitos internacionais, que o verdadeiro espírito de uma nação se revela.

Consta que a primeira versão do filme não agradou ao produtor Michael Balcon, o qual trouxe Charles Chricton para adicionar algumas cenas e voltar a editar o filme. Seja como for, “Whisky Galore!” foi o primeiro grande sucesso da Ealing, merecendo por isso distribuição internacional. Nos EUA viria a chamar-se “Tight Little Island”, com a insistência da censura para que o final dissesse que o whisky não trouxe felicidade, e que o único casal feliz foram Odd e Peggy, os quais não bebiam.

O filme teve mesmo direito a uma sequela: “Foguetões de Rabiar” (Rockets Galore!, 1956), realizado por Michael Relph, e teve um remake em 2016, com o mesmo nome, e dirigido por Gillies MacKinnon. Ainda em 2009, “Whisky Galore!” foi adaptado a musical, dirigido por Ken Alexander.

Gordon Jackson, James Robertson e Joan Greenwood em "Whisky Galore!" (1949), de Alexander Mackendrick

Produção:

Título original: Whisky Galore!; Produção: Ealing Studios; Produtor Executivo: J. Arthur Rank [não creditado]; País: Reino Unido; Ano: 1949; Duração: 80 minutos; Distribuição: General Film Distributors (GFD) (Reino Unido), Universal Pictures; Estreia: 16 de Junho de 1949 (Reino Unido).

Equipa técnica:

Realização: Alexander Mackendrick; Produção: Michael Balcon; Produtor Associado: Monja Danischewsky; Argumento: Compton MacKenzie, Angus MacPhail [a partir do livro de Compton MacKenzie]; Música: Ernest Irving (a partir de temas tradicionais escoceses); Fotografia: Gerald Gibbs [preto e branco]; Montagem: Joseph Sterling, Charles Crichton [não creditado]; Direcção Artística: Jim Morahan; Guarda-roupa: Anthony Mendleson; Caracterização: Ernest Taylor [não creditado]; Efeitos Especiais: Geoffrey Dickinson, Sydney Pearson; Direcção de Produção: L. C. Rudkin.

Elenco:

Basil Radford (Capitão Paul Waggett), Joan Greenwood (Peggy Macroon), James Robertson Justice (Dr. Maclaren), Gordon Jackson (George Campbell), Wylie Watson (Joseph Macroon), Catherine Lacey (Mrs. Waggett), Jean Cadell (Mrs. Campbell), Bruce Seton (Sargento Odd), Henry Mollison (Mr. Farquharson), Morland Graham (The Biffer), John Gregson (Sammy MacCodrun), Gabrielle Blunt (Catriona Macroon), Duncan Macrae (Angus MacCormac), James Woodburn (Roderick MacRurie), James Anderson (Velho Hector), Jameson Clark (Agente Macrae), Mary MacNeil (Mrs. MacCormac), Norman MacOwan (Capitão MacPhee), Alastair Hunter (Capitão MacKechnie), Frank Webster (Imediato), Compton MacKenzie (Capitão Buncher (as Compton Mackenzie).