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Passport to PimlicoQuando uma bomba que restava da Segunda Guerra Mundial é acidentalmente detonada em Pimlico, os seus cidadãos descobrem um antigo tesouro, e documentos que provam que Pimlico é ainda pertença do antigo ducado da Borgonha. Decididos a ficar com o tesouro, em tempo de racionamento e privações, os habitantes de Pimlico declaram a independência da sua Borgonha e desobediência às leis inglesas, criando um incidente diplomático de consequências imprevisíveis, que o governo britânico não parece saber como resolver.

Análise:

Depois do sucesso de “Hue & Cry – Grito de Indignação” (Hue and Cry, 1947), de Charles Crichton, em 1948, a Ealing Studios deu-nos a sua muito menos bem sucedida segunda comédia, “Another Shore”, do mesmo realizador. Não obstante, 1949 foi o ano de afirmação da produtora no domínio da comédia, com Michael Balcon a decidir o lançamento de três filmes, o primeiro dos quais seria este “Passaporte para o Paraíso”, na estreia do realizador Henry Cornelius, em mais um argumento de T. E. B. Clarke, um guionista que se especializava em pegar em premissas absurdas, tratando-as como se fossem lógicas, nesse nonsense tão caro ao público inglês.

E a premissa é a seguinte, no detonamento acidental de uma bomba que não rebentara na Segunda Guerra Mundial, os habitantes de Pimlico (um bairro de Londres) descobrem um tesouro enterrado. Na investigação sobre a sua origem, é descoberto que este pertence ao ducado da Borgonha, que, agora extinto em França, possuía ainda umas ruas em Londres, num tratado nunca revogado. Ou seja, graças à investigação da professora Hatton-Jones (Margareth Rutherford), os tribunais decidem que os cidadãos de Pimlico são os verdadeiros herdeiros do tesouro, uma vez que são os únicos habitantes da Borgonha. Estes declaram a independência de Pimlico como Borgonha, e deixam de obedecer às leis inglesas, nomeadamente o fecho das lojas e racionamento da comida por senhas, o que causa um embaraço ao governo britânico. Com a chegada do herdeiro da família ducal da Borgonha (Paul Dupuis), é nomeado um comité, que inclui os comerciantes Arthur Pemberton (Stanley Holloway), Edie Randall (Hermione Baddeley) e o polícia Fred Cowan (Sydney Tafler), com o banqueiro Mr. Wix (Raymond Huntley) a tomar conta das finanças. Num momento de racionamento e privações na Inglaterra, a nova Borgonha torna-se zona livre para o mercado negro de bens, que ali podem ser negociados livremente, causando grandes romarias ao local. Tal leva o primeiro-ministro (Basil Radford) e ministro dos negócios estrangeiros (Naunton Wayne) a reconhecer a gravidade da situação, decretando um bloqueio, onde as entradas e saídas de Pimlico requerem passaporte. Se a princípio a vida dos cidadãos de Pimlico parece divertida, cedo começam os problemas, com o corte da energia e da água (esta ainda roubada durante a noite), e o fim das reservas de comida. O governo britânico, num momento em que o caso já domina a opinião pública, aproveitando essa fraqueza, propõe-se a receber os cidadãos de Pimlico, mas quando estes se preparavam para partir, uma criança, com pena deles e atira-lhes comida, o que gera uma onda de apoio com toda a gente a querer ajudá-los. Para pôr fim a uma situação incomportável, de modo a q ninguém perca a face, Mr. Wix propõe um empréstimo do tesouro ao estado britânico, o qual, por sua vez, aceitará a unificação do território.

Ainda sob o tema da Londres semidestruída pela guerra, como acontecera em “Hue & Cry – Grito de Indignação”, temos mais uma história de cidadãos simples, em luta contra algo bem maior, recorrendo simplesmente ao seu engenho natural, ao espírito de grupo e a essa forma de se ser inglês, que não é a dos grandes clubes ou gabinetes, mas a do homem das ruas, que sofreu, e ainda vive privações, mas que as carrega com um sorriso e uma enorme alegria de vida. Esse pretendido realismo é trazido pelo elenco, sempre ruidoso e alegremente quezilento, e pelos cenários naturais, com os exteriores filmados nas semidestruídas ruas de Lambeth (não muito longe de Pimlico).

Segundo T. E. B. (ou Tibby) Clarke, a ideia terá provindo de um acontecimento real durante a Segunda Guerra Mundial, quando o governo canadiano decretou que o Hospital Civil de Ottawa era temporariamente território neerlandês, para que a princesa Juliana dos Países Baixos desse à luz “na sua pátria”. Habituado em usar situações absurdas, que desenvolvia com recurso a uma aparente lógica interna, Clarke usou esse ponto de partida como uma espécie de ensaio laboratorial para criar situações cómicas. Tudo começa na revelação em tribunal de que Pimlico é ainda pertença do ducado da Borgonha, e o que daí decorre é completamente imprevisível. São, inicialmente, as desobediências à lei inglesa, com os bares a ficarem abertos e a música a poder tocar-se à noite, é o fim das senhas de racionamento, o mercado livre onde os bens obtidos no mercado negro são vendidos livremente, são as invasões dos londrinos que querem aproveitar essa realidade, é o bloqueio, a necessidade de passaporte, os problemas burocráticos e protocolares no estabelecimento de relações, e por fim a imposição de restrições, e a ajuda humanitária.

Com um elenco colorido (com muitos pequenos papéis sempre bem conseguidos), representando uma faixa bem popular de cidadãos, as adversidades são sempre encaradas com optimismo e os problemas resolvidos com um sorriso. É como se o absurdo da situação fosse combustível para alimentar o engenho e o voluntarismo das dezanove famílias de Pimlico/Borgonha. Como alguém diz a certa altura: “É por termos sido sempre ingleses que defendemos os nossos direitos de cidadãos da Borgonha”, ou seja, a brincar, Clarke dizia que ser inglês era, mais que uma nacionalidade, um estado de espírito que se revelava no comportamento, e não na bandeira defendida.

Muitos autores têm visto nesta história uma espécie de nostalgia pelo espírito de entreajuda dos londrinos, durante a guerra, onde mais que governos ou autoridades, o que contava era a união de um povo decidido a sobreviver. Curiosamente, isto encontra ecos no Bloqueio de Berlim Ocidental (1948-1949), com pontes aéreas humanitárias a serem estabelecidas pelos ocidentais, algo que terá influenciado a parte final do filme de Cornelius… mesmo que esse atirar de comida tenha sido – cenas antes – visualmente comparado com o dar comida aos animais no Zoo. Claro que no final tudo fica bem, as autoridades inglesas são de novo reconhecidas, e volta o sistema de racionamento, tudo celebrado num grande banquete, que não se chega a concretizar, porque quando o relógio toca a hora da reunificação com a Inglaterra chega o tempo chuvoso.

Muito bem recebido por público e crítica, “Passaporte para o Paraíso” teve direito a apresentação (fora de competição) em Cannes, e nomeações para o BAFTA de Melhor Filme Inglês, e o Oscar de Melhor Argumento. Actualmente, com o recente BREXIT que separou o Reino Unido da União Europeia, o filme parece ter ganho um redobrado sentido.

Barbara Murray e Stanley Holloway em "Passaporte para o Paraíso" (Passport to Pimlico, 1949), de Henry Cornelius

Produção:

Título original: Passport to Pimlico; Produção: Ealing Studios; Produtor Executivo: J. Arthur Rank [não creditado]; País: Reino Unido; Ano: 1949; Duração: 84 minutos; Distribuição: General Film Distributors (GFD) (Reino Unido), Eagle-Lion Films (EUA); Estreia: 28 de Abril de 1949 (Reino Unido), 15 de Julho de 1951 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Henry Cornelius; Produção: Michael Balcon; Produtor Associado: E. V. H. Emmett; Argumento: T. E. B. Clarke; Música: Georges Auric; Direcção Musical: Ernest Irving; Fotografia: Lionel Banes [preto e branco]; Montagem: Michael Truman; Direcção Artística: Roy Oxley; Figurinos: Anthony Mendleson; Caracterização: Ernest Taylor, Harry Frampton [não creditado].

Elenco:

Stanley Holloway (Arthur Pemberton), Hermione Baddeley (Edie Randall), Margaret Rutherford (Professora Hatton-Jones), Paul Dupuis (Duque da Borgonha), Basil Radford (Gregg), Naunton Wayne (Straker), Raymond Huntley (Mr. Wix), John Slater (Frank Huggins), Jane Hylton (Molly), Betty Warren (Connie Pemberton), Barbara Murray (Shirley Pemberton), Sydney Tafler (Fred Cowan), Frederick Piper (Garland), Philip Stainton (P. C. Spiller), Charles Hawtrey (Bert Fitch), Roy Carr (Benny Spiller), Nancy Gabrielle (Mrs. Cowan), Malcolm Knight (Monty Cowan), Roy Gladdish (Charlie Randall), Stuart Lindsell (Médico Legista), Gilbert Davis (Bagshawe), Michael Hordern (Bashford), Arthur Howard (Bassett), Bill Shine (Captitão Willow), Harry Locke (Sargento), Sam Kydd (Sapador), Joey Carr (Dave Parsons), Lloyd Pearson (Fawcett), Arthur Denton (Agente Alfandegário), Tommy Godfrey (Motorista do Autocarro), James Hayter (Comissário).