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Another ShoreGulliver Sheils, é um ex-escriturário de taxas aduaneiras de Dublin, que deixou o emprego para perseguir o seu sonho de ir viver numa ilha do Pacífico chamada Rarotonga. Para tal, e como não tem dinheiro para a viagem, Gulliver tem um plano insólito. Passa os dias à espera que um idoso tenha um acidente, para ele o socorrer caindo nas suas graças e tornando-se seu herdeiro. Seja num parque onde os velhinhos caminham, seja numa estrada movimentada onde há muitos acidentes de automóvel, Gulliver espera pacientemente, só sendo importunado por Jennifer, a bela mulher de classe alta que decidiu apaixonar-se por ele.

Análise:

Aquela que é considerada a segunda das Ealing Comedies, “Another Shore”, também realizada por Charles Crichton, é, um pouco como a sua antecessora, “Hue & Cry – Grito de Indignação” (Hue & Cry, 1947) uma história divertida, mas sem muito de cómico. Aliás, o filme assume-se como uma “tragi-comédia” logo desde a sequência de créditos iniciais em que vemos duas mãos escrevendo alternadamente “comédia” e “tragédia” antes de adoptarem uma solução de compromisso. Partindo de um livro de Kenneth Reddin, Crichton dá-nos uma história algo irreal de contornos divertidos, mesmo que o seu propósito não seja provocar-nos gargalhadas.

E essa história é a de Gulliver Sheils, um irlandês, empregado num escritório de taxas aduaneiras, que decidiu deixar o emprego para procurar o seu sonho: ir viver na ilha tropical de Rarotonga. Para isso, Gulliver, sem dinheiro para a viagem, tem um plano. Todos os dias, vai para o parque de St. Stephen’s Green, em Dublin, onde espera o colapso de uma pessoa idosa, que ele socorra solicitamente, caindo nas suas graças e tornando-se seu herdeiro. Tal propósito é criticado por Nora (Sheila Manahan), a vizinha que lhe faz alguns serviços domésticos e que está apaixonada por ele, e por Jennifer (Moira Lister), uma elegante mulher da alta sociedade, sempre disposta a convidá-lo para saídas nocturnas, mesmo que para Gulliver isso seja uma distracção inútil. A contínua frustração dos seus planos leva-o a mudar de lugar, do parque para as escadarias de um edifício de Grafton Street, onde espera acidentes de automóvel. Aí tem de competir pelo lugar com pedintes e vendedores ambulantes que chamam a polícia pela concorrência desleal, levando Gulliver a fingir-se pedinte. Uma série de encontros fortuitos com Jennifer levam-na a voltar a convidá-lo (por vezes forçando-o a segui-la), e os dois acabam por passar mais tempo juntos, levando Jennifer a apaixonar-se por Gulliver. Também fortuitamente, Gulliver encontra várias vezes o milionário Alastair McNeill (Stanley Holloway), aparentemente descontrolado, sempre em fuga do seu motorista e em busca de um bar onde possa beber. Numa conversa, Gulliver percebe que McNeill também é apaixonado pelas ilhas do Pacífico, sonhando voltar ao Tahiti, onde já viveu. Os dois formam um pacto e decidem partir juntos. Mas no caminho do aeroporto, sofrem um acidente contra o carro de Jennifer. Gulliver parte um braço e não pode viajar, e voltamos a vê-lo, meses depois, já casado com Jennifer, e novamente empregado, ignorando os acidentes que ocorrem em Grafton Street.

Com uma história aparentemente ridícula (um homem cujo plano é socorrer um idoso que o faça seu herdeiro), “Another Shore” é mais uma história típica da Ealing, onde alguém, ou algum grupo social, desafia as normas do bom senso e da sociedade. Desta vez, não será fácil tomarmos o partido de quem apenas sonha com riqueza fácil, e uma vida de ócio. No entanto, a inocência de Gulliver (note-se o nome do aventureiro e descobridor criado Jonathan Swift) leva-nos a sorrir com as suas desventuras e métodos incomuns: da corrida para os acidentes, à ajuda forçada às vítimas ao manter de sais de frutos junto a si, para reanimar desmaiados. Entre estes episódios fica na memória a velhinha que se defende dele como quem teme um violador, ou a homenagem do detective policial quando pensa que Gulliver pede altruisticamente para ajudar o colega doente.

Filmado em Dublin, fazendo uso de cenários naturais, e conferindo-lhe aquele toque de realismo social já presente no filme anterior, “Another Shore” evolui em jeito de comédia romântica. Nela, e talvez como se quer no género, poucas das situações ou comportamentos são particularmente verosímeis. A história do milionário parece estranha, e ainda mais o é o comportamento aventureiro de Jennifer, mulher muito independente a moderna para a época. O filme parece viver de coincidências e episódios soltos, muitas vezes sem que haja o mínimo de preocupação em ligá-los ou fazê-los fluir. Exemplos são os encontros com Jennifer, a qual parece desde o primeiro momento decidida a conquistar Gulliver (sabe-se lá porquê, talvez por ver nele um desafio). A estes juntam-se ainda os encontros com o milionário que tudo faz para o deixarem beber, tornando-se logo financiador de Gulliver, no que parece uma certa alusão à relação entre o pedinte Chaplin e o milionário de “Luzes da Cidade” (City Lights, 1931).

Talvez por essa falta de um argumento mais coeso ou estimulante, e mesmo contando o elenco com o célebre Stanley Holloway e a lindíssima moira Lister, “Another Shore” não conseguiu cativar o grande público, ficando muito aquém daquilo que seriam as melhores comédias da Ealing. Pela positiva note-se a bonita fotografia, e algum subtil humor irlandês, em particular a piada recorrente de ver em Gulliver um escritor, por andar sempre de caderno debaixo do braço.

Produção:

Título original: Another Shore; Produção: Ealing Studios; Produtor Executivo: J. Arthur Rank [não creditado]; País: Reino Unido; Ano: 1948; Duração: 77 minutos; Distribuição: General Film Distributors (GFD) (Reino Unido); Estreia: 27 de Novembro de 1948 (Reino Unido).

Robert Beatty e Stanley Holloway em "Another Shore" (1948), de Charles Crichton

Equipa técnica:

Realização: Charles Crichton; Produção: Michael Balcon; Produtor Associado: Ivor Montagu; Argumento: Walter Meade [a partir do livro de Kenneth Reddin]; Música: Georges Auric; Direcção Musical: Ernest Irving; Fotografia: Douglas Slocombe [preto e branco]; Montagem: Bernard Gribble; Direcção Artística: Malcolm Baker-Smith; Figurinos: Anthony Mendleson; Caracterização: Ernest Taylor, Harry Frampton [não creditado]; Efeitos Especiais: Richard Dendy, Geoffrey Dickinson; Direcção de Produção: Slim Hand.

Elenco:

Robert Beatty (Gulliver Sheils), Stanley Holloway (Alastair McNeill), Moira Lister (Jennifer), Michael Medwin (“Yellow” Bingham), Maureen Delaney (Mrs. Gleeson), Fred O’Donovan (Coghlan), Sheila Manahan (Nora), Dermot Kelly (Sobrinho de Mrs. Gleeson), Irene Worth (Bucksie Vere-Brown), Bill Shine (Bats Vere-Brown), Muriel Aked (Velhinha), Wilfrid Brambell (Arthur Moore, o Advogado), Michael Dolan (Twiss), W. A. Kelly (Velho Roger), Michael Golden (Detective Broderick), Michael O’Mahoney (Agente Fleming), Eveline Kirkwood-Hackett (Mulher Estranha), John Kelly (Larry, o Barman), Desmond Keane (Parkes), Michael Brailsford (Moço de Recados).