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Hue & CryJoe Kirby (Harry Fowler) é um imaginativo rapaz londrino de um bairro de classe baixa que, como os outros rapazes do bairro, vibra com aventuras criminais de folhetim impressas semanalmente num jornal. Num dos números, ao notar uma coincidência de uma morada e de uma matrícula de um carro, Joe convence-se que estas histórias são código entre bandidos. A partir daí reúne o seu bando de amigos, para seguir pistas que surgem em cada folhetim, e tentar chegar aos criminosos antes da polícia, mesmo que isso os deixe sempre em apuros.

Análise:

Desde que, em 1902, Will Barker comprou o edifício White Lodge, em Ealing Green, na zona occidental de Londres, para criar os primeiros Ealing Sudios, que estes estiveram ao serviço da produção cinematográfica, considerando-se serem hoje os mais antigos do mundo em actividade continuada num mesmo local. Mudando de mãos várias vezes, os Ealing Studios tornaram-se uma marca conhecida quando o famoso produtor Michael Balcon, os usou para os seus filmes, a partir de 1938, com Ealing a passar a ser o nome da produtora. Pertencente à esfera da poderosa Rank Organization, em 1944, a Ealing manteve um cunho próprio, nunca deixando de produzir filmes de diferentes géneros. Seria, no entanto, com as suas comédias – dirigidas por realizadores como Charles Crichton e Alexander Mackendrick, e fazendo uso dos serviços de actores como Alec Guinness, Stanley Holloway e Alastair Sim – que a Ealing, ganharia a sua identidade mais distintiva, um pouco à imagem do que a Hammer faria com o terror. Foi dessa série de filmes, que ficaram conhecidos como Ealing Comedies, que este “Hue & Cry – Grito de Indignação” ser tornou o primeiro representante, mesmo que seja mais um filme de aventuras juvenis que propriamente uma comédia.

Numa altura em que a Inglaterra recuperava da Segunda Guerra Mundial, o cinema queria-se leve e de entretenimento, sendo aí que se insere o filme que Charles Crichton realizou em 1947, e que era, acima de tudo, uma aventura juvenil, que partia dos folhetins com histórias de intrépidos da lei contra malvados criminosos, impressos semanalmente e vendidos por uma moeda. “Hue & Cry – Grito de Indignação” fala-nos de um grupo de rapazolas, galhofeiros e quezilentos, que se delicia a ler essas histórias, como é o caso do pequeno Dicky (Gerald Fox), apanhado a ler no coro da igreja, ou do maiorzinho Joe Kirby (Harry Fowler), o qual, numa coincidência de moradas e matrículas de carro, entre um folhetim e a realidade, crê, e convence os outros que as histórias são código entre ladrões. Tal vale-lhe ser apanhado pelo Inspector Ford (Jack Lambert), a invadir uma loja, mas este acha piada ao rapaz, e arranja-lhe um emprego em Covent Garden com o seu amigo Jim Nightingale (Jack Warner). Não convencido, Joe vai com Dicky à morada do autor das histórias Felix H. Wilkinson (Alastair Sim), e aí descobrem que estas são publicadas com alterações ao original, que Wilkinson comprova serem códigos. Novamente apanhados (agora em extenso grupo), quando pretendiam interferir no crime seguinte, os rapazes acabam por conhecer Norman (Ian Dawson), um jovem que trabalha no jornal que publica as histórias, e ajuda Joe e os outros a descobrir como poderão as mensagens surgir no texto. A suspeita é a secretária Rhona (Valerie White), que os rapazes seguem, apreendem e tentam torturar à sua maneira. A chegada de Nightingale revela ser ele o autor das mensagens, e quando salva Rhona, Dicky segue-os escondido no carro. Com todos os factos em sua posse, Joe e os outros armam uma cilada, obrigando Wilkinson a escrever nova história, na qual, usando o código dos bandidos, convocam todos os elementos para o armazém secreto de Nightingale. Aí, os bandidos acabam todos detidos por dezenas de rapazes, com Joe a imobilizar o próprio Nightingale.

É com um pé no realismo social (pelo retrato das condições precárias de uma Londres muito destruída, e de um conjunto de rapazes pobres) e outro no romance de aventuras juvenis que Charles Crichton desenvolve o seu filme. Este, simples e sempre bem-disposto, ganha um enorme fulgor nos planos da cidade, corridas por ruas e campos, seja entre ruínas ou estradas movimentadas. Esse realismo vive ainda do modo de actuar dos rapazes, sempre eufóricos, sempre com conclusões precipitadas e sempre prontos a zaragatear por qualquer ponto de vista divergente, usando uma linguagem expressiva com um calão de rua muito colorido (e inocente – sinal dos tempos). Nesse conjunto de factores realistas, a história é de grande aventura e romantismo, como se estivéssemos a assistir a uma “Ilha do Tesouro” em plena cidade, com piratas e aventureiros mundanos, ou a uma história urbana de Enid Blyton, onde cada descoberta é o abrir de portas para a aventura seguinte.

Devendo o título a uma expressão que significa a apreensão de um criminoso por populares convocados pelas autoridades, não sendo exactamente uma comédia, “Hue & Cry – Grito de Indignação” é um filme sempre bem humorado, espantando pela sua dinâmica, ensemble de jovens actores (os “Blood and Thunder Boys”) – não esquecendo a curta mas notável presença de Alastair Sim – e um enredo bastante engenhoso e complexo, o que seria uma imagem das chamadas Ealing Comedies. O filme acaba por ser também um documento histórico, não só pelo retrato dos jovens de classe baixa (os seus encontros, comportamentos, clubes secretos e interesses), mas sobretudo pelo mostrar da Londres ainda muito destruída pela guerra.

Por todas essas características, num escapismo de consciência social que agradou ao público inglês, o filme foi um enorme sucesso de bilheteira, contribuindo para um caminho que a Ealing saberia muito bem percorrer.

O elenco juvenil de "Hue & Cry - Grito de Indignação" (Hue & Cry, 1947), de Charles Crichton

Produção:

Título original: Hue & Cry; Produção: Ealing Studios; Produtor Executivo: J. Arthur Rank [não creditado]; País: Reino Unido; Ano: 1947; Duração: 82 minutos; Distribuição: General Film Distributors (GFD); Estreia: 23 de Fevereiro de 1947 (Reino Unido).

Equipa técnica:

Realização: Charles Crichton; Produção: Michael Balcon; Produtor Associado: Henry Cornelius; Argumento: T. E. B. Clarke; Música: Georges Auric; Direcção Musical: Ernest Irving; Fotografia: Douglas Slocombe [preto e branco]; Montagem: Charles Hasse; Direcção Artística: Norman G. Arnold, Joseph Bato [não creditado].

Elenco:

Alastair Sim (Felix H. Wilkinson), Jack Warner (Jim Nightingale), Valerie White (Rhona), Jack Lambert (Ford), Harry Fowler (Joe Kirby), Douglas Barr (Alec), Stanley Escane (Roy), Ian Dawson (Norman), Gerald Fox (Dicky), David Simpson (Arthur), Albert Hughes (Wally), John Hudson (Stan), David Knox (Dusty), Jeffrey Sirett (Bill), James Crabbe (Terry), Joan Dowling (Clarry), Frederick Piper (Mr. Kirby), Vida Hope (Mrs. Kirby), Heather Delaine (Dorrie Kirby), Paul Demel (Jago), Alec Finter (Sargento-Detective Fothergill), Bruce Belfrage (Locutor da B.B.C.), Grace Arnold (Mãe de Dicky), Arthur Denton (Padre), Robin Hughes (Selwyn Pike), Howard Douglas (Vigia), Harry Purvis Anaconda (Larry the Bull), Joey Carr (Shorty).

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