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Tokyo GodfathersNuma fria noite de Natal em Tóquio, três sem-abrigo – o bêbedo Gin (voz de Tôru Emori), a antiga drag queen Hana (voz de Yoshiaki Umegaki), e a jovem foragida Miyuki (voz de Aya Okamoto) – encontram uma bebé abandonada quando vasculham o lixo. Entre o instinto maternal de Hana e a vontade prática de evitar conflitos de Gin, o trio enceta uma longa viagem pela noite, em busca de pistas sobre os pais da bebé, ao mesmo tempo que se redescobrem a si mesmos, redefinem a sua relação, e lidam com as dificuldades e rejeições que os levaram à actual situação.

Análise:

Naquela que era a sua terceira longa-metragem, segunda escrita por si, Satoshi Kon abandonava o seu habitual modo modo fragmentado de narrar, para uma história mais linear, que é uma espécie de conto de Natal apócrifo, passado no centro de Tóquio. O argumento teve ainda escrita de Keiko Nobumoto, um conhecido autor de animação japonesa, que com Kon adaptou o romance “Three Godfathers”, de Peter B. Kyne.

Começando na véspera de Natal, por entre festas de rua, três sem-abrigo – Gin (voz de Tôru Emori), um alcoólico, Hana (voz de Yoshiaki Umegaki), uma antiga drag queen, e Miyuki (voz de Aya Okamoto), uma jovem fugida de casa – encontram uma bebé abandonada por entre contentores de lixo, com uma nota para que seja entregue a quem cuide dela. Sem concordarem sobre o que fazer, o trio discute, enquanto Hana descobre instintos maternais e chama a bebé de Kiyoko (literalmente “criança pura”, por ter sido encontrada na noite de Natal), e o trio decide então procurar os pais da bebé, com base nalgumas fotos e cartões que estão com ela. É à saída de um cemitério que encontram a primeira pista, ao tirarem de debaixo de um carro um homem que não sabem ser um chefe da Yasuka (voz de Shouzou Iizuka), e que reconhece um dos cartões como o clube cujo dono vai casar com a sua filha. O trio é levado para o casamento, mas vê-se envolvido num tiroteio quando alguém tenta matar o noivo (voz de Rikiya Koyama), e acaba por raptar Miyuki e a bebé. Em casa do raptor, a esposa deste apieda-se de Miyuki, trata da bebé e Miyuki conta a história que nunca contou aos companheiros, de como fugiu de casa depois de apunhalar o pai numa discussão. Já com um endereço de uma possível morada da mãe da bebé, de nome Sachiko, Hana procura Miyuki and Kiyoko, depois de mais uma discussão com Gin, que encontra um velho a morrer e fica ao seu lado, sendo depois espancado por um grupo de jovens que sai à noite para maltratar os sem-abrigo. Quando Hana encontra as raparigas, vão juntas para o clube onde Hana trabalhava, o qual é gerido pela sua mãe, e que Hana abandonou depois de atacar um cliente desrespeitoso, e de ver o seu amante morrer num acidente caseiro. Aí reencontram Gin, que fora salvo e trazido por membros do clube. Restabelecido Gin, o trio vai ao endereço de Sachiko, mas este é o de uma casa queimada e abandonada. Os vizinhos contam da relação complicada do casal, cujo marido era viciado no jogo. Continuando a deambular pela madrugada fora, Hana colapsa, e os dois amigos levam-na ao hospital. Aí, Gin reencontra a sua filha – também chamada Kiyoko (voz de Mamiko Noto) –, ali enfermeira, e o trio percebe que ele saiu de casa por problemas de álcool e jogo, e não porque mulher e filha tinham morrido, como ele contava, o que leva Hana a repudiá-lo. Continuando pelas ruas, e decidindo que o melhor é entregar a bebé à polícia, Hana e Miyuki encontram casualmente Sachiko (voz de Kyôko Terase), que salvam do suicídio numa ponte. Esta conta que foi o marido que abandonou a bebé, e que ela se queria matar por isso. Por seu lado, Gin encontra o marido de Sachiko, que conta que a bebé foi roubada do hospital por Sachiko, depois desta ter abortado acidentalmente. Gin corre para procurar Hana e Miyuki, descobrindo que elas já deram a bebé a Sachiko. Juntos perseguem-na e vão apanhá-la no topo de um prédio, de onde ela salta com a bebé, apesar dos apelos do marido. Mas Miyuki agarra-a na queda, e Hana agarra a bebé, caindo, mas sendo salvas milagrosamente pelos estandartes publicitários presos no edifício. No hospital, Gin revela ter ganho a lotaria num bilhete que o velho sem-abrigo lhe deu ao morrer, enquanto os pais da bebé pedem ao trio para serem padrinhos da filha, e o detective encarregue do caso não é outro que o pai de Miyuki (voz de Yûsaku Yara), que há muito a perdoou e quer voltar a ter consigo.

Como habitual em Satishi Kon, “Padrinhos de Tóquio” é um filme muito movimentado, e cheio de acontecimentos vertiginosos, num enredo sempre veloz e acidentado. Desta vez um sem número de coincidências é o catalisador para o avanço da história (o mafioso que conhece a Sachiko; o bilhete de lotaria; o reencontro no clube onde Gin fora salvo; os encontros com a filha de Gin e o pai de Miyuki; o encontro fortuito com Sachiko na ponte, e muitos mais). Mas tal justifica-se facilmente ao ser assumido desde o início – e em vários diálogos subsequentes – que estamos perante um conto de Natal, o qual começa com cânticos festivos, e termina com o verdadeiro milagre do salvamento das protagonistas.

Seguindo essa analogia natalícia, é óbvio que uma criança encontrada em situação precária de 24 para 25 de Dezembro lembra a história do nascimento de Jesus, e três benevolentes e inusitados protectores, são uma espécie de Reis Magos. É de notar que toda a história se passa numa só noite e madrugada – o que ajuda ao carácter veloz e, digamos mesmo, ansioso, de toda a narrativa, que é uma busca exterior (a dos pais da bebé Kiyoko), mas principalmente interior: a das razões para o estado actual dos três protagonistas, a sua revelação, e o modo como a interacção entre eles os empurra para resolverem situações passadas e poderem redescobrir as suas vidas.

E sendo o Natal – e não deixamos de pensar como é curioso ele desempenhar um papel tão importante no filme de um japonês – também uma festa de famílias, é de famílias que o filme trata. Se no início vemos três sem-abrigo, sujos, ruidosos e antipaticamente quezilentos, cedo começamos a perceber as suas dinâmicas, que são as de uma família pouco convencional, onde Gin seria o pai (protector, e sempre ciente das dificuldades e males do mundo), Hana a mãe (romântica, esperançosa e crítica dos seus dois parceiros), e Miyuki a filha (rebelde, eternamente zangada, e sempre em busca de uma fuga). E se a dinâmica é feita de confrontos, muitas discussões e nem sempre compreensão, ela mostra-se cheia de preocupação e carinho, de pessoas que se sentem rejeitadas (pela sociedade em geral, mas por aqueles que deixaram, em particular), que desistiram do afecto e não encontram esperança em ligações consequentes – como Hana conta na sua história do diabo vermelho. Ainda assim, é desses conflitos, geralmente nascidos dos momentos em que um dos três encontra noutro fraquezas (porventura iguais às suas) que impele a ultrapassar para procurar uma vida melhor, mesmo que isso signifique não o voltar a ver (como por exemplo quando Hana se insurge contra Gin por este ter deixado a família por vergonha), que a união dos três protagonistas se vai fazer e fortificar.

Por tudo isso, “Padrinhos de Tóquio” é também uma história de fraquezas e forças internas; da consciência da dificuldade, mas também necessidade de viver em comunhão; e uma história de perdões: a nós próprios, e àqueles a quem deixámos ou nos deixaram, na certeza de que mal-entendidos e conflitos são parte de um processo de crescimento de uma pessoa ou de uma relação, e que saber relativizá-los e contextualizá-los é uma arte difícil de alcançar. Ao mesmo tempo, o filme força-nos a olhar para os mais desfavorecidos e desprotegidos da sociedade (os mais pequenos, no sentido metafórico, mas também no literal, se pensarmos na bebé).

Conseguindo em doses equilibradas, uma história cativante, um toque de fantasia, e muitos momentos cómicos, Satohi Kon dá-nos em “Padrinhos de Tóquio” uma história mais universal que os difíceis temas dos seus dois filmes anteriores, contada de uma forma mais simples, e por isso mesmo mais apelativa para toda a família, mas onde não se deixa de abordar temas difíceis, do abandono ao suicídio, dos sem-abrigo à homofobia.

Como tem sido notado, o filme pode ainda ser visto como um remake do célebre “Os 3 padrinhos” (3 Godfathers, 1948), um western realizado por John Ford, e protagonizado por John Wayne, cuja história já merecera adaptações ao cinema em 1916, 1919, 1921, 1929 e 1936.

Imagem de "Padrinhos de Tóquio" (Tôkyô goddofâzâzu, 2003), de Satoshi Kon

Produção:

Título original: Tôkyô goddofâzâzu [Título inglês: Tokyo Godfathers]; Produção: Madhouse; País: Japão; Ano: 2003; Duração: 92 minutos; Distribuição: Sony Pictures Entertainment; Estreia: 30 de Agosto de 2003 (Big Apple Anime Fest, EUA), 8 de Novembro de 2003 (Japão).

Equipa técnica:

Realização: Satoshi Kon; Produção: Shinichi Kobayashi, Tarô Maki, Masao Maruyama, Masao Takiyama; Produtores Associados: Hiromichi Masuda, Taro Morishima, Takehiko Chino, Muneyuki Kanbe, Shinjiro Yokoyama; Argumento: Satoshi Kon, Keiko Nobumoto [a partir de uma história de Satoshi Kon]; Música: Moonriders, Keiichi Suzuki; Fotografia: Katsutoshi Sugai; Montagem: Kashiko Kimura, Takeshi Seyama; Directores de Animação: Masashi Ando , Toshiyuki Inoue, Ken’ichi Konishi; Direcção Artística: Nobutaka Ike; Efeitos Especiais: Takatoshi Abe, Chiemi Irisa, Toyohiko Sakakibara, Sachiko Suzuki, Kumiko Taniguchi; Efeitos Visuais: Kei Ichikura, Keiko Itogawa; Direcção de Produção: Satoki Toyoda.

Elenco de vozes:

Tôru Emori (Gin), Aya Okamoto (Miyuki), Yoshiaki Umegaki (Hana), Shôzô Îzuka (Oota, O Gangster), Seizô Katô (Mãe), Hiroya Ishimaru (Yasuo), Ryûji Saikachi (Homem Idoso), Yûsaku Yara (Ishida, Pai de Miyuki), Kyôko Terase (Sachiko), Mamiko Noto (Kiyoko, Filha de Gin), Akio Ôtsuka (Médico), Rikiya Koyama (Arao, O Noivo), Satomi Kôrogi (Kiyoko, Filha do Gangster), Mitsuru Ogata (Hidenari Ugaki), Chiyako Shibahara (Eriko Kawasaki), Kazuaki Ito (Akiko Takeguchi), Atsuko Yuya (Nobuyuki Furuta), Jin Horikawa (Toshitaka Shimizu), Masao Harada (Youto Kazama), Yoshinori Sonobe (Tsuguo Mogami), Mitsuru Sugita (Rin Sakurazawa), Ryô Takahashi (Hikaru Koga), Syuho Miki (Ayaki Nishimura).