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Lancelot du LacDepois de o rei Artur (Vladimir Antolek-Oresek) lançar a demanda do Graal, como símbolo da espiritualidade do reino que tenta salvar, os cavaleiros enviados vão morrendo, e o seu líder, Parsifal, desaparece. Entre os que voltam, derrotados, está Lancelote (Luc Simon), o paladino da rainha (Laura Duke Condominas), que ele ama em segredo do rei. Mas esse amor ilícito é para ele a causa do fracasso da missão, e para os outros, motivo de inveja e raiva, que os irá lançar numa luta fratricida, pondo em causa o futuro de Camelot.

Análise:

Co-produção franco-italiana, “Lancelote do Lago” foi a segunda incursão de Bresson em temas históricos, depois de “O Processo de Joana D’Arc” (Procès de Jeanne d’Arc, 1962), desta vez a cores, e num filme com sequências de acção e muito gore, algo surpreendente no cinema de Bresson, aqui filmado pelo italiano Pasqualino De Santis.

Baseado nas lendas arturianas, o filme começa com o declínio de Camelot e a busca infrutífera pelo Graal, que se crê poder salvar a Inglaterra. Só que, depois de enviados os cavaleiros da Távola Redonda, poucos regressam, e em completa frustração. Um deles é Lancelote (Luc Simon), que volta para a rainha Guinevre (Laura Duke Condominas), que ama, em segredo. Acossado por Mordred (Patrick Bernhard) e os seus acólitos, Lancelote é defendido por Gawain (Humbert Balsan). Mas ao ser ferido num torneio, Lancelot retira-se para o seu castelo, enquanto o rei (Vladimir Antolek-Oresek), graças às intrigas de Mordred, descobre da infidelidade da rainha, aprisionando-a. Ao saber, Lancelote vem em seu salvamento, e na luta que se segue, mata Gawain (Humbert Balsan), sem saber, o que muito o desgosta, levando-o a procurar a paz com o rei, a pedido da rainha. Mas por esta altura, Mordred já lançou o seu ataque ao trono, e na batalha mata Artur e muitos dos seus cavaleiros, incluindo Lancelote, que morre murmurando o nome de Guinevre.

Poucos esperariam que Robert Bresson filmasse uma história com momentos de acção, e a surpresa surge logo antes dos créditos iniciais, quando vemos cavaleiros anónimos que se mutilam das mais horríveis maneiras, sempre com enorme jorrar de sangue. E se continuamos com imagens de florestas e vigorosas cavalgadas, é-nos depois mostrado o interior dos espaços que frequentaremos, e as personagens principais, mais uma vez em cenários minimalistas, interpretações desdramatizadas, e enredos elusivos, onde muitas vezes os pontos fulcrais são apenas sugeridos.

Temos, nos primeiros diálogos entre Lancelote e Guinevre, muito da temática de Bresson, quando se fala da Graça divina, se procura a ascensão, e se cai na culpa, neste caso a culpa que Lancelote sente pela relação ilícita com a rainha, quanto a ele razão para o fracasso da missão. Do lado de fora, os cavaleiros – e nunca cavaleiros medievais pareceram tão desprovidos de aura romântica (note-se como as armaduras chocalham no caminhar dos cavaleiros, de uma forma que ridiculariza a pretensa pompa e orgulho que deles se espera, como se ao mesmo tempo Bresson tentasse desmistificar ou desconstruir o peso da história) – resignam-se a um destino que parece já uma derrota, numa condição humana de esperar em vão, e viver sem objectivos, onde a decadência de Camelot é espelho da decadência de valores humanos em geral.

Numa história de traições e enganos (quer a traição amorosa de Lancelote e Guinevre ao rei, quer a política de Mordred ao seu rei), “Lancelote do Lago” é um conto de decadência humana, perda de valores e incapacidade de redenção, onde cada passo em direcção a essa desejada ascensão leva a uma maior distância dela. Como o é também de perda de objectivos, onde rezar já não chega, e onde o amor se tornou difuso, com Lancelote e Guinevre a rejeitarem-se mutuamente em momentos diferentes, num contínuo desencontro de vontades.

Embora filmando sequências de acção (lutas iniciais, torneio, batalhas finais), e fazendo uso de uma banda sonora extra-diegética como nunca antes fizera, Bresson não tenta seguir as convenções do género, e continua a brincar com o espectador. Não só as lutas são pouco encenadas, e situações como o disparo de flechas são muito estilizadas, como dá a ver ou a ouvir, mas raramente ambas as coisas em simultâneo, muitas vezes focando apenas pormenores do corpo, ou até mesmo a folhagem da floresta, enquanto tentamos adivinhar o que se passa através dos sons ouvidos. Dir-se-ia que o foco de Bresson está principalmente na fragilidade humana e desajeitamento dos movimentos, onde acção e gestos são espelho de fragilidades e inseguranças naturais das suas personagens, as quais são mesquinhas, insinceras e mimadas.

No seu conjunto, e se não nos deixarmos chocar pelo sangue do filme, “Lancelote do Lago” torna-se um dos exercícios mais abstractos da carreira de Bresson, uma vez que nele não encontramos facilmente personagens com quem nos possamos identificar, por quem possamos sofrer ou querer ajudar. Ao invés, sentimos que há uma vontade de desconstrução de temas sedimentados, e olhados a uma luz porventura errada (a do romantismo cavaleiresco medieval que nunca terá existido fora da literatura). Nele, a pretensa grandiosidade (de pose e de feitos), e elevação da devoção religiosa, tornam-se, afinal, pouco mais que mesquinhez, desacerto, insegurança e destruição.

Laura Duke Condominas e Humbert Balsan em "Lancelote do Lago" (Lancelot du Lac, 1974), de Robert Bresson

Produção:

Título original: Lancelot du Lac [título inglês: Lancelot of the Lake]; Produção: Mara Films / Laser Productions / Office de Radiodiffusion Télévision Française (ORTF) / Gerico Sound; Produtores Executivos: Jean Yanne, Jean-Pierre Rassam; País: França / Itália; Ano: 1974; Duração: 81 minutos; Distribuição: Compagnie Française de Distribution Cinématographique (CFDC) (França), Consorzio Italiano Distributori Indipendenti Film (CIDIF) (Itália); Estreia: 23 de Maio de 1974 (Festival de Cannes, França), 31 de Maio de 1974 (Itália), 29 de Maio de 19988 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Robert Bresson; Produção: Jean-Pierre Rassam, François Rochas; Argumento: Robert Bresson; Música: Philippe Sarde; Fotografia: Pasqualino De Santis [cor por Eastmancolor]; Montagem: Germaine Artus [como Germaine Lamy]; Design de Produção: Pierre Charbonnier; Cenários: Jean Boulet; Figurinos: Gres; Caracterização: Éliane Marcus; Efeitos Especiais: Alain Bryce; Direcção de Produção: Michel Choquet.

Elenco:

Luc Simon (Lancelote do Lago), Laura Duke Condominas (Rainha Guinevre), Humbert Balsan (Gauvain – Gawain), Vladimir Antolek-Oresek (Rei Artur), Patrick Bernhard (Mordred), Arthur De Montalembert (Lionel), Charles Balsan, Christian Schlumberger, Joseph-Patrick Le Quidre, Jean-Paul Leperlier, Marie-Louise Buffet, Marie-Gabrielle Cartron, Antoine Rabaud, Jean-Marie Becar, Guy de de Bernis, Philippe Chleq.