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Rifkin's FestivalMort (Wallace Shawn) e Sue Rifkin (Gina Gershon) são um casal nova-iorquino de visita a San Sebastian para o festival de cinema local, onde ela fará assessoria de imprensa. Mas, enquanto Mort critica o pretensiosismo e superficialidade dos cineastas actuais, vê Sue cada vez mais próxima de Philippe (Louis Garrell), um jovem realizador francês adorado por todos. Perdido nos filmes da sua vida, as suas ansiedades levam-no a conhecer a médica Jo Rojas (Elena Anaya), por quem sente uma imediata atracção e com quem tenta passar os dias, numa relação que sabe ser puramente platónica.

Análise:

Quando, ainda durante a pós-produção do seu filme de 2018, “Um Dia de Chuva em Nova Iorque” (A Rainy Day in New York, 2019), os efeitos do movimento #metoo , por alegado abuso sexual sobre elementos da sua família, levaram à ostracização de Woody Allen por parte dos seus pares, actores do próprio filme renegaram-no, enquanto outros declararam publicamente não querer trabalhar, ou voltar a trabalhar, com o realizador nova-iorquino. A própria Amazon rescindiu o contrato de cinco filmes que tinha com Allen, deixando-o sem financiamento, nem apoios para continuar. Ainda assim, Allen, fiel ao seu método de trabalho, e à constância de uma produção por ano, conseguiu, numa co-produção envolvendo Estados Unidos, Espanha e Itália, o necessário suporte para filmar mais uma história escrita por si. Sabendo que não contaria com um desfile de estrelas, como habitualmente são os seus elencos, Allen refugiou-se em San Sebastian, a cidade que para ele é estar em casa quando está fora.

Escrito a pensar em San Sebastian, o filme tem por enquadramento o festival de cinema que ali se realiza, e que muito tem consagrado Allen. Este festival é-nos mostrado pelos olhos de Mort Rifkin (Wallace Shawn), um antigo ensaísta e professor de cinema, há muito retirado para escrever um livro que não avança, e aqui a acompanhar a esposa, a bem mais jovem Sue (Gina Gershon) assessora de imprensa de alguns dos presentes. Só que, se Mort despreza o ambiente artificial de conferências de imprensa e cocktails onde se confunde arte com sucesso comercial, a proximidade entre Sue e Philippe (Louis Garrel) – um realizador de cinema na berra, que diz que o seu próximo filme irá resolver o conflito israelo-árabe –, incomoda-o. Enquanto Sue se torna cada vez mais elusiva, sempre ocupada com Philippe, a hipocondria e ansiedade de Mort levam-no a consultar a Dra. Jo Rojas (Elena Anaya), também ela amante de Nova Iorque e entusiasta do cinema clássico europeu. Mort sente uma enorme atracção pela Dra., e tenta tudo para se voltarem a encontrar. Enquanto vai vendo momentos da sua vida surgirem como partes de filmes dos seus autores preferidos (Welles, Fellini, Truffaut, Godard, Bergman, Lelouch, Buñuel), Mort passeia com Jo pela cidade, descobre a relação abusiva que ela não quer deixar, e ouve a esposa a pedir-lhe o divórcio, voltando a Nova Iorque mudado, mas com as mesmas perguntas de sempre.

Se é verdade que Woody Allen nunca se esforçou por separar a sua própria pessoa dos alter egos que criou para a tela, o habitual carácter autobiográfico dos seus filmes está mais que nunca presente em “Rifkin’s Festival”, um filme escrito para decorrer em San Sebastian, no festival preferido de Allen, na cidade a que já chamou um paraíso na Terra. Como se não bastasse, o protagonista é um velho judeu rezingão (Wallace) apaixonado por Nova Iorque, snob, com pretensão de grandiosidade intelectual, e os tiques allenianos de prosódia rápida e nervosa, neuroses e hipocondria. Como se não bastasse ainda, como já fez tantas vezes, incluindo no recente “Um Dia de Chuva em Nova Iorque”, o enredo leva-nos ao mundo do cinema, onde as diatribes sobre a superficialidade e consumismo são complementadas com o elogio dos clássicos. E em Allen, os clássicos são já nossos conhecidos, citados em quase todos os seus filmes como se esse obsessivo name dropping fosse, por si só, sinónimo de conteúdo: no cinema os inevitáveis Bergman, Fellini e Kurosawa, aqui com o elogio da Nouvelle Vague de Godard, Truffaut e Lelouch, e ainda Luis Buñuel – o qual já tinha sido personagem em “Meia-noite em Paris” (Midnight in Paris, 2018) –, e na literatura: Dostoievski (motivo de vários filmes de Allen), James Joyce, Stendahl, etc.

Logo à partida, no olhar crítico ao ambiente dos festivais, à superficialidade da imprensa, à eterna busca do novo herói de cinco minutos baseado puramente no sucesso comercial, Allen critica o cinema contemporâneo, com esse constante recitar dos clássicos, quando à sua frente tem um realizador (o Philippe do realizador Louis Garrell) que pretende que os seus filmes mudem o mundo. Neste olhar, e nos diferentes recontros que Mort Rifkin vai tendo, a sua desilusão no mundo cresce, vendo superficialidade em todo o lado. Só que aos poucos nada disso lhe parece interessar quando há coisas bem mais prosaicas em jogo, por um lado a forma como Sue lhe escapa por entre os dedos, por outro como ainda lhe é possível sentir algo, mesmo que saiba não ser mais que uma paixão platónica, quando conhece a Dra. Jo Rojas.

E, afinal, um filme de Woody Allen, seja qual for o tema, tem sempre uma componente amorosa, onde relações são denunciadas e desconstruídas, seja de um modo sério (como nos seus tempos áureos), seja a brincar (como nos filmes recentes). Por isso, o tema central volta a ser o crescimento paralelo de um casal que leva a uma inevitável ruptura, num caminho para mútua incompreensão, ou se calhar apenas desinteresse por aquilo que – como Sue diz a dada altura – é só o hábito de estar com alguém. E nessa busca alleniana, que hoje com 85 anos parece ser-lhe tão cara como quando realizou “Annie Hall” (1977), com 41, essa relação com a presença da parceira amorosa está ao nível das tais grandes questões por ele tantas vezes mencionadas (“o que há para além disto tudo?”), mais preocupantes com o avançar da idade, e logo numa personagem cujo nome significa “Morte”.

E ainda no campo amoroso é verdade que, diversas vezes – e “Annie Hall” é só o melhor exemplo e “Um Dia de Chuva em Nova Iorque”, o mais recente – Allen conferiu às suas relações amorosas na tela muito de Pigmalião, procurando na educação da parceira (sempre intelectualmente abaixo do homem) um caminho para a sua própria realização. Só que, em “Rifkin’s Festival”, mais que mostrar-nos essa dinâmica como caminho natural entre duas pessoas diferentes que assim se completam, Allen denigre as mulheres como fúteis, esperando e precisando de homens para venerar. Por isso Sue interessou-se por Mort quando ele era um ensaísta de sucesso (com um livro dentro de si), e agora troca-o por Philippe por o ver ser admirado pelo mundo. E por isso Jo, que nos surge como uma mulher inteligente, sensível e doce, se deixa prender numa relação abusiva, só porque admira o artista Paco, e aceita que esse é o preço a pagar. Em nenhum dos casos a subtileza está presente, fazendo de todos e todas, personagens unidimensionais, como personagens-tipo apenas presentes para realçar o “olhem para mim” explícito do autor, na ainda menos subtil interpretação de Wallace Shawn.

Mas se esse olhar demasiado ácido, snob e misógino de Allen são pontos fracos do filme, verdade seja dita que nunca o embelezamento da primeira pessoa é procurado. E quer na atitude do próprio Mort, quer nos excertos em que, recriando os seus filmes preferidos em cenas onde Mort é o alvo, o seu snobismo, pretensiosismo, medo do falhanço, e incapacidade de compreender o âmago dos outros são denunciados e ridicularizados.

Talvez para a história o que fique mesmo – aquilo de que se falará quando se falar deste filme – são os filmes dentro do filme. Os tais sonhos (a dormir ou acordado) de Mort, que se vê dentro de “Citizen Kane” de Orson Welles, “Otto e Mezzo” de Federico Fellini, “Persona”, “Morangos Silvestres” e “O Sétimo Selo” de Ingmar Bergman, “Jules et Jim” de François Truffaut”, “O Acossado” de Jean-Luc Godard”, “Um Homem e Uma Mulher” de Claude Lelouch e “O Anjo Exterminador” de Luis Buñuel”, como forma de nos dar a conhecer aspectos da sua personalidade. Todos eles – alguns já homenageados por Allen noutros filmes seus – surgem num tom cómico, mas que, perdida a novidade, passam rapidamente a um gratuito jogo de “adivinhe o filme!”. Percebe-se a homenagem de Allen, mas custa essa tal falta de subtileza, quando comparado com a relevância de outra viagem aos clássicos como a que constitui a história de “Meia-noite em Paris”.

Acrescente-se como positivo, o facto de Allen continuar um criador inspirado de pequenos episódios e réplicas, tão mordazes e incisivas como sempre, e de a fotografia de Vittorio Storaro nos impressionar sempre pelo dourado com que nos vai transmitindo a ideia de que San Sebastian é mesmo o local mais bonito do mundo. Restam depois as tais perguntas que Mort/Allen nos dá, e para as quais nos deixa o amargo de boca de não ter encontrado ainda resposta. Nesse sentido, este, como todos os seus filmes, parecem mais uma visita ao consultório do seu psicanalista. É ou não assim que o filme começa e termina?

Gina Gershon e Wallace Shawn em "Rifkin's Festival" (2020), de Woody Allen

Produção:

Título original: Rifkin’s Festival; Produção: Gravier Productions / Wildside / Orange / Perdido Productions / Televisió de Catalunya (TV3) / The MediaPro Studio; Produtores Executivos: Lorenzo Gangarossa, Mario Gianani, Lorenzo Mieli, Javier Méndez, Adam B. Stern; Co-Produtores Executivos (The Mediapro Studio): Marisa Fernández Armenteros, Carles Montiel, Eva Garrido; País: Espanha / EUA / Itália; Ano: 2020; Duração: 88 minutos; Distribuição: TriPictures (Espanha); Estreia: 18 de Setembro de 2020 (Donostia-San Sebastián International Film Festival, Espanha), 18 de Setembro de 2020 (Brasil), 23 de Setembro de 2021 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Woody Allen; Produção: Letty Aronson, Erika Aronson, Jaume Roures; Co-Produção: Helen Robin;Produtor em Linha: Bernat Elias; Argumento: Woody Allen; Música: Stephane Wrembel; Orquestração: ; Fotografia: Vittorio Storaro [cor e preto e branco]; Montagem: Alisa Lepselter; Design de Produção: Alain Bainée; Direcção Artística: Anna Pujol Tauler; Cenários: Mariona Ferrer; Figurinos: Sonia Grande; Caracterização: Ana Lozano; Efeitos Especiais: Mariano García, Jon Serrano; Efeitos Visuais: Glenn Allen, Richard Friedlander.

Elenco:

Wallace Shawn (Mort Rifkin), Gina Gershon (Sue), Elena Anaya (Dra. Jo Rojas), Louis Garrel (Philippe), Christoph Waltz (Morte), Sergi López (Paco), Michael Garvey (Psicanalista), Damian Chapa (Espectador do Festival), Bobby Slayton (Espectador do Festival), Stephanie Figueira (Repórter no Hotel), Luz Cipriota (Repórter no Hotel), Godeliv Van den Brandt (Repórter no Hotel), Manu Fullola (Repórter no Hotel), Richard Kind (Pai de Mort), Nathalie Poza (Mãe de Mort), Cameron Hunter (Jovem Mort), Itziar Castro (Mulher no Jardim), Isabel García Lorca (Miss Weinstein), Richard Carlow (Rabbi Mintz), Yuri D. Brown (Padre), Carmen Salta (Marcia Cohen), Enrique Arce (Tomás Lopez), Andrea Trepat (Assistente da Dra. Rojas), Douglas McGrath (Gil Brenner), Ben Temple (Dr. Kline), Pablo Sevilla (Repórter no Rooftop), Brian Flanagan (Repórter no Rooftop), Elena Sanz (Convidada no Cocktail), Rick Zingale (Convidado no Cocktail), Ken Appledorn (Convidado no Cocktail), Sophie Sörensen (Dobragem em Sueco), Linnea Larsdotter (Dobragem em Sueco), Steve Guttenberg (Irmão de Mort), Tammy Blanchard (Doris), Nick Devlin (Convidado no Almoço), Yan Tual (Convidado no Almoço), Natalia Dicenta (Convidada no Almoço), Georgina Amorós (Delores), Karina Kolokolchykova (Convidada no Jantar).

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