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Une femme douceElle (Dominique Sanda) saltou para a sua morte de um prédio parisiense. De seguida vemos o marido Luc (Guy Frangin), que a recolhe. Em casa, perante o seu corpo jazente, Luc vai conversando com a sua empregada Anna (Jeanne Lobre), conta-lhe, em jeito confessional, de quem está a tentar fazer sentido daquilo que ainda não compreende, como conheceu Elle, como vieram a casar, como pareciam viver em mundos distintos sem nada que os unisse, e como a procurou dominar sempre que achou que ela lhe poderia fugir.

Análise:

Pela primeira vez a cores, Robert Bresson filmava em 1969 uma história adaptada de um conto de Fiódor Dostoiévski – algo que viria a repetir no seu filme seguinte “As Quatro Noites dum Sonhador” (Quatre nuits d’un rêveur, 1971).

Com a imagem de uma mesa que tomba, numa varanda e de um lenço que esvoaça, percebemos que uma mulher saltou para a sua morte de um prédio parisiente. Ela é Elle (Dominique Sanda), cujo corpo repousa agora num leito, enquanto ao seu lado, o marido, Luc (Guy Frangin), conta à sua empregada Anna (Jeanne Lobre) como a conheceu. Através da sua contínua narração, vemos como Elle começou a entrar diariamente na loja de penhores de Luc, e ele reparou nela; como casaram, mais por insistência dele, que por paixão; como Luc ressentia as decisões de Elle na loja; e como não conseguia partilhar o gosto dela por literatura, música, teatro ou cinema, acabando sempre por boicotar esses interesses com medo que eles a levassem a outros. Os ciúmes dele materializam-se num cliente que a procurava amiúde, e Luc iria perceber que Elle passava tempo com esse cliente. A repressão contínua fez Elle ter vontade de o matar, pegando mesmo numa pistola para tal. Incapaz de o fazer, Elle caiu doente na cama, e Luc observou-a extremosamente, contente de a ver completamente sua. Uma vez restabelecida, Elle suicidou-se.

Novamente filmando uma história de tragédia sem redenção, como já fizera nos seus dois filmes anteriores, Bresson voltava a insistir no seu estilo de filmar evitando os acontecimentos mais dramáticos, e usando actores não profissionais (este foi o primeiro papel em cinema de Dominique Sanda), que deviam restringir-se em dar-nos os diálogos sem uma interpretação que lhes fornecesse algum tipo de peso dramático, algo que, segundo Bresson, cabia apenas ao espectador tentar inferir.

E assim, para nos descrever uma tragédia, sem a dramatizar, Bresson opta por, em primeiro lugar dar-nos conta do suicídio, para ele não ser uma fonte de tensão ou especulação emocional ao longo da narrativa, e, por outro lado, por nos dar essa narrativa na voz do seu primeiro testemunho, o marido da morta, num tom completamente desafectado, frio, e inerte, de quem lê um texto com o qual não tem qualquer afinidade. E embora o filme seja, por isso, um revisitar de momentos, onde a acção – isto é, as situações narradas por Luc, onde vamos conhecendo Elle – nos é dada a conhecer por analepses, na voz do passivo narrador Luc, para Bresson era importante fazer notar que não entendia o filme como um conjunto de flashbacks. Para si o que estava em causa era a presença da morte durante a vida, e esse confronto entre os dois estados, em permanente diálogo.

Esse diálogo entre vida e morte pode também ser subentendido nas próprias personagens. Do lado da vida estava Elle, alguém que lia, ouvia música procurava conhecer o teatro e o cinema. Já do lado da morte está Luc, o empregado de uma loja de penhores, onde, depois de ter deixado uma carreira promissora, lida agora com objectos inertes (se entendermos os objectos ali negociados como algo que teve vida nas casas dos seus donos, e agora não é mais que uma triste transacção monetária). Veja-se, por exemplo o simbolismo da venda de Elle de um crucifixo, do qual Luc retira a cruz em ouro, devolvendo o Jesus de outro material menos nobre. Esta morte de Luc aprisiona, julga, restringe Elle, fá-la procurar emoção fora de casa, fá-la adoecer, e por fim, procurar a morte. Como se só morrendo, Elle pudesse estar ao nível de Luc, e como se só morta, Luc pudesse finalmente olhá-la, analisá-la e tentar compreendê-la, que é o que faz nos momentos que constituem o filme.

Num filme que continua a privilegiar as mãos como motor da narrativa (veja-se como é com uma mão a abrir uma porta que o filme se inicia, e com outra a fechar um caixão que ele termina), Bresson filma, desta vez, a cores, e numa cenarização que parece fugir um pouco ao seu habitual minimalismo – veja-se a sequência de abertura, que nos mostra a confusão de uma cidade como Paris. Esse minimalismo ganha depois presença na estrutura do filme, com o uso de planos fixos, narrações simples, e aquele modo de filmar de Bresson que tantas vezes parece querer ignorar as personagens, para se centrar no que as rodeia. É exemplo disso a abertura, com os corpos que deambulam pelo quarto (mais o que jaz inerte), onde um plano baixo não nos deixa ver rostos, apenas movimentos. Com diálogos sempre neutros e momentos de tensão explicados com distância, espanta como Bresson consegue tratar Dostoiesvki, um autor conhecido pelo seu melodrama e personagens de grande fervor e paixão.

Seja nas trocas de olhares, nos diálogos nunca concluídos, em momentos como o do cinema (com Luc a levantar-se mudo, para que Elle troque de lugar consigo, pois começa a ter ciúmes do homem que está sentado ao lado dela), ou na obsessão desta para compreender os conselhos de Shakespeare sobre como interpretar “Hamlet” (conselhos que parecem dizer muito a Bresson) – após um longo excerto da peça que Bresson filmou propositadamente para o filme, e que no conto de Dostoievski era uma peça de Offenbach –, o que está sempre presente é a distância entre marido e mulher, e a incapacidade de falarem a mesma língua, ainda que Luc insistisse em ir moldando Elle, e esta, como o título original indica, parecesse ir docilmente aceitando.

E terminamos como começamos, no momento do suicídio, que poderá ser aqui a tal ascensão ou redenção espiritual de quem vivia entregando-se a uma morte bem pior. Isto, claro numa interpretação bastante herética do papel do suicídio na espiritualidade, ou não fossem essas contradições tão típicas no católico Bresson.

Guy Frangin Dominique Sanda em "Uma Mulher Meiga" (Une femme douce, 1969), de Robert Bresson

Produção:

Título original: Une femme douce [título inglês: A Gentle Woman]; Produção: Parc Film / Marianne Productions; País: França; Ano: 1969; Duração: 85 minutos; Distribuição: Les Films Paramount (França); Estreia: Maio de 1969 (Festival de Cannes, França), 28 de Agosto de 1969 (França), 4 de Janeiro de 1971 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Robert Bresson; Produção: Mag Bodard; Argumento: Robert Bresson [a partir do conto “Uma Criatura Gentil” de Fiódor Dostoiévski]; Música: Jean Wiener; Fotografia: Ghislain Cloquet [cor por Eastmancolor]; Montagem: Raymond Lamy; Design de Produção: Pierre Charbonnier; Guarda-roupa: Renée Miquel; Caracterização: Alexandre Marcus; Direcção de Produção: Philippe Dussart.

Elenco:

Dominique Sanda (Elle), Guy Frangin (Luc, O Marido), Jeanne Lobre (Anna, A Boa), Dorothée Blanck (Enfermeira), Claude Ollier (Médico), Jacques Kébadian (O Sedutor), Gilles Sandier (Prefeito).