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Proces de Jeanne d'ArcPartindo das minutas do processo de Joana d’Arc (1412-1431), julgada e condenada pelo tribunal eclesiástico de Rouen, aquando da Guerra dos Cem Anos, Robert Bresson dá-nos um filme de tribunal, baseado nos textos originais, com as perguntas e respostas a Joana (Florence Delay), feitas pelo Bispo Cauchon (Jean-Claude Fourneau) e seus assessores. Por entre constantes interrogatórios, pausas na sua cela, e comentários de quem a quer condenar seja a que custo for, assistimos ao teor das acusações, sempre rejeitadas por Joana, que vai repetindo que serve apenas Deus, e faz apenas o que Ele lhe mandar.

Análise:

Se o cinema de Robert Bresson é o cinema de personagens que procuram uma espécie de Graça, que pela sua acção – e devoção asceta nessa busca – os faça transcender a outro plano, muitas vezes com perigo para a sua própria existência, não será de estranhar que a história de Joana d’Arc o tenha fascinado, como exemplo real daquilo que o realizador vinha mostrando nos seus filmes.

Para tal, Bresson baseou-se nas minutas do julgamento daquela personagem histórica do século XV, cingindo-se o mais possível aos textos existentes, complementados com testemunhos dos acontecimentos, num filme a que chamou de perguntas e respostas (condensando-as e alterando a sua ordem, mas sem acrescentar nada de extra). O resultado, como não podia deixar de ser, é um retrato seco e espartano, à imagem do realizador, aqui mais uma vez acompanhado pelo director de fotografia Léonce-Henri Burel e o director artístico Pierre Charbonnier, ambos companheiros habituais de Bresson.

Em cenários cinzentos – e não só por ter sido filmado a preto e branco – que pouco mais deixam ver que as paredes de pedra do cárcere e salas de tribunal em Rouen, Joana d’Arc é interpretada por Florence Delay, sisuda, cabisbaixa, em discurso próprio, cujas respostas lacónicas nunca desmentem o perigo em que a Donzela de Orleães se encontra, mas nunca transparecem o dramatismo que poderá estar a viver. Como sempre, com um elenco de não profissionais, que discursam em tom neutro, não procurando dramatizar os momentos, Bresson dá-nos uma Joana d’Arc serena, quase distante, como se não pertencesse já a este mundo, ou aceitasse já o seu destino, pese um fraquejar num dos momentos finais que a leva a renunciar as suas palavras, para logo as voltar a assumir.

O filme torna-se então um mosaico de momentos, desde os interrogatórios (sempre muito curtos) até aos momentos na cela de Joana, nos quais recebe visitas, ou é espiada por buracos na parede, enquanto ouvimos comentários de quem pede que seja condenada. Falado principalmente em francês, mas com frases em inglês, o filme lembra-nos (logo na legenda inicial, e depois por actos) que foram os ingleses a pedir a condenação da donzela guerreira, por razões políticas (a contribuição desta para a coroação do rei de França e motivação da reconquista). Não obstante, o interrogatório é sempre de fundo religioso com o Bispo Cauchon (Jean-Claude Fourneau) e os seus acólitos a tentarem que Joana duvide da proveniência das vozes que ouve (Deus e Santas ou Demónio?), e a tentarem que esta se traia ofendendo o poder da Igreja e reclamando a si um culto próprio. Com a dificuldade em provar tais acusações, outras mais prosaicas como o vestir-se de homem, foram adicionadas. A tudo, Joana responde com estoicismo, geralmente indeferindo a pergunta, dizendo apenas que serve a Deus e faz o que Ele manda, e só responde ao que Ele permite.

Mas, mais que o detalhe da construção legal, interessa a Bresson o papel de Joana d’Arc, a forma como aceita o seu destino, e como crê estar num caminho maior que ela própria, mesmo que este conduza à morte na fogueira. Por isso, mais que centrarmo-nos nas palavras dos discursos, ficamos presos na câmara, na composição dos planos que são, desta vez, um duelo de campo e contracampo, mas também nos pequenos gestos, sobretudo nas mãos, que tanto dizem, do medo à inocência, da força à prepotência.

Pelo meio, o rosto de Florence Delay dá-nos sempre expressões de distanciamento sereno, o que se torna, de certo modo, mais comovente, do que aconteceria se nele estivesse marcado o drama e o sofrimento.

Obviamente o filme de Bresson seria sempre comparado ao magistral “A Paixão de Joana d’Arc” (La passion de Jeanne d’Arc, 1928), de Carl Theodor Dreyer. Paixão de um lado, processo do outro, Bresson respondeu à ênfase de Dreyer nos grandes planos e olhar elevado de Maria Falconetti, com os planos médios e o olhar cabisbaixo de Florence Delay, como se em Dreyer pudéssemos ver o que estava dentro da personagem, e em Bresson tivéssemos de ser os acusadores, que a olham de longe. Consta que, por isso, Léonce-Henri Burel se terá chateado com Bresson, pondo fim à colaboração entre ambos.

O filme venceu o Prémio do Júri do Festival de Cannes.

Florence Delay em "A Paixão de Joana d'Arc" (Procès de Jeanne d'Arc, 1962), de Robert Bresson

Produção:

Título original: Procès de Jeanne d’Arc [título inglês: The Trial of Joan of Arc]; Produção: Agnes Delahaie Productions; País: França; Ano: 1962; Duração: 61 minutos; Distribuição: Pathé Consortium Cinéma (França); Estreia: 18 de Maio de 1962 (Festival de Cannes, França) 13 de Fevereiro de 1963 (Suécia), 9 de Março de 2009 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Robert Bresson; Produção: Agnès Delahaie; Argumento: Robert Bresson; Diálogos: Pierre Champion [não creditado]; Música: Francis Seyrig; Fotografia: Léonce-Henri Burel [preto e branco]; Montagem: Germaine Artus; Direcção Artística: Pierre Charbonnier; Figurinos: Lucilla Mussini; Caracterização: Guillaume; Direcção de Produção: Léon Sanz.

Elenco:

Florence Delay [como Florence Carrez] (Jeanne d’Arc), Jean-Claude Fourneau (Bispo Cauchon), Roger Honorat (Jean Beaupere), Marc Jacquier (Jean Lemaitre), Jean Gillibert (Jean de Chatillon), Michel Herubel (Isambert de la Pierre, Monge Francês), André Régnier (D’Estivet), Arthur Le Bau (Jean Massieu), Marcel Darbaud (Nicolas de Houppeville), Philippe Dreux (Martin Ladvenu, Monge Francês), Paul-Robert Mimet (Guillaume Erard), Gérard Zingg (Jean-Lohier).