Etiquetas

, , , , , , , ,

Les dames du Bois de BoulogneHélène (María Casares) e Jean (Paul Bernard), são um casal moderno, que vive a sua relação de forma livre, quando Jean confessa a Hélène que o amor entre eles já não existe. Se Hélène aceita a conclusão desportivamente, a mágoa está lá, e começa a congeminar um plano, que se concretiza quando provoca, como que acidentalmente, um encontro no Bosque de Bolonha, entre Jean e um par de velhas amigas, Agnés (Elina Labourdette) e a sua mãe (Lucienne Bogaert), a primeira agora dançarina de cabaré, e de vida promíscua, que fará Jean apaixonar-se por si sem saber do passado da rapariga.

Análise:

Adaptação do romance de Diderot, “Jacques le fataliste et son maître”, publicado postumamente em 1796, “As Damas do Bosque de Bolonha” foi a segunda longa-metragem filmada por Robert Bresson, aqui com mais meios que no seu filme de estreia, alguns actores conhecidos, e uma colaboração com o também realizador Jean Cocteau – responsável pelos diálogos.

O filme conta-nos a história de Hélène (María Casares) e Jean (Paul Bernard), um casal burguês, muito moderno para se prender a convenções, e vivendo uma relação aberta, quando Jean confessa a Hélène que já não a ama, o que ela aceita como natural, embora fique magoada. Um dia, quando Hélène reencontra duas antigas conhecidas, Agnés (Elina Labourdette) e a sua mãe (Lucienne Bogaert), a primeira agora dançarina de cabaré, e de vida promíscua para compensar a queda da família na ruína, um plano começa a formar-se. Depois de as apresentar a Jean, Hélène começa a provocá-lo com as dificuldades de conquistas Agnés. Do desafio, Jean passa à obsessão, e daí a uma paixão desesperada, que não compreende como Agnés, que parece agradada dele, lhe quer depois sempre escapar. Vencidas as barreiras, Agnés aceita casar com Jean, mas é confrontada com Hélène que lhe diz que ou foge sem explicações, ou casa e verá a verdade sobre si ser revelada ao novo marido. Agnés casa, mas cai na cama doente no próprio dia. Sabendo a verdade de Hélène, Jean abandona a festa, mas regressa depois, para confortar Agnés, que perante o amor de Jean, resolve lutar pela sua vida.

Filmado ainda durante a Segunda Guerra Mundial, mas estreado já após o fim desta, “As Damas do Bosque de Bolonha” ignora-a completamente. A guerra não está em nenhuma conversa, nem dela se observam os efeitos. De facto, passada num contexto contemporâneo, é como se a história decorresse num universo paralelo onde a guerra não existiu. Essa é uma forma de reforçar a intemporalidade da história (afinal baseada num texto de 150 anos antes), retirando-a de qualquer contexto temporal, reforçando a ideia de que as circunstâncias histórico-sociais podem mudar, mas os sentimentos humanos não. E se, como dizia Shakespeare, “Não há fúria no inferno que iguale a de uma mulher desprezada”, essa mulher é Hélène, elevada o suficiente para receber de rosto erguido a rejeição de Jean, mas pronta a preparar uma vingança cruel, num jogo de manipulações que pode lembrar “As Ligações Perigosas”, de Choderlos de Laclos, por sinal contemporâneo de Diderot. E se nada do que vemos no comportamento de Agnés nos parece condenável – moça alegre, simpática, humilde, e que adora dançar – sabemos nas entrelinhas que a sua vida no cabaré passa por mais que dança, no que é cúmplice a sua mãe, usando-a para que as duas tenham um meio de subsistência.

É aqui que chega o encontro no nominal Bosque de Bolonha (um dos parques naturais de Paris), e o planeado enamoramento, feito de pequenos avanços e recuos, onde as provocações de Hélène e as incompreensíveis (a Jean) hesitações de Agnés mais não fazem que estimular a paixão. Episódico, o filme torna-se uma sucessão de pequenos momentos, simples, em que nada quase parece acontecer, e que vão construindo um tema – o do amor toldado por um segredo intransponível – nos leva a uma esperada trágica conclusão.

Num momento em que Bresson ainda usava actores profissionais – aqui com a famosa María Casares – é da força e diversidade das protagonistas (Casares e Elina Labourdette) que se faz muito da força de “As Damas do Bosque de Bolonha”. Num estilo mais convencional que o que se seguiria, Bresson mantém um cunho próprio mais pelo que não diz ou mostra. Isto é, a narrativa é sempre sóbria, e os avanços chegam-nos como pequenos apontamentos (uma carta lida, umas flores encontradas, um guarda-chuva emprestado) que fazem connosco o que Agnés faz com Jean, isto é, insinuam-se, cativando-nos pela dificuldade e sinuosidade.

Falta talvez a bressoniana ligação espiritual na luta humana pela transcendência, presente habitualmente nos seus filmes. Esta estará, talvez, subliminarmente, com mote nas palavras iniciais de Jacques (Jean Marchat) – afinal o fatalista do título de Diderot – que vinca a ideia de que o amor não existe, apenas as suas provas, no que parece a eterna dicotomia religiosa da graça vs. obras. E é nesta escolha que se situará Jean, entre os extremos Hélène (bem na vida, mas de alma pérfida) e Agnés (a quem a sociedade sempre condenará, mas que no coração só tem inocência).

Com ritmo lento e difuso e mensagem algo enigmática, o filme acabou por não agradar a gregos nem a troianos. Mas ainda assim terá encontrado um defensor em André Bazin que via em Bresson alguém que fazia a ponte entre um realismo social do recente cinema francês e a ênfase na espiritualidade humana.

Produção:

Título original: Les dames du Bois de Boulogne [Título inglês: The Ladies of the Bois de Boulogne]; Produção: Les Films Raoul Ploquin; País: França; Ano: 1945; Duração: 86 minutos; Distribuição: Les Films Raoul Ploquin (França), Consortium du Film (França); Estreia: 21 de Setembro de 1945 (França).

Equipa técnica:

Realização: Robert Bresson; Produção:
Raoul Ploquin; Argumento: Robert Bresson [a partir de um livro de Denis Diderot]; Diálogos: Jean Cocteau; Música: Jean-Jacques Grünenwald; Fotografia: Philippe Agostini [preto e branco]; Montagem: Jean Feyte; Design de Produção: Max Douy; Figurinos: Mme Grès [não creditada], Schiaparelli [não creditado]; Direcção de Produção: Robert Lavallée.

Elenco:

Paul Bernard (Jean), María Casares (Hélène), Elina Labourdette (Agnès), Lucienne Bogaert (Mme. D), Jean Marchat (Jacques), Yvette Etiévant (La bonne), Marcel Rouzé, Bernard Lajarrige, Lucy Lancy, Nicole Regnault, Emma Lyonel, Marguerite de Morlaye.