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Les anges du péchéAnne-Marie (Renée Faure) é uma jovem de família rica que, sem motivos exteriores para tal, abdica da vida secular para entrar num convento dominicano, que se especializa a reintegrar mulheres que saíram da cadeia. Notada pela sua extrema motivação, Anne-Marie vai-se dedicar a trazer consigo a rebelde Thérèse (Jany Holt), a qual vê no convento um escape, depois de matar o homem pela qual tinha sido presa. Só que, quanto mais Anne-Marie se esforça para mostrar humildade na sua dedicação a Thérèse, mais isso surge aos olhos das irmãs com um orgulho que lhe irá causar dissabores.

Análise:

Como argumento do próprio Bresson, em parceria com o dramaturgo Jean Giraudoux e Raymond Leopold Bruckberger, “Os Anjos do Pecado” nasce a partir de uma história de Bruckberger, um dominicano que escreveu a partir das experiências por si vividas e testemunhadas. Com Bruckberger a congeminar o assunto do filme durante anos, este ganhou forma com o seu encontro com Bresson, o qual tinha acabado de sair de um campo de prisioneiros na Alemanha, onde estivera dezoito meses. O filme foi rodado e estreado na França ocupada, tornando-se a primeira longa-metragem do realizador francês.

Nele, Anne-Marie Lamaury (Renée Faure) é uma jovem de família rica, que decide abdicar da vida mundana, para entrar num convento dominicano, que tem como uma das suas missões reintegrar mulheres sem família que caíram no crime e estão a cumprir pena na cadeia. Notada pelas superioras como visivelmente motivada, Anne-Marie é por vezes olhada com desconfiança, pois o seu empenho e ansiedade em servir confundem-se com orgulho. Tal torna-se mais evidente quando Anne-Marie faz ponto de honra trazer para o convento Thérèse (Jany Holt), uma mulher que é um verdadeiro caso complicado na prisão. Inicialmente rejeitando a ideia, Thérèse vai aproveitar a sua saída da prisão para matar o homem por quem ela acabou presa, refugiando-se de seguida no convento, para gáudio de Anne-Marie, que a vê como triunfo pessoal. Só que Thérèse, não se sentindo digna do olhar benevolente de Anne-Marie, vai magoá-la, mostrando-lhe o que as outras pensam dela. Tal leva Anne-Marie a revoltar-se, acabando expulsa do convento. Mas a sua dedicação não diminui, e Anne-Marie vem todas as noites, em segredo rezar na campa do fundador do convento, até numa noite desfalecer de exaustão perante sob uma fria chuva. Ao ser encontrada pelas irmãs na manhã seguinte, Anne-Marie está muito doente, às portas da morte, e o que a mantém a lutar pela vida é ver Thérèse junto a si. Só que esta, então já procurada pela polícia, não aguenta mais a bondade da irmã, e acaba por fugir, provocando assim a morte daquela.

Como perceptível pela sinopse anterior, “Os Anjos do Pecado” lida com um tema simples: qual a fronteira entre humilde devoção e orgulho? Como é possível distinguir e evitar que um não seja o combustível da outra? Isto está presente na história da irmã Anne-Marie, a jovem de família rica, que era feliz no mundo exterior, sem necessidade de o deixar, mas que o fez, para mostrar o que é um verdadeiro sacrifício, e vê nas maiores dificuldades uma alegre forma de se provar. Por contraste, Thérèse é a mulher que entra no convento como último recurso (fugir da justiça), renega tudo, e sente repúdia (inveja?) pela pureza de Anne-Marie. Ironicamente, motivada para baixar a cabeça e passar despercebida, Thérèse acaba por se tornar a irmã exemplar que Anne-Marie, pela forma de se destacar das restantes nunca consegue.

Fica, em “Os Anjos do Pecado” (logo deste o título, note-se!), espaço em aberto para interpretações da natureza da fé, mas mais que isso, das motivações do comportamento. Nas mãos de Bresson, o filme acaba por fazer pensar onde é que egoísmo e altruísmo podem ser duas faces da mesma moeda, e onde a mais despretensiosa abnegação possa trair uma necessidade de evidência. Ou onde, ainda, as instituições podem confundir uma e outra característica. Feito de pequenos episódios, que tendem a ir revelando o progresso (e consequente desilusão) de Anne-Marie, o filme arrasta-se, aqui e ali, num lento evoluir de acontecimentos, onde a sua aparente repetitividade é, afinal, uma primeira amostra do estilo de Bresson, espartano, mas minucioso.

Esse estilo, que visualmente não deixa de apelar a um enorme minimalismo – repetição de cenários, os quais são quase sempre de grande monotonia, e contrastes económicos –, onde luz e sombra (note-se as constantes sombras de grades das janelas que tornam o convento simbolicamente uma prisão) são a principal característica cénica num mundo – o convento – já de si dado ao cinzentismo. Tal não impede que o resultado seja uma fotografia vívida e cristalinamente atraente, onde não faltam planos de interiores arrebatadores, onde arquitectura e jogos de luzes concorrem para criar como que verdadeiras pinturas a preto e branco.

Assim, embora, obviamente, na altura ainda não fosse possível saber, tínhamos um primeiro exemplo da temática futura de Bresson, a espiritualidade interior, a relação com a fé e Graça, ascensão e sacrifício, nos limites humanos para um ser se provar perante si próprio ou aquilo em que acredita, e todo um olhar sobre o interior da alma humana, quando esta se questiona, e é colocada perante uma realidade que não será a nossa mais convencional. De resto, e mesmo que com algum excesso de dramatização (principalmente da banda sonora), ficam os momentos para recordar: o paralelismo da iluminação dos corredores do convento e da prisão; o crime de Thérèse que vemos pelas suas sombras: o papel do gato; as leituras de frases de santos que deverão definir a atitude de cada irmã; e a morte de Anne-Marie enquanto Thérese é algemada. Tantos outros haveria, num filme feito de pequenos nadas, mas que acaba por questionar e incomodar tanto.

Imagem de "Os Anjos do Pecado" (Les Anges du Péché, 1943), de Robert Bresson

Produção:

Título original: Les Anges du Péché [Título inglês: Angels of sin]; Produção: Synops; País: França; Ano: 1943; Duração: 86 minutos; Distribuição: Les Films Richebé (França); Estreia: 23 de Junho 1943 (França).

Equipa técnica:

Realização: Robert Bresson; Produção: Roger Richebé; Argumento: Robert Bresson, Raymond Leopold Bruckberger, Jean Giraudoux; Diálogos: Jean Giraudoux; Música: Jean-Jacques Grünenwald, Irène Joachim (Salve Regina); Fotografia: Philippe Agostini [preto e branco]; Montagem: Yvonne Martin; Design de Produção: René Renoux; Direcção de Produção: Dominique Drouin.

Elenco:

Renée Faure (Anne-Marie Lamaury), Jany Holt (Thérèse), Sylvie (Madre Superiora), Mila Parély (Madeleine), Marie-Hélène Dasté (Madre Saint-Jean), Yolande Laffon (Madame Lamaury), Paula Dehelly (Madre Dominique), Silvia Monfort (Agnès), Gilberte Terbois (Irmã Marie-Josèphe), Louis Seigner (Director da Prisão), Georges Colin (Chefe da Polícia), Geneviève Morel (Irmã Berthe), Christiane Barry (Irmã Blaise), Jean Morel (Inspector da Polícia).