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Le jour se lèveNum prédio, ouvem-se tiros, e de um dos apartamentos sai um homem cambaleante, morrendo nas escadas, para espanto dos outros inquilinos. Nesse apartamento mora François (Jean Gabin), que logo repudia todos os que dele se aproximam, e se barrica em casa, quando chegam as autoridades. Aí, François começa a recordar os últimos meses, desde que conheceu Françoise (Jacqueline Laurent), uma florista por quem se veio a apaixonar. Mas se o romance parecia florescer, a descoberta de uma relação entre Françoise e o artista de palco Valentin (Jules Berry) veio deitar tudo a perder.

Análise:

Um ano depois de realizar “Cais das Brumas” (Le Quai des brumes, 1938), Marcel Carné voltou a colaborar com o seu amigo e poeta Jacques Prévert, em mais um filme de viagem ao mãos sombrio da alma humana numa história urbana de desespero e pessimismo, na França do final da década de 30, mais uma vez protagonizada por Jean Gabin.

E o filme começa quando, num apartamento, se ouvem tiros, e nas escadas do prédio cambaleia o corpo baleado de Valentin (Jules Berry), saído do apartamento de François (Jean Gabin), o qual espanta os vizinhos que vêm ver o que se passou, e se barrica perante a chegada das autoridades. Lá dentro, François recorda os acontecimentos que ali o levaram. Meses antes, François, um trabalhador numa fundição, conheceu a florista Françoise (Jacqueline Laurent), e começaram a namorar, depois de descobrirem que são ambos órfãos. Os ciúmes de François levaram-no a seguir Françoise numa noite, vendo-a entrar num teatro para assistir a um espectáculo de um domesticador de cães, nem mais que Valentin. Vendo Françoise encontrar-se com Valentin, François deixa-se seduzir pela ex-assistente e ex-amante dele, Clara (Arletty). O tempo passa, e embora François viva com Clara, ele vê-a apenas como uma companhia passageira, e volta a procurar Françoise, para lhe declarar o seu amor. Chegado Valentin, este pede para falar com François, dizendo-lhe que é apenas um protector de Françoise, por ser na verdade o seu pai, hoje arrependido de a ter abandonado à nascença. Confrontando Françoise, esta nega ser filha de Valentin. Mais tarde, Valentin visita François, e leva uma arma, escarneando a credulidade de François, e vangloriando-se das suas próprias conquistas sexuais. É então que François pega na arma e mata Valentin. De volta ao tempo presente, vemos François ainda fechado no apartamento, com o cerco policial a intensificar-se, com atiradores nos prédios vizinhos, e por fim, forçando a entrada depois de lançar gás, para encontrarem François morto pela sua própria mão.

Como indicado por um título original (literalmente: “O dia levanta-se”), bem mais propositado que a fraca tradução portuguesa, “Foi Uma Mulher Que O Perdeu” é uma história cuja acção decorre numa só noite, iniciando-se num fatídico tiro, e terminando noutro, de madrugada, na morte de François. Tudo o resto, é uma longa analepse, e note-se que, por medo de que as passagens por dissolvência entre momento presente e passado se tornassem confusas para o espectador, os produtores decidiram incluir um pequeno texto inicial, onde se explica esse recurso. Na analepse conhecemos a história de François e os acontecimentos que levaram àquele trágico fim. Como crónica de uma morte anunciada (mais ainda: mostrada), o filme de Carné é mais um exemplo da sua propensão para histórias de desespero, de personagens vencidas da vida, entre amarras que elas próprias criaram, e das quais não sabem como sair – como nos fora já mostrado em “Cais das Brumas”.

Mais uma vez, Jean Gabin surge-nos como um herói trágico, na sua habitual caracterização de homem do povo, rude, mas bem intencionado, com coração e sentimentos demasiado à flor da pele. Não tanto herói, pois o filme não os tem, o seu François é um anti-herói, vivendo uma vida vazia num emprego que – como o próprio diz – lhe dará cabo da saúde, ele que é órfão e nunca conheceu o conforto de laços humanos. Triturado por muito que não compreende – desde logo a relação entre Françoise e Valentin que nunca nos é explicada –, François reage por instinto, um instinto de sobrevivência, que o mantém vivo desde sempre. Depois, o que fica, nesse longo recordar, François traduz no discurso ao povo que o quer salvar, negando-se por já não confiar em ninguém, declarando que François já não existe, e pedindo para ser deixado em paz.

Com esta descrição de protagonista, história amoral, muitas ambiguidades de carácter e história, luzes sombrias no papel sempre ameaçador da cidade, e narrativa na primeira pessoa, vista em retrospectiva, “Foi Uma Mulher Que O Perdeu” é mais um exemplo do proto-noir em que alguns filmes franceses desta época se iam tornando, anos antes de a palavra noir ganhar o seu lugar na história do cinema.

Mesmo tendo tido quatro directores de fotografia envolvidos, “Foi Uma Mulher Que O Perdeu” mantém sempre unidade visual, no sentido de trazer negrume e claustrofobia aos movimentos (e sentimentos) de François, numa história que – na tradição do Realismo Poético – mistura o realismo das condições sociais e histórias de gente comum, com o romantismo e poesia da linguagem cinematográfica, e histórias de paixão e desespero.

Estreado à beira do início da Segunda Guerra Mundial, o filme de Carné foi visto – muito devido ao discurso de François ao povo na parte final – como um espelho da apatia francesa perante a invasão nazi. Por essa razão, o governo colaboracionista de Vichy viria a bani-lo. Anos mais tarde, nos Estados Unidos, a RKO Pictures decidiu voltar a filmar a história, no filme “Sob o Manto da Noite” (The Long Night, 1947), realizado por Anatole Litvak, e protagonizado por Henry Fonda e Barbara Bel Geddes. Na sequência, a produtora tentou destruir todas as cópias do filme de Carné, para evitar comparações.

Jean Gabin e Jacqueline Laurent em "Foi Uma Mulher Que O Perdeu" (Le jour se lève, 1939) de Marcel Carné

Produção:

Título original: Le jour se lève [Título inglês: Daybreak]; Produção: Productions Sigma; País: França; Ano: 1939; Duração: 86 minutos; Distribuição: Les Films Vog (França); Estreia: 9 de Junho de 1939 (França), 24 de Junho de 1943 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Marcel Carné; Produção: Jean-Pierre Frogerais; Argumento: Jacques Viot; Diálogos: Jacques Prévert; Música: Maurice Jaubert; Fotografia: Philippe Agostini, André Bac, Albert Viguier, Curt Courant [não creditado] [preto e branco]; Montagem: René Le Hénaff; Design de Produção: Alexandre Trauner; Figurinos: Boris Bilinsky; Direcção de Produção: Paul Madeux.

Elenco:

Jean Gabin (François), Jacqueline Laurent (Françoise), Jules Berry (M. Valentin), Arletty (Clara), Mady Berry (A Senhoria), René Génin (O Senhorio), Arthur Devère (Mr. Gerbois), René Bergeron (O Dono do Café), Bernard Blier (Gaston), Marcel Pérès (Paulo), Germaine Lix (A Cantora), Gabrielle Fontan (Senhora Idosa nas Escadas), Jacques Baumer (O Comissário).