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La bête humaineJacques Lantier (Jean Gabin) é um maquinista do comboio que liga Paris e Le Havre, refugiando-se no trabalho, para esquecer a natureza violenta que herdou dos seus antepassados. E é no comboio que Jacques conhece o casal Roubaud, o chefe de estação (Fernand Ledoux), e a sua esposa Séverine (Simone Simon), que acabaram de matar o rico amante de Séverine, que a molestava desde a adolescência. Guardando o segredo, Jacques aproxima-se de Séverine e os dois apaixonam-se, começando a pensar em formas de se livrarem de Roubaud.

Análise:

Com o livro de Émile Zola “La Bête humaine” como base – e referido no início do filme, com citações e uma foto do autor –, Jean Renoir compôs, no filme de título homónimo, que é mais um ode ao desespero, centrado nas desilusões e limitações de vidas de gente simples, novamente com Jean Gabin como protagonista.

“A Fera Humana” é Jacques Lantier (Jean Gabin), um homem que carrega, na forma de ataques de violência, a herança passada de gerações com o sangue envenenado pelo alcoolismo. Por essa razão prefere viver sozinho, dedicando a sua atenção exclusivamente ao comboio que dirige como maquinista, com o amigo Pecqueux (Julien Carette). Ao mesmo tempo, na estação vive-se outro drama, quando o chefe de estação, Roubaud (Fernand Ledoux), descobre que a esposa, Séverine (Simone Simon), que vai recebendo ajuda de um padrinho rico, de nome Grandmorin (Jacques Berlioz), que conhece desde a infância, é de facto amante deste, que a molestou desde sempre. Enfurecido, Roubaud prepara a morte de Grandmorin, levando Séverine consigo, para que ambos partilhem o crime. Este dá-se numa viagem de comboio, na qual está presente Jacques Lantier, o único que vê o casal sair da cabine de Grandmorin. Começado o inquérito, Jacques diz nada ter visito, e cai nas graças do casal Roubaud, com o marido a incentivar a mulher a conquistar Jacques, para garantir o seu silêncio. Tal resulta no amor entre Séverine e Jacques, que em breve planeiam a morte de Roubaud, cada vez mais ausente, amargo e agressivo. Mas quando Jacques não consegue levar a cabo o crime, Séverine deixa-o. O amor por Séverine leva Jacques a prometer que tentará de novo, mas quando esperam por Roubaud, Jacques sente mais um dos seus incontroláveis ataques, e mata Séverine, fugindo desesperado, para se suicidar atirando-se do comboio.

Sem uma ponta de humor que contrabalance, “A Fera Humana” é uma espécie de queda numa tragédia anunciada, desde o momento em que a condição de Lantier nos é dada a conhecer – e mais tarde a testemunhar, quando aperta o pescoço da rapariga que quer muito casar com ele. Centrado na vida dos maquinistas dos caminhos-de-ferro, a fuligem do carvão, e caras eternamente enegrecidas são um reflexo desse viver, feito de suor, sofrimento e solidão. Esta pode ser até um estímulo para alguém como Pecqueux – com esposa em Paris e amante em Le Havre –, mas é simplesmente uma fuga para Jacques Lantier, sem coragem para assentar e criar laços, por temer a natureza que os seus antecessores lhe deixaram.

Em paralelo à história de Lantier, como outra face da mesma moeda, temos um chefe de estação, que ao perceber que a esposa tem de ceder aos avanços de alguém rico, cai no crime e depois no desespero, ao aceitar que a esposa o traia, pois sabe não ser mais homem para ela. Por seu lado, Séverine, a esposa do chefe de estação, habituada a ser um joguete nas mãos dos homens – primeiro o rico padrinho, depois o mais velho marido, e por fim o próprio Lantier, de cuja palavra depende a sua própria liberdade –, vai manobrando com as armas que tem: a sua sedução e fragilidade, numa espécie de criação de femme fatale, como seria este tipo de personagem baptizada mais tarde.

Num mundo maquinal e triturador, é sempre o comboio (sempre a altíssima velocidade, repare-se) a metáfora e pano de fundo para todas as situações: é nele que Lantier é feliz, é nele que Roubaud mata Grandmorin, é no comboio que Lantier conhece Séverine, é entre comboios que Lantier procura desfazer-se de Roubaud, e, por fim, é o comboio que Lantier escolhe como meio de suicídio, fazendo da sua Lison – como ele baptiza a máquina – meio de vida e de morte.

Filme de passagens e transições, com Renoir a filmar de modo belíssimo cada espaço fechado, bem como cada quilómetro de avanço do comboio, muito fica sempre por dizer, na ideia de que há sempre mais por trás do que cada personagem quer, pensa ou faz, de um Jean Gabin tão rude como sempre, mas mais elusivo ainda, a uma Simone Simon que nos dá uma fascinante Séverine, bela, sedutora, com tanto de vítima como de culpada. Talvez revelando-nos essa natureza elusiva e fugidia, é sempre atrás de portas entreabertas que Renoir nos desvenda a verdadeira acção ocorre. Seja na visita de Séverine a Grandmorin, no assassinato de Grandmorin, ou no ataque final de Lantier, é sempre que portas são transpostas e deixamos de poder espreitar que as transições se dão, e a narrativa salta em frente.

E o que nos fica, no último rugir do comboio, é esse hino ao desespero, na desilusão de não escapar à sua natureza, seja a do crime, da traição amorosa, ou simplesmente, a de não poder ser ninguém mais na vida.

O filme – que é como quem diz, o livro de Zola – teria vários remakes, por exemplo na forma do norte- americano “Desejo Humano” (Human Desire, 1954), realizado por Fritz Lang, no argentino “La Bestia humana” (1957), de Daniel Tinayre, e por fim, no telefilme britânico “Cruel Train” (1995), dirigido por Malcolm McKay.

Jean Gabin e Simone Simon em "A Fera Humana" (La bête humaine, 1938), de Jean Renoir

Produção:

Título original: La bête humaine [Título inglês: The Human Beast]; Produção: Paris Film; País: França; Ano: 1938; Duração: 101 minutos; Distribuição: Lux Compagnie Cinématographique de France (França), Paris Films Location (França); Estreia: 23 de Dezembro de 1938 (França), 7 de Novembro de 1939 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jean Renoir; Produção: Robert Hakim, Raymond Hakim; Argumento: Jean Renoir [a partir do livro de Émile Zola]; Diálogos: Denise Leblond [não creditada] Música: Joseph Kosma; Fotografia: Curt Courant [preto e branco]; Montagem: Suzanne de Troey, Marguerite Renoir; Design de Produção: Eugène Lourié; Figurinos: Laure Lourié [não creditada]; Direcção de Produção: Roland Tual.

Elenco:

Jean Gabin (Jacques Lantier), Simone Simon (Séverine Roubaud), Fernand Ledoux (Roubaud), Blanchette Brunoy (Flore), Gérard Landry (Dauvergne), Jenny Hélia (Philomène), Colette Régis (Victoire Pecqueux), Claire Gérard (Viajante), Charlotte Clasis (Tante Phasie, Madrinha de Lantier), Jacques Berlioz (Grandmorin), Tony Corteggiani (Dabadie, Chefe de Secção), André Tavernier (Denizet, Juiz de Instrução), Jacques Roussel (Comissário Cauche), Marcel Pérès (Fabricante de Lâmpadas), Jean Renoir (Cabuche), Julien Carette (Pecqueux).