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Pépé Le MokoNo Casbah de Argel, um labirinto de ruas estreitas, casas que se tocam, e caminhos que se fazem até pelos terraços, vive Pépé Le Moko (Jean Gabin), um pequeno criminoso, amado pelo povo do bairro que o protege da polícia, a qual sabe que é inútil tentar apanhá-lo lá dentro. Embora a polícia francesa do continente, continue a tentar debalde, o inspector local, Slimane (Lucas Gridoux) espera que a oportunidade se proporcione. E tal acontece quando Pépé conhece e se apaixona pela turista francesa Gaby (Mireille Balin), e se começa a encontrar com ela às escondidas.

Análise:

A partir de um romance de Henri La Barthe (aqui creditado como Ashelbé, ou como Julien Ashelbé), que também participou na escrita do argumento, Julien Duvivier realizou o surpreendente “Pépé Le Moko”, parcialmente filmado na Argélia, e inovador pelo modo como mistura cenário de estúdio, com pinturas de paisagens e imagens em cenário natural, para recriar o famoso Casbah de Argel, com as suas ruas labirínticas e mosaico de telhados e terraços.

Sendo para alguns um percursor do film noir, pelo modo como retrata personagens à margem da moralidade, “Pépé Le Moko” conta a história da personagem do mesmo nome (Jan Gabin), o qual, procurado pela justiça de Argel e da França continental, vive na segurança de um bairro denso e inexpugnável. Só que, embora sentindo-se seguro pela geografia local, e pelos que o rodeiam e respeitam, Pépé Le Moko acaba por ser um prisioneiro do Casbah, de onde sabe que não pode sair. Se a polícia francesa vai tentando rusgas infrutíferas, com Pépé Le Moko sempre a escapar, com uma ou outra escaramuça, e escudado pelo povo que o protege, já o inspector local, Slimane (Lucas Gridoux), que com ele convive de perto, promete que um dia conseguirá atraí-lo onde o possa capturar. Essa oportunidade surge, quando Pépé conhece Gaby (Mireille Balin), uma turista francesa, fascinada pela cor e vida do Casbah. Pépé e Gaby começam a encontrar-se às escondidas, mesmo que este tenha em casa a ciumenta Inés (Mireille Balin). Através de uma teia de boatos e mensagens falsas, Slimane começa por armar uma cilada ao protegido de Pépé, Pierrot (Gilbert Gil), matando-lhe mais tarde o braço direito Carlos (Gabriel Gabrio), para atrair Pépé a um suposto encontro com a já denunciada Gaby. Tudo isto é descoberto por Pépé, que muda o encontro com Gaby, mas a ciumenta Inés revela tudo a Slimane, que espera Pépé no porto, quando este vai ao encontro da amante, prendendo-o. Com a vista de Gaby a partir num navio, Pépé suicida-se.

Talvez o que mais espante em “Pépé Le Moko” seja a vivacidade com que é filmado. A dinâmica é constante, os diálogos são vivos, modernos e orgânicos, e o trabalho de câmara é notável, quer nas exuberantes panorâmicas, quer nos espaços fechados, nem que seja só a seguir um par de sapatos que calcorreia os labirintos do Casbah. Esse dinamismo, também presente nas interacções entre as diversas personagens – todas elas interessantes – torna o filme sempre empolgante, seja numa sequência de tiroteio, seja num diálogo em que se planeia uma qualquer acção, ou, claro, nas cenas de sedução entre Pépé e Gaby.

Começando com uma história policial – note-se como as duas primeiras cenas são um plano da polícia, e uma venda de material roubado – logo será a história humana a tomar o centro da obra. Por um lado na forma como Pépé – um Jean Gabin que exala confiança e magnetismo – mantém os habitantes do Casbah como fiéis cúmplices, por outro pelas relações com o seu bando, e por fim, pela forma como se relaciona com as mulheres. De espírito livre, Pépé (e o filme), não consegue estar preso, e se Inés é a sua nominal companheira, esta sabe que não é dona dele, e o aventureiro terá sempre outros portos onde atracar. O amor por Gaby, se começa num capricho (mais uma mulher bonita equivale a mais uma conquista), logo ganha dimensões impensáveis. Nele, Pépé ganha uma consciência que não previra. Por ela se não se importará de morrer e é essa mudança que fará com que Inés perceba que tudo mudou, dispondo-se a traí-lo para – na sua impensada intenção – poder recuperá-lo. Afinal, mais que a polícia ou todos os truques humanos, não há fúria como a dor de uma mulher repudiada, como já o dizia Shakespeare.

Tal é a importância deste filme que não só tem sido apontado como percursor do film noir, como muitos o vêem como inspiração para “Casablanca” (1942), de Michael Curtiz. O próprio Graham Greene o assumiria como influência para o seu livro “The Third Man”, que em 1949 resultaria no celebrado filme homónimo de Carol Reed. O próprio “Pépé Le Moko” teve dois remakesem Hollywood, primeiro com o filme “O Fugitivo Desceu à Cidade” (Algiers, 1938), de John Cromwell, com Charles Boyer, Hedy Lamarr, e mais tarde com o musical “Casbah, Bairro Proibido” (Casbah, 1948), de John Berry, com Yvonne De Carlo, Tony Martin, Peter Lorre.

Jean Gabin em "Pépé Le Moko" (1937), de Julien Duvivier

Produção:

Título original: Pépé le Moko; Produção: Paris Film; Produtores Executivos: Mm. Hakim; País: França; Ano: 1937; Duração: 93 minutos; Distribuição: DisCina (França); Estreia: 28 de Janeiro de 1937 (França).

Equipa técnica:

Realização: Julien Duvivier; Produção: Raymond Hakim, Robert Hakim; Argumento: Henri La Barthe [como Détective Julien Ashelbé], Julien Duvivier [a partir da adaptação de Jacques Constant do romance homónimo de Henri La Barthe]; Diálogos: Henri Jeanson; Música: Vincent Scotto, Mohamed Ygerbuchen; Fotografia: Marc Fossard, Jules Kruger [preto e branco]; Montagem: Marguerite Beaugé; Design de Produção: Jacques Krauss; Direcção de Produção: André Gargour.

Elenco:

Jean Gabin (Pépé le Moko), Mireille Balin (Gaby), Gabriel Gabrio (Carlos), Lucas Gridoux (Slimane), Gilbert Gil (Pierrot), Line Noro (Inès), Saturnin Fabre (O Avô), Fernand Charpin (Régis), Marcel Dalio (L’Arbi), Charles Granval (Maxime), Gaston Modot (Jimmy), René Bergeron (Meunier), Paul Escoffier (Louvain), Roger Legris (Max), Jean Témerson (Gravère), Robert Ozanne (Gendron), Philippe Richard (Janvier), Georges Péclet (Barsac), Fréhel (Tania), Olga Lord (Aïcha), Renée Carl (A Mãe Tarte).