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La Belle EquipeJean (Jean Gabin), Charles (Charles Vanel), Tintin (Raymond Aimos), Mario (Rafael Medina) e Jacques (Charles Dorat) são cinco amigos, desempregados, sem grandes aspirações ou esperanças, que, inesperadamente, ganham 100 000 francos num prémio de lotaria. Ao invés de perseguirem sonhos individuais, o grupo decide ficar junto, comprando uma casa em ruínas no campo, para construir uma guinguette (um café nas margens do Sena onde se pode comer, beber e dançar). Só que o infortúnio, e interesses amorosos vai levar a que o grupo se vá desfazendo aos poucos e poucos.

Análise:

Com interiors filmados nos Estúdios Joinville e exteriores em Chennevières-sur-Marne, “Uma Mulher que não Vence” (um título horrivelmente traduzido e que nada tem a ver com o filme, por isso daqui em diante chamado no original), é mais um exemplo do realismo poético de Julien Duvivier, que a exemplo do que fizera em “Maria Chapdelaine” nos dá uma quase recolha etnográfica de locais, costumes, e até canções, mostrando gestos simples do povo e festas populares, dando-nos as suas dificuldades, envoltas numa história romântica, a qual se desenrola com boa disposição até chegarmos à tragédia final.

Nela, vemos Jean (Jean Gabin), Charles (Charles Vanel), Tintin (Raymond Aimos), Mario (Rafael Medina) e Jacques (Charles Dorat), cinco amigos, desempregados a viver precariamente no prédio Hotel de Inglaterra, em Paris. Como se não bastasse, Charles chora ainda a separação da mulher, e Mario, apaixonado da bonita Hugette (Micheline Cheirel), é procurado pelas autoridades pelas ideias políticas que o fizeram deixar a natal Barcelona. Mas, quando o grupo parecia sem solução, esta cai dos céus, num bilhete de lotaria que dá 20 000 francos a cada um. Se o instinto natural é cada um perseguir os seus sonhos individuais, Jean convence os restantes que 100 000 francos são melhores que 20 000, e juntos decidem comprar uma propriedade no campo, reabilitar as ruínas e construir um restaurante. O trabalho de construção é o tempo mais alegre da vida do quinteto, sempre acompanhado por Hugette. Só que, cedo, Jean apercebe-se que Jacques se está a apaixonar por Hugette, e fala com ele sobre os perigos que daí podem vir. Impulsivamente, Jacques decide voltar ao seu sonho anterior e parte para o Canadá. Para celebrar o domingo de Páscoa, o grupo decide convidar os amigos para uma festa no quase pronto restaurante, mas na véspera a polícia informa que Mario terá de abandonar o país sob pena de ser preso. Mario e Hugette decidem partir, com a bênção da avó desta (Marcelle Géniat), e dos restantes amigos. Do dia da festa, o bastante embriagado Tintin, sobe ao telhado para hastear uma bandeira e cai para a sua morte. Restam apenas Jean e Charles, numa altura em que a ex-mulher de Charles, Gina (Viviane Romance) volta a assediar o marido, em virtude do sucesso deste. Quando a vai repreender, Jean torna-se seu amante, o que cria uma brecha na amizade entre Jean e Charles. Mas Jean decide deixar Gina a bem da amizade de Charles, e os dois enfrentam-na juntos. Com o restaurante pronto para abrir, os dois amigos vêem chegar o antigo proprietário do terreno, Monsieur Jubette (Jacques Baumer), que os informa que Jacques, Mario e Tintin lhe pediram dinheiro, vendendo as suas quotas na sociedade, o que faz com que ele detenha três quintos do restaurante. Mas o pior está para vir, no dia da abertura, quando Gina regressa, e falhada a sua tentativa de reconquistar Jean, tenta com Charles, fazendo-lhe a cabeça e levando-o a acusar Jean pela perda de Jacques, Mario e Tintin e por tentar separá-lo de Gina. Dorido pelas acusações, Jean dispara sem pensar, e acaba preso.

O filme teve uma re-filmagem do seu final, para terminar numa nota mais optimista. Nele, Jean e Charles resistem juntos aos avanços de Gina, e levam o restaurante a bom porto. Ao que consta, o final feliz foi exibido nos bairros mais pobres, e o deprimente para teatros burgueses.

Com uma parte inicial filmada em estúdio, onde se destaca a beleza cénica do edifício onde vivem os cinco amigos, e uma segunda metade filmada no campo, com bonitas paisagens naturais a coexistirem com os interiores do restaurante em construção, “La belle equipe” é uma história de amizade e daquilo que a pode destruir. Em cinco pessoas, cinco histórias e motivações que levam à separação: o distanciamento pela dor amorosa, a expatriação política, a morte, e por fim o ciúme e a dor da traição.

Com um percurso ditado por um golpe de sorte – um prémio da lotaria – os amigos vão passar por um primeiro teste que é o de decidirem continuar juntos, apesar de o dinheiro lhes permitir seguir individualmente. A partir daí é a amizade o fulcro de todas as acções, com Jean, mais tarde, a confessar que nunca teve um momento mais feliz que aquele em que os cinco tiveram de se deitar no telhado a tremer de frio, sob uma enorme tempestade, para evitar que o telhado em construção desmoronasse. Ficava dado o mote que é no companheirismo – isto é, nas alegrias e infortúnios que se enfrentam com cumplicidade no quotidiano – e nas celebrações das coisas simples que a alegria ocorre, e não necessariamente no concretizar de grandes objectivos, os quais poderão ser, como se verá depois, eles próprios forças de desunião. Por isso, a alegria surge sempre que o grupo luta para sobreviver contra algo externo (a falta de dinheiro para comprar uma prenda a Hugette, a busca de um tecto sob o qual Mario dormir, a construção, a dita tempestade, ou mesmo o surgimento de Monsieur Jubette, que leva Jean e Charles a unirem-se), e perde-se sempre que um dos elementos do grupo tem de pensar em si próprio.

Com várias canções (inclusivamente uma cantada por Jean Gabin), e momentos de festa popular, “La Belle Equipe” tem sempre aquela atmosfera de inocência feliz, mesmo quando os protagonistas estão em situações difíceis. Ainda assim, o filme não deixa de conter algum comentário político, como acontece na história de Mario (implicitamente alguém que lutou contra Franco em Espanha), e na chegada de Monsieur Jubette, que leva Jean e Charles a denunciar o capital contra quem trabalha e merece os frutos desse trabalho.

Mas o tema central dessa desunião é a mulher. Não só a inocente Huguette que parte com o noivo Mario para casarem no exílio, tendo antes levado ao abandono de Jacques, platonicamente enamorado dela, mas essencialmente Gina, uma verdadeira vamp – pela forma como volta pelo dinheiro do marido, pelo modo como seduz para dividir os homens, pela forma de usar a sua imagem de sex symbol, pelas fotos nuas com que decora o apartamento – interpretada por Viviane Romance. Por essa razão, muitos têm tentado uma outra leitura para o filme, que é a da previsão do fim da Frente Popular, uma coligação de forças de esquerda que se veio a dissolver depois de ganhar as eleições de 1936. Seja a mensagem política ou puramente romântica, a verdade é que o filme ilustra a atmosfera de esperança que se ia vivendo em França por aqueles anos, mesmo que as condições de vida advindas da grande depressão desses tempos fossem ainda precárias para muitos.

Imagem de "Uma Mulher que não Vence" (La Belle Equipe, 1936), de Julien Duvivier

Produção:

Título original: La Belle Equipe [Título inglês: They Were Five]; Produção: Ciné-Arys; País: França; Ano: 1936; Duração: 103 minutos; Distribuição: Societe d’Edition et de Location de Films (SELF) (França); Estreia: 15 de Setembro de 1936 (EUA), 12 de Abril de 1940 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Julien Duvivier; Produção: Arys Nissotti; Argumento: Julien Duvivier, Charles Spaak; Música: Maurice Yvain; Fotografia: Jules Kruger, Marc Fossard [preto e branco]; Montagem: Marthe Poncin; Direcção Artística: Jacques Krauss; Direcção de Produção: Arys Nissotti.

Elenco:

Jean Gabin (Jean, dito Jeannot), Charles Vanel (Charles, dito Charlot), Raymond Aimos (Raymond, dito Tintin), Viviane Romance (Gina), Jacques Baumer (Monsieur Jubette), Marcelle Géniat (A Avó), Raymond Cordy (O Bêbedo), Charles Granval (O Senhorio), Micheline Cheirel (Huguette), Rafael Medina [como Raphaël Medina] (Mario), Charles Dorat (Jacques), Robert Lynen (René), Robert Ozanne (O Dono do Bar), Robert Moor (Um Inquilino), Marcel Maupi (Um Amigo), Marcelle Yrven (Amiga de Jubette), Fernand Charpin (O Polícia).