Etiquetas

, , , , , , ,

Toni

No sul de França, trabalhadores de muitas proveniências (Espanha, Itália e outras partes de França) acorrem para trabalho abundante, que lhes dê mais esperanças de vida. Entre eles chega Toni (Charles Blavette), um italiano que vai viver com a francesa Marie (Jenny Hélia). Mas Toni não se sente bem naquela relação e vai-se apaixonar pela espanhola Josefa (Celia Montalván), sobrinha de um tio proprietário de terras. A partir de então, as vidas de todos eles vão estar à mercê de paixões, ciúmes e brigas, que trarão a tragédia iminente.

Análise:

Financiado pelos estúdios de Marcel Pagnol, Jean Renoir rumou à Provença, em 1935, onde filmou num conceito algo diferente. A partir de ideias provindas recolhas antropológicas do seu amigo Jacques Levert, focadas na vida dos imigrantes naquela região, Renoir filmou em paisagens naturais, usando actores não profissionais para compor um filme realista, no que tornaria um verdadeiro percursor do Neo-realismo Italiano, no qual, curiosamente trabalharia um jovem Luchino Visconti, que viria a ser um dos expoentes daquele movimento cinematográfico.

Embora integrado no chamado Realismo Poético francês, “Toni” pende muito mais para a vertente puramente realista, com uma história terra a terra do quotidiano de migrantes no sul de França – quer italianos e espanhóis, quer também franceses de outras paragens. Vemo-los chegar, passando a fronteira cheios de esperança, ouvimos os seus cânticos, a alegria que põem no trabalho conjunto (seja na agricultura ou numa pedreira), e os modos como tentam escapar à solidão inerente e saudades de casa. Tudo isto é personalizado na figura de Toni (Charles Blavette), um homem que, à chegada, é recebido pela hospedeira francesa Marie (Jenny Hélia), da qual se torna amante. Mas cedo Toni se farta de Marie, e começa a cortejar a espanhola Josefa (Celia Montalván), que também gosta dele. Quem não está pelos ajustes é o seu rival Albert (Max Dalban), um homem dado à bebida e ao jogo, que força Josefa a ceder-lhe sexualmente, o que provoca o afastamento de Toni, enojado. Josefa não tem alternativa senão casar com Albert, o qual herda assim as terras do tio dela. Só que Toni nunca se recompõe, e Marie, cada vez mais infeliz, tenta suicidar-se, afogando-se no mar. Marie é salva a tempo, mas Toni percebe que deve deixá-la de vez. O tempo passa, e Toni em conversa com o amigo Gabi (Andrex) descobre que este tem um plano para fugir com Josefa de quem é agora amante. Preocupado, Toni corre a casa dela, a tempo de ouvir o tiro com que ela mata Albert depois de mais uma vez este lhe bater. Com o homicídio, Gabi abandona Josefa, e é Toni quem se dispõe a desfazer do corpo para que pareça ter sido suicídio. Mas Toni é descoberto pela polícia que pensa ter sido ele a matar Albert. Toni foge para salvar Josefa, a qual acorre a contar a verdade para o salvar a ele, mas em vão, pois um disparo mata Toni, quando este fazia o caminho inverso ao dos novos imigrantes que vêm chegando.

Com um lado alegre (o das cantorias e brincadeiras dos imigrantes – pobres mais esperançosos) e um amargo (o da história trágica de Toni e Josefa), o filme de Renoir é uma espécie de documentário, que nos mostra as condições de vida de quem abandonava as suas raízes em busca de algo melhor. Falado em francês macarrónico (o dos imigrantes), algum espanhol e italiano (este, geralmente em dialectos), o filme está sempre perto das gentes humildes, do seu sofrimento e condição (e actividades mundanas, de comer, beber, brigar, cantar), com diálogos pouco polidos, e sequências de pouca encenação. Ainda assim, o filme espanta por uma certa grandiosidade que advém das paisagens naturais: do cruzar de uma grande ponte a pé, às explosões numa pedreira.

Aí desenvolve-se uma história trágica, que poderia ser a de qualquer daqueles migrantes, e que se centra em Toni, um homem trabalhador, mas que descobre a paixão (Josefa) só depois de ter feito apaixonar outra mulher (Marie), a partir de então os episódios concorrem para o infortúnio, que espelha, no fundo o infortúnio de um povo que, apesar dos esforços, ideias e convicções, nunca passará da cepa torta.

Num filme feito de anti-heróis, que constantemente se martirizam, e onde ninguém é perfeito ou isento das culpas que marcarão os seus destinos, Renoir eleva-o graças à sua arte de usar a luz e o ritmo, seja nos seus chiaroscuros, ou no uso das dinâmicas naturais daqueles que não são sequer actores, mesmo que, aqui e ali, de uma forma mais estilizada. Mas sabendo que não é apenas de realismo que quer o seu um filme, Renoir deixa a poesia dos momentos dramáticos narrar uma história de amor fadado à ruína (da sequência da abelha, que sela a relação, ao casamento que a separa), para terminar o filme no simbolismo de uma ponte, a tal que une (e separa) dois mundos, e onde o momento final, de morte e fim de esperança se confunde com o inicial, da chegada esperançosa de mais trabalhadores.

Charles Blavette e Celia Montalván em "Toni" (1935), de Jean Renoir

Produção:

Título original: Toni; Produção: Les Films Marcel Pagnol; Produtores Executivos: Marcel Pagnol; País: França; Ano: 1935; Duração: 81 minutos; Distribuição: Films Marcel Pagnol (França); Estreia: 22 de Fevereiro de 1935 (França), 29 de Novembro de 1977 (Cineclube no Norte, Porto, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jean Renoir; Produção: E. Boyer; Argumento: Jean Renoir [a partir de material compilado por Jacques Levert]; Música: Paul Bozzi; Fotografia: Claude Renoir [preto e branco]; Montagem: Marguerite Renoir, Suzanne de Troeye; Design de Produção: Leon Bourrely; Cenários: Marius Brouquier; Direcção de Produção: Pierre Gaut.

Elenco:

Charles Blavette (Antonio Canova / Toni), Celia Montalván (Josefa Montalvan), Jenny Hélia (Marie), Édouard Delmont (Fernand, Amigo de Toni), Max Dalban (Albert), Andrex (Gabi, Primo de Josefa), Michel Kovachevitch (Sebastian, Tio de Josefa), Paul Bozzi (Guitarrista) [não creditado].