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Maria Chapdelaine

No Quebéc, no Canadá francês, os imigrantes franceses vivem vidas duras, numa região de fronteira, à mercê dos elementos, dependentes da caça, e tentando resgatar terras à natureza, para poderem exercer a actividade agrícola. É aí que vive a família de Maria Chapelaine (Madeleine Renaud), uma jovem que gostaria de viver na cidade, e cuja beleza atrai a atenção de vários pretendentes, como o aventureiro e caçador François Paradis (Jean Gabin), o agricultor seu vizinho Eutrope Gagnon (Alexandre Rignault), e o moço da cidade Lorenzo Surprenant (Jean-Pierre Aumont).

Análise:

Filmado nas paisagens naturais do Canadá francês, no Quebéc, usando habitantes da vila de Péribonka, e da tribo Iroquois, “Maria Chapdelaine” é, como anunciado no texto inicial, um hino aos imigrantes franceses que ajudaram a construir aquela nação, contra todas as probablilidades e dificuldades. Com o necessário ajuste linguístico e dramático para melhor se enquadrar nos gostos dos espectadores franceses, o que vemos é um retrato das condições adversas e da determinação e abnegação de um povo decidido a triunfar.

E como não podia deixar de ser, quando o filme tem por título – aliás título do romance mais popular de Louis Hémon, publicado em 1916 – o nome de uma das personagens, a história revolve em torno de Maria Chapdelaine (Madeleine Renaud), a qual encontramos inicialmente em casa de uns tios na vila próxima. Aí, com algum vestígio de civilização, e suficiente proximidade à igreja, onde, como bons cristãos, os cidadãos se podem sentir mais perto de Deus, os familiares de Maria lamentam que o seu pai (André Bacqué) tenha escolhido viver no campo, numa zona ainda por domesticar. É para lá que vamos de seguida, onde os Chapdelaine, e os vizinhos, como o rude, mas solícito, Eutrope Gagnon (Alexandre Rignault) desbastam florestas, e aplanam terras para tornar a supercífie arável. Em contraste com eles está o amigo François Paradis (Jean Gabin), que os visita frequentemente, mas vive ao ar livre, montando armadilhas, e caçando na natureza. A ele junta-se um conjunto de imigrantes franceses que vêm conhecer os terrenos para onde imigraram, com eles o jovem citadino Lorenzo Surprenant (Jean-Pierre Aumont), que vai contando a Maria de como a vida na cidade é tão mais glamorosa. Mas o coração de Maria é de François, o qual lhe promete assentar após mais uma estação de caça. Só que o Inverno rigoroso surpreende François quando este regressa mais cedo para passar no Natal com os Chapdelaine, e ele morre na neve. Afastado Lorenzo, e morto François, Eutrope pede a mão de Maria, a qual não quer sequer pensar no assunto, quando a sua mãe (Suzanne Desprès)adoece para lá de qualquer ajuda médica, o que leva os Chapdelaine a lamentarem viver tão longe da civilização. Morta a senhora Chapdelaine, o padre lembra-os de que devem sempre continuar contra todas as adversidades, e que é dever de Maria esquecer os mortos e casar para criar família.

Directo, espartano – quer na narrativa, quer visualmente – “Maria Chapdelaine” não deixa de ser também quase que um documento etnográfico, pelo retrato que nos dá das condições e motivações de vida de pessoas que arriscavam construir algo para si num lcal tão remoto e hostil. Por isso temos os momentos de caça, de tratamento da terra, de viagem na neve ou por rio, em canoas, de visita aos entrepostos comerciais, e claro de reunião na igreja, ponto de contacto, e reserva moral de um povo. Por isso também temos a alegria desse mesmo povo, que em condições adversas aproveita todas as razões para celebrar e cantar (mesmo se nem sempre as canções são da terra em questão). E são muitas as vezes em que um ou vários irrompem em cantos que acompanham as suas actividades, viagens ou festas.

O enredo, também simples, e dir-se-ía ausente em boa parte do filme, prende-se com Maria, e as suas possibilidades de casamento, tendo por pretendentes o caçador e colector de peles, o agricultor rude e generoso, ou com o jovem citadino, que a quer levar dali para uma vida mais confortável. Através deles vemos caminhos possíveis, acreditando sempre que Maria não vai deixar a família. Esta família é criticada por alguns, por procurar sobreviver longe da aldeia, o que significa, por exemplo, longe de uma igreja e de um padre.

Sempre com a natureza em primeiro plano – os rios, os caminhos, as florestas, o frio e as tempestades de neve – o filme recorda-nos, a todo o momento, o quão difícil é subsistir, e o quão frágil pode ser a vida humana, como exemplificado pela morte acidental de François, e pela doença sem possibilidade de ajuda da mãe Chapdelaine. Esse extremo realismo é, como se tornava habitual neste cinema francês da década de 1930, no entanto, polvilhado com alguma fantasia visual, como o são as sobreposições em que vemos a transformação da paisagem de acordo com os sonhos ou medos de Maria, como as visões da cidade, ou a transformação da paisagem gelada.

Destaca-se depois o papel do padre que empurra a comunidade num objectivo em definido, o de construir uma nação, trabalhando, servindo a igreja, e claro, procriando, que é afinal o destino de Maria, logo lhe passem os sonhos de adolescência.

A mesma história seria filmada mais três vezes, sempre com o mesmo nome, primeiro em 1950, na obra francesa, realizada por Marc Allégret; em 1983, seria a vez do filme canadiano, realizado por Gilles Carle; e em 2021, novamente no Canadá, no filme de Sébastien Pilote. O livro de Louis Hémon deu ainda origem a uma ópera em quatro actos, comporta por Jim Leonard, e estreada no Canadá em 2019.

Madeleine Renaud e Jean Gabin em "Maria Chapdelaine" (1934), de Julien Duvivier

Produção:

Título original: Maria Chapdelaine; Produção: Société Nouvelle de Cinématographie (SNC); País: França; Ano: 1934; Duração: 73 minutos; Distribuição: Pathé Consortium Cinéma; Estreia: 14 de Dezembro de 1934 (França).

Equipa técnica:

Realização: Julien Duvivier; Produção: Léon Beytout, René Pignières, Alex Nalpas; Argumento: Julien Duvivier, Gabriel Boissy [a partir do livro de Louis Hémon]; Música: Jean Wiener; Direcção Musical: Roger Desormière; Fotografia: Marc Fossard, Jules Kruger [preto e branco]; Montagem: Claude Ibéria; Design de Produção: Jacques Krauss.

Elenco:

Madeleine Renaud (Maria Chapdelaine), Jean Gabin (François Paradis), Jean-Pierre Aumont (Lorenzo Surprenant), André Bacqué (Samuel Chapdelaine), Alexandre Rignault (Eutrope Gagnon), Suzanne Desprès (Laura Chapdelaine), Gaby Triquet (Alma-Rose Chapdelaine), Maximilienne Max (Azelma Larouche), Daniel Mendaille (Pároco), Robert Le Vigan (Tit-Sèbe, O Endireita), Thomy Bourdelle (Esdras Chapdelaine), Edmond Van Daële (O Médico), Émile Genevois (Tit-Bé Chapdelaine), Fred Barry (Nazaire Larouche), Pierre Laurel (Ephrem Surprenant), Gustave Hamilton (O Velho Francês), Julien Clément (O Comerciante Bédard), Jacques Langevin (Edwige Légaré).