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L'Atalante

Jean (Jean Dasté) e Juliette (Dita Parlo) acabaram de casar. Sem tempo a perder, o casal embarca no “Atalante”, a barcaça mercante de Jean, onde os esperam o velho marinheiro Père Jules (Michel Simon) e um jovem grumete (Louis Lefebvre). Inicialmente fascinada pela vida de aventura que a espera, ao viver num barco, Juliette cedo percebe que a sua vida será feita de não ir a lado nenhum, de porto em porto, entre cargas e descargas. A oportunidade surge quando Juliette percebe que está perto de Paris e quer ir conhecer a cidade. Mas uma vez lá acaba por ser roubada, ficando sem poder voltar ao barco, onde Jean desespera por se sentir abandonado.

Análise:

Talvez o que mais espante ainda hoje, quando se fala da carreira cinematográfica de Jean Vigo, é que ele tenha morrido aos 29 anos (vítima de tuberculose) deixando-nos apenas uma longa-metragem de ficção, “O Atalante”, cuja montagem foi completada com Vigo já ausente por doença, e com algumas cenas filmadas por iniciativa de Boris Kaufman. Antes disso, Vigo tinha-se já iniciado no cinema com dois curtos documentários, e a curta-metragem de ficção “Zero em Comportamento” (Zéro de conduite: Jeunes diables au collège, 1933). Mas é “O Atalante” que coloca Vigo na categoria dos mestres do cinema francês da primeira metade do século XX, sobretudo no chamado Ralismo Poético, categoria em que o seu filme se insere.

Filho de um pai anarquista, que morreu na prisão quando o realizador tinha apenas 12 anos, e consequentemente abandonado pela mãe, Jean Vigo cresceu em orfanatos e casas de correcção, o que o tornou um espectador atento da vida das classes mais desfavorecidas, com a experiência do crescimento filmado no citado “Zero em Comportamento”, que lhe valeu censura no seu país, por o filme ser considerado “anti-francês”. Na sua obra seguinte Vigo deixaria o romantismo aliar-se à sua descrição social de vidas em condições baixas e de dificuldade permanente, como era apanágio do Realismo Poético francês.

A história gira em torno dos recém-casados Jean (Jean Dasté) e Juliette (Dita Parlo), que na sequência inicial vemos deixarem a igreja num cortejo sui generis, onde a escolha da rapariga provoca comentários de desconfiança, já que agora abandona a aldeia para ir viver no mar. O casal embarca imediatamente no “Atalante”, a barcaça mercante comandada por Jean, onde os esperam o velho marinheiro Père Jules (Michel Simon) e um jovem grumete (Louis Lefebvre). Só que, cedo Juliette percebe que a sua vida será feita de não ir a lado nenhum, vogando de porto em porto, entre cargas e descargas, sem ver nenhuma cidade agradável. Como se não bastasse, o clima a bordo vai ficando mais irrespirável, com as tensões a resultarem em ciúmes, e Jean a ter acessos de fúria quando vê Juliette a conversar com Père Jules. A oportunidade surge na aproximação a Paris, mas Jules antecipa-se, e Jean tem de ficar na barcaça, para desgosto de Juliette. Segue-se uma saída a um bar, onde um vendedor ambulante (Gilles Margaritis) tenta seduzir Juliette, provocando o regresso antecipado. Juliette opta por ir explorar Paris por conta própria, o que leva Jean a zarpar, como vingança. Só que, uma vez na cidade, Juliette acaba por ser roubada, ficando sem poder voltar, enquanto Jean, arrependido, cai em depressão. Vale a intervenção de Père Jules, que não só salva a face de Jean em frente do gerente da companhia para que trabalham (Maurice Gilles), como se dispõe a encontrar Juliette e trazê-la de volta.

Decididamente simples em termos de conteúdo, “O Atalante” é um olhar terno para a vida de um casal, cujas dificuldades financeiras e rotina opressora competem com qualquer veleidade de romantismo. Presos à vida de transportadores de mercadorias, Jean e Juliette vêm a rotina e uma certa claustrofobia corroer a relação. Jean é prático, habituado a nada mais ter que o seu dia-a-dia, não tem outra necessidade. Já Juliette é sonhadora, gosta de pensar nas modas de Paris, agradam-lhe os contos de Père Jules, que a convence de que já teve eventuras no mundo inteiro, e quer conhecer lugares novos. Resta ao casal ir-se conhecendo, digladiando e procurando oportunidades, que raramente são compreendidas do mesmo modo por ambos, o que frequentemente causa desconforto na união. Nesse sentido, “O Atalante” é tanto um olhar realista para condições sociais e estilos de vida menos conhecidos, como é um conto de adaptação de um casal que tem muitas provações a passar e adaptações a fazer para o seu crescimento como tal.

Inserindo-se na escola realista, Jean Vigo filma em cenários naturais, usando actores não profissionais nos papéis secundários, e deixando que diálogos decorram espontaneamente, na periferia da acção principal. Por outro lado, a acção é perfeitamente encenada, com uma découpage que obriga a uma montagem cuidada de planos que, muitas vezes, duram breves segundos, imprimindo um ritmo bastante forte a cada sequência. O resultado é um filme onde o realismo não deixa de ter uma componente terna, mesmo que transpareça sempre uma grande simplicidade, quer no tema, quer na forma. Nele, os personagens são reais, com qualidades e defeitos, ingenuidades e impulsividades naturais, aliadas a convicções próprias e fáceis de entender, sem nada que os endeuse ou doure a sua narrativa.

Essa simplicidade e naturalidade (que é como dizer a banalidade dos dois protagonistas), torna-se a principal qualidade do filme, que não pretende contar mais que uma história realista, desprovida de heroísmos ou algo que a torne extraordinária, com a qual toda a gente se pode facilmente identificar. A par desta naturalidade destaca-se ainda a própria mise-en-scène, com o interior da barcaça, nos seus espaços exíguos, objectos caóticos e claustrofobia inerentes, e os ângulos baixos a partir dos quais vemos o exterior (os portos, as gruas) a marcarem a atmosfera e a definir o próprio ritmo da acção.

Estreado já com Vigo gravemente doente, “O Atalante” foi recebido friamente pelo público, levando a Gaumont a retirar o filme das salas para o voltar a editar. O resultado foi uma película de apenas 65 minutos (20 minutos mais curta que a original), que ganhou um novo título, “Le Chaland qui passe”. A obra de Vigo ganharia adeptos após a Segunda Guerra Mundial, com a restauração parcial de 1940 de “O Atalante”, por Henri Beauvais, que faria as delícias da geração da Nouvelle Vague. Uma restauração completa só aconteceria em 1990, quando a Gaumont descobriu películas de 1934. Esta versão foi, por sua vez, melhorada em 2001, com supervisão de Bernard Eisenschitz e Luce Vigo, a filha do realizador.

Dita Parlo e Jean Dasté em "O Atalante" (L'Atalante, 1934), de Jean Vigo

Produção:

Título original: L’Atalante [Título inglês: The Passing Barge]; Produção: Jean-Louis Nounez; Produtores Executivos: ; País: França; Ano: 1934; Duração: 85 minutos; Distribuição: Gaumont-Franco Film-Aubert (G.F.F.A); Estreia: 24 de Abril de 1934 (França), 18 de Fevereiro de 1991 (Cinemateca Portuguesa, Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jean Vigo; Produção: Jacques-Louis Nounez; Argumento: Jean Guinée [Adaptado por: Albert Riéra, Jean Vigo]; Intertítulos: Charled Goldblatt; Música: Maurice Jaubert; Fotografia: Boris Kaufman, Louis Berger, Jean-Paul Alphen [preto e branco]; Montagem: Louis Chavance; Direcção Artística: Francis Jourdain; Caracterização: Acho Chakatouny; Direcção de Produção: Henri Arbel.

Elenco:

Michel Simon (Père Jules), Dita Parlo (Juliette), Jean Dasté (Jean), Gilles Margaritis (O vendedor ambulante), Louis Lefebvre (Grumete), Maurice Gilles (Chefe da Companhia Portuária), Raphaël Diligent (Raspoutine).