A janela encantada

Universos Paralelos – 36 – Bond, o espião irresistível de Ian Fleming, ep. 2

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2020 termina com o trigésimo sexto episódio de Universos Paralelos, da autoria do António Araújo (Segundo Take), do José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e do Tomás Agostinho (Imaginauta).

É hora de completarmos o tema 007 com a segunda parte da saga.

Bond, o espião irresistível de Ian Fleming, ep. 2

Com a marca 007 a tornar-se uma das mais rentáveis e facilmente reconhecíveis séries de cinema, e tendo deixado para trás dois actores – Sean Connery e Roger Moore – que encarnaram de forma tão carismática o célebre espião James Bond, que os próprios ficariam para sempre conhecidos no mundo pelo nome da personagem, pela primeira vez o envelhecimento de um actor (Moore, com 58 anos à data do seu último 007) levava à necessidade de renovação da saga.

A pergunta que se colocava era se Bond seria um nome acima de qualquer actor, ou se estes o iriam transformar consideravelmente. E a aposta da EON parece ter sido a da transformação, com a escolha de Timothy Dalton, um actor pouco mediático, com vasta experiência de palco e de dramas históricos para o pequeno e grande ecrã. Tentando uma maior aproximação ao Bond de Fleming, e escamoteando a vertente mais cómica dos filmes anteriores, os novos filmes The Living Daylights (1987) e Licence to Kill (1989), contrastam por tramas bem mais realistas, vilões bastante comuns e um Bond sem grande sentido de humor.

Tal mudança deixou os resultados de bilheteira aquém das expectativas, e com um terceiro filme já alinhado, Dalton foi empurrado aos poucos para a porta de saída, enquanto se preparava uma nova mudança de trajectória. Após o maior hiato até hoje na série, estreou, em 1996, GoldenEye, que nos dava como 007 Pierce Brosnan, um actor conhecido pelo charme e galanteio que lhe valeram protagonismo na bem-sucedida série televisiva Remington Steele.

E se o mundo mudava, com o fim da Guerra Fria, muito também mudava no universo Bond. Albert Broccoli morreu, Judi Dench tornou-se a primeira M feminina, John Barry não voltaria a compor para a série, as histórias já não provinham de livros de Ian Fleming, mas, sobretudo, voltavam os super-vilões que queriam subverter a ordem mundial e o super-agente de sorriso nos lábios, capaz de tudo, inclusivamente usar humor a cada cena mais violenta.

Apesar de quatro filmes bem-sucedidos financeiramente – apenas o segundo, Tomorrow Never Dies, não acabou em primeiro lugar na semana de estreia, por esta coincidir com a de Titanic (James Cameron, 1997) – os produtores Barbara Broccoli e Michael G. Wilson decidiram que era tempo de modernizar o seu agente secreto, retirando-lhe os contornos de quase herói imortal e imutável de banda desenhada para o tornar uma figura de carne e osso, que possamos apreender como uma personagem realista.

Para essa tarefa foi contratado Daniel Craig (novamente um actor não de topo) que, para surpresa de todos e gáudio de muitos, nos deu um Bond que sangra, sofre, se questiona e vive amargurado com escolhas e atitudes, não deixando de ser a mais violenta encarnação de quantas a personagem já conheceu. Começando com o icónico Casino Royale, o romance inicial de Ian Fleming, que nunca antes pudera ser filmado pela EON, a série conheceu um reboot. Nele fomos às origens de Bond no MI6, aos seus confrontos com M (de novo Judi Dench), ao ganhar da famosa licença para matar, à traição amorosa que o fez fechar-se em si mesmo e à super-organização criminal ele conhecerá como SPECTRE.

Com acção moderna, uso (para o bem e para o mal) de novas tecnologias e modos de filmar próprios do século XXI, análise profunda de personagem e temas adequados ao novo milénio, a série voltou a cativar e a relançar a discussão sobre qual o Bond preferido do público, e sobre as inúmeras formas como Craig poderá ser substituído no futuro.

Mas, como se fosse um título de 007, o futuro ainda não chegou, e o completamente adiado ano de 2020 privou-nos da estreia de No Time To Die, que será o quinto e último filme com Daniel Craig. Resta saber o quanto o universo Bond terá ainda para nos dar, e sob que formas (e com que actores) o fará. Uma coisa é certa, seja como o escolher fazer, conquistar o mundo não será suficiente.

José Carlos Maltez, Dezembro de 2020.

Fontes primárias

Cinema (para filmes anteriores a 1987 ver a folha do episódio 1)

Bibliografia (para livros anteriores a 1986 ver a folha do episódio 1)

Série Young Bond

The Moneypenny Diaries (por Samantha Weinberg sob o pesudónimo Kate Westbrook)

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