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The Shop around the CornerEm Budapeste, na Hugria da década de 1930, a loja de Hugo Matuschek (Frank Morgan) é um reputado negócio de bairro, onde os clientes afluem com gosto, especialmente no Natal que agora se atravessa. Entre os vários empregados, que se conhecem a todos como família, trabalha Alfred Kralik (James Stewart), visto como um filho por Matuscheck, que se corresponde secretamente com uma mulher que não conhece, e pela qual se sente apaixonar. A dinâmica muda com a contratação de Klara Novak (Margaret Sullavan), que imediatamente entra em colisão diária com Kralik. Só que, sem que esta o saiba, Kralik descobre que é com ela que ele se tem correspondido.

Análise:

Numa reminiscência da sua própria infância em Berlim, Ernst Lubitsch baseou-se nas memórias de empregado numa loja do seu pai em criança, para homenagear aquelas lojas de bairro, onde todos se conhecem e os clientes sabem que podem sempre encontrar o que querem, num estilo quase familiar de comércio que, se na altura já trazia nostalgia pela concorrência desmesurada dos Centros Comerciais, hoje então nem se fala. O amor e emoção que Lubitsch dedicou ao projecto fê-lo adiá-lo para poder garantir todas as condições desejadas, inclusivamente a presença dos dois protagonistas, James Stewart e Margaret Sullavan, o que até lhe permitiu, pelo meio, rodar outro filme, simplesmente o celebérrimo “Ninotchka” (1939). O resultado foi tal, que Lubitsch, nas suas memórias, declarou “A Loja da Esquina” o melhor filme realizado por si.

Baseado na peça “Perfumaria” (Illatszertár, 1937) do húngaro Miklós László, diversas vezes adaptada ao cinema, “A Loja da Esquina” conta-nos a história da loja de Hugo Matuschek (Frank Morgan), na qual trabalha uma série de empregados, já com muitas cumplicidades e episódios partilhados, o que faz deles quase uma família. Entre eles desponta Alfred Kralik (James Stewart), o homem de confiança de Matuschek, por isso, várias vezes convidado para ir jantar a casa do patrão. Mas o equilíbrio altera-se quando é contratada a nova empregada, Klara Novak (Margaret Sullavan). É que, sem que ambos consigam exactamente perceber porquê, Kralik e Miss Novak colidem por tudo e por nada, numa irritação constante que os coloca sempre em lados opostos de qualquer barricada por eles construída. À parte, tanto Kralik como Novak têm um segredo, ambos se correspondem epistolarmente com alguém que, os faz apaixonar pela sensibilidade, cultura e e poesia que colocam nas cartas, exactamente o oposto daquilo que Kralik é para Klara, ou vice-versa. Chega o Natal, e Kralik descobre que a sua correspondente secreta é mesmo Klara, e decide tentar perceber como a pessoa que ele ama por escrito pode ser a pessoa que ele odeia presencialmente. A meio do processo, Kralik é sumariamente despedido por Matuschek, para constrangimento de todos, o que leva a uma aproximação entre um desiludido Kralik e uma deprimida Klara que vê a correspondência diminuir. Com o esclarecimento do mal-entendido – Matuschek pensava que a mulher o traía com Kralik, mas afinal era com outro empregado, o dandy Vadas (Joseph Schildkraut) –, tudo volta ao normal, com Kralik agora gerente, a chamar Miss Novak, e a arrancar dela que sempre se sentiu atraída por ele, e assim concluírem ambos que os dois sempre estiveram apaixonados um pelo outro sem saberem.

Com Lubitsch a fazer tudo para retirar do filme qualquer elemento de glamour, numa tentativa de manter a pureza das suas memórias, “A Loja da Esquina” mantém muito da lógica de palco, com a acção a decorrer quase toda na citada loja, onde a dinâmica entre personagens, com as tradicionais entradas e saídas de cena, dita o andamento da narrativa. Como sempre o humor de Lubitsch está presente daquele modo elegante a que sempre nos habituou, seja nas fugas de Pirovitch (Felix Bressar) sempre que o patrão pede uma opinião honesta, seja nas atitudes do moço de recados Pepi (William Tracy), e claro nos debates entre as personagens de James Stewart e Margaret Sullavan, cheios de insinuações, e referências literárias.

Apenas marginalmente uma história de Natal – onde não faltam montras decoradas, uma árvore de Natal, alguma neve, e um final feliz –, o enredo revolve em torno da simples ideia de que duas pessoas podem odiar-se mutuamente, simplesmente porque não dão oportunidade para se conhecerem, o que, neste caso até fazem epistolarmente, com um resultado diametralmente oposto. Vindo dos anos 30 do século passado, espanta como o tema é ainda mais actual hoje em que a comunicação virtual faz com que cada vez mais as pessoas se conheçam e interajam à distância. Mas como estávamos nos anos 30, Kralik sentiu a necessidade de conhecer a verdadeira Miss Novak sem se revelar, e foi só quando percebeu que ela sentia mais que ódio por ele, e quando finalmente conseguiu que as versões epistolar e presencial se unissem, que se revelou, para que não restassem dúvidas de que o que tinhamera mais que uma ilusão de palavras escritas.

Talvez deixando de lado um pouco o famoso “Lubitsch touch”, “A Loja da Esquina” é um filme onde o realizador tenta fugir deliberadamente do tom de comédia de filmes como o supracitado “Ninotchka”, o que o levou a dizer que raras vezes filmou personagens tão verdadeiras. Talvez por esse afastamento, o filme acabou ignorado pela Academia, vindo a crescer em popularidade lentamente, nos anos seguintes.

Mas o segredo de Lubitsch está presente a vários níveis, seja na tal comédia escondida, seja na caracterização de um ambiente laboral – Matuschcek como patrão paternalista, Kralik como o dedicado e quase filho adoptivo, Vadas o manipulador, Pepi o oportunista, Pirovitch o medroso que prefere o triunfo de não ser visto –, onde hierarquias, jogos de interesses e o que se diz e não diz fazem toda a diferença, seja na tensão sexual entre Kralik e Klara que, não esqueçamos, culmina com esta a pedir-lhe para lhe ver (e vermos) as pernas – uma atitude talvez única no cinema. Para a memória fica sempre o jogo de enganos no café, onde Kralik e Klara debatem costas com costas aquele que estando presente está ausente, bem como a cena do quarto com leituras do ausente/presente a darem conta do paradoxo entre o que se vê e o que se lê.

Entre o que se diz e não diz, o que se mostra e não mostra, quase como se o filme fosse as tais cartas que não lemos mas dizem muito sobre as pessoas que não se conhecem estando frente e frente, “A Loja da Esquina” dá-nos essa duplicidade de ser o que não parece, e não parecer o que é. O tal conto de Natal que sem o ser, vê na noite mais bela do ano, aquela que tudo transforma – na loja, nos empregados e no par romântico – dando a todos uma nova vida.

A popularidade de peça e filme levaram a muitas outras adaptações, uma das mais famosas sendo o filme ” Você Tem Uma Mensagem” (You’ve Got Mail, 1998), de Nora Ephron, com Tom Hanks e Meg Ryan a substituírem as cartas por email.

Margaret Sullavan e James Stewart em "A Loja da Esquina" (The Shop Around the Corner, 1940), de Ernst Lubitsch

Produção:

Título original: The Shop Around the Corner; Produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); País: EUA; Ano: 1940; Duração: 99 minutos; Distribuição: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Estreia: 10 de Janeiro de 1940 (EUA), 4 de Março de 1941 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Ernst Lubitsch; Produção: Ernst Lubitsch; Argumento: Samson Raphaelson, Ben Hecht [não creditado] [a partir de uma peça de Miklós László]; Música: Werner R. Heymann; Orquestração: Wally Heglin [não creditado]; Fotografia: William H. Daniels [preto e branco]; Montagem: Gene Ruggiero; Direcção Artística: Cedric Gibbons; Cenários: Edwin B. Willis; Direcção de Produção: Arthur Rose [não creditado].

Elenco:

Margaret Sullavan (Klara Novak), James Stewart (Alfred Kralik), Frank Morgan (Hugo Matuschek), Joseph Schildkraut (Ferencz Vadas), Sara Haden (Flora), Felix Bressart (Pirovitch), William Tracy (Pepi Katona), Inez Courtney (Ilona), Sarah Edwards (Cliente), Edwin Maxwell (Médico), Charles Halton (Detective), Charles Smith (Rudy).