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Universos Paralelos

E chega o trigésimo quarto episódio de Universos Paralelos, da autoria do António Araújo (Segundo Take), do José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e do Tomás Agostinho (Imaginauta).

Desta vez temos a piscadela de olhos de M. Night Shyamalan ao universo da banda desenhada com a trilogia “Eastrail 177”.
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A banda desenhada por M. Night Shyamalan

M. Night Shyamalan em 2019

“Fragmentado” (Split, 2016) é um filme intenso que invoca o sentimento de alguns filmes de terror sem nunca o ser de verdade. A sua mais valia é a entrega de corpo e alma de James McAvoy como Kevin Wendell Crumb, um papel exigente em que tem de nos mostrar ao longo de uma longa-metragem nove personalidades distintas, mudando o registo num abrir e fechar de olhos, tanto em termos da psicologia das personagens como nas suas características físicas. Esta é uma interpretação maior que a vida, força vital de um argumento muito pouco rigoroso do ponto de vista científico. Mas estar preocupado com realismo é perder a oportunidade de apreciar um competente exemplo de série-B que começa como um thriller criminal e acaba em delirantes domínios da ficção científica. Ou será que são domínios dos livros aos quadradinhos?

Porque o que parecia ser um lamber de feridas de M. Night Shyamalan, reduzindo a escala das suas produções e regressando ao cinema de género que o tinha popularizado, trazia adequadamente uma inesperada surpresa final. Fragmentado tomava lugar no universo de “O Protegido” (Unbreakable, 2000)! O protagonista tinha sido inicialmente escrito como uma personagem para aquele filme, mas não sobreviveu à evolução do argumento, exceptuando um pequeno piscar de olhos que serviu como ponte entre as duas obras, numa breve cena na sequência do estádio em que vemos Kevin em criança a ser levado pela mão da abusadora mãe, que toca com o braço em David. Não só Fragmentado funcionou como a sequela há muito prometida daquele filme, como piscava o olho a um universo cinematográfico onde as personagens inevitavelmente convergiriam numa narrativa comum.

Bruce Willis em "O Protegido" (Unbreakable, 2000), de M. Night Shyamalan

Relembro que, quando estreou, “O Protegido” não foi anunciado como um filme de super-heróis e super-vilões. Essa era a sua bem guardada surpresa. Na verdade, esta era uma história de origem, da tomada de consciência e de assunção, tanto do herói David Dunn (Bruce Willis) como do vilão Elijah Price (Samuel L. Jackson). Apesar de se centrar em David, a sua história está intimamente ligada à existência de Elijah. Sofrendo da rara doença osteogénese imperfeita, que fragiliza a estrutura óssea, Elijah adopta para si próprio a alcunha Mr. Glass — Sr. Vidro —, pegando no mesmo nome com que o atormentavam em criança para o assumir, bem como assumir a sua própria natureza. Ao procurar o seu oposto, dá significado à sua vida nem que para isso tenha de encarnar o papel de vilão, de arqui-inimigo do herói que a sua condição física não permite que seja, contrapondo também a inteligência à força física. É este o grande trunfo de “O Protegido”: a compreensão de quem se sente diferente e à margem, bem como da sua relação com as proscritas e forasteiras personagens da banda-desenhada. Assim, se o ethos do filme está com o herói moral, e de facto, David, o seu pathos reside em Mr. Glass.

Samuel L. Jackson, James McAvoy e Bruce Willis em "Glass" (2018), de M. Night Shyamalan

Reunindo o triunvirato protagonista dos filmes anteriores, David, Elijah e Kevin, e continuando a tese avançada por Mr. Glass em “O Protegido” de que a banda-desenhada não é mais que uma forma de registo histórico de feitos inacreditáveis por pessoas com capacidades especiais, “Glass” (2018) não repetiu no entanto o espírito daquele filme, que trouxe para um cenário real e verosímil a possibilidade da existência de super-heróis, aproximando-se mais do registo exagerado de Fragmentado ao mandar para as urtigas qualquer sensação de verosimilhança no que diz respeito à ciência invocada, às práticas de segurança de uma instituição de saúde mental ou aos métodos da Dra. Ellie (Sarah Paulson), a personagem que aprisiona os protagonistas por mais de metade da duração do filme. Na verdade, o conflito interno é suculento: será possível que estes homens estejam iludidos, por sua vez enganando e afectando negativamente a vida de quem os rodeia? Espelhando e desconstruindo os tropos dos filmes de super-heróis — ao fim e ao cabo toda a trilogia reflete no fundo uma típica história de origem —, Shyamalan, em contra-corrente com a norma, ofereceu com “Glass” uma inusitada finalidade à sua história concluindo uma inesperada trilogia que levou quase duas décadas a revelar-se.

António Araújo, Outubro de 2020, adaptando um texto original de Janeiro de 2019.

 

Fontes primárias

Cinema

  • O Protegido (Unbreakable, M. Night Shyamalan, 2000);
  • Fragmentado (Split, M. Night Shyamalan, 2016);
  • Glass (M. Night Shyamalan, 2018).