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Universos Paralelos

Com bastante atraso, eis o trigésimo terceiro episódio de Universos Paralelos, da autoria do António Araújo (Segundo Take), do José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e do Tomás Agostinho (Imaginauta).

A proposta, desta vez é o universo trazido por William Peter Blatty com a sua novela “O Exorcista”.
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O exorcismo do terror existencial por William Peter Blatty

Jason Miller, William Peter Blatty e Ellen Burstyn no set de "O Exorcista" (The Exorcist, 1973), de Wiliam Friedkin

Depois de escrever uma série de comédias para o grande ecrã, William Peter Blatty apanhou-se sem trabalho e decidiu tentar a sorte noutro registo. Inspirado pela sua própria educação na ordem da Companhia de Jesus, e em relatos de um exorcismo que terá ocorrido uns anos antes, escreveu “O Exorcista”, o romance onde explorava a possibilidade da existência de uma dimensão espiritual de inteligência, e que se tornaria um sucesso de vendas. Na sequência da adaptação ao cinema pela mão de William Friedkin em 1973, tornou-se também um verdadeiro fenómeno cultural. Além das intermináveis filas à porta dos cinemas, a natureza chocante de “O Exorcista” tocou no nervo das instituições religiosas e deixou crentes e não crentes à beira de um ataque de nervos, com relatos de vómitos e desmaios nas exibições originais. Com experiência em documentários, o realizador abordou este material fantástico com um olhar clínico e realista, tão directo no retrato de uma invasiva análise clínica como nos horrores da carne e da mente infligidos a (e por) uma inocente criança.

Imagem de "O Exorcista" (The Exorcist, 1973), de Wiliam Friedkin

Tal como a prensa, na emergência da modernidade, intensificou o medo ao Diabo, figura que alcançou uma difusão jamais obtida anteriormente, também “O Exorcista” reacendeu o fascínio pela demonologia e o temor perante o anjo querubim expulso dos Céus por ter criado uma rebelião de anjos contra Deus com o intuito de tomar-lhe o trono, introduzindo no léxico da sétima arte o conceito de “exorcismo”, praticamente ausente do seu historial até então. Com o passar do tempo, a relevância desta obra nunca esmoreceu, ajudada pela nova versão director’s cut chegada a Portugal em 2001, ao contrário dos inúmeros sucedâneos, bem como das próprias sequelas e prequelas que nunca conseguiram recapturar a força do original. Isto apesar de o próprio William Peter Blatty ter revisitado os temas tão caros à sua obra em “O Crepúsculo dos Heróis”, um apontamento com ligações curiosas a “O Exorcista” com o título original “The Ninth Configuration”, e “Legion”, o livro que dava continuidade à história através de personagens anteriormente secundárias e de uma surpreendente e inesperada aparição, adaptado ao grande-ecrã em 1990 como “O Exorcista III” numa atribulada produção que não agradou a gregos nem a troianos.

Imagem de "O Exorcista" (The Exorcist, 1973), de Wiliam Friedkin

Antes disso, “Exorcista II – O Herege”, tentativa de 1977 por John Boorman, revelou-se um enorme desastre, inversamente proporcional ao sucesso artístico e comercial do filme a que dava continuidade, apostando em recuperar Linda Blair como Reagan, a menina possuída anteriormente, e em aludir ao passado do Padre Merrin, a personagem secundária tornada central pelo carisma de Max Von Sydow. Mais tarde, já em 2005, e espelhando os erros cometidos com “Legion”, a prequela realizada por Paul Schrader que pretendia novamente capitalizar o potencial da história do Padre Merrin em África mencionada no filme original foi rejeitada pela produção depois de praticamente terminada. “Dominion” foi assim engavetado, Schrader despedido e um novo filme, “Exorcista – O Princípio”, rodado por Renny Harlin. Stellan Skarsgård tornou-se assim protagonista de um caso raríssimo no cinema que nos proporcionou duas visões diferentes do mesmo material por dois autores radicalmente distintos.

Imagem de "Dominion: A Prequela de o Exorcista (Dominion: Prequel to the Exorcist, 2005), de Paul Schrader

Se alguma dúvida houvesse do impacto de “O Exorcista”, do seu singelo retrato de terror existencial e de desolação espiritual, basta observar o panorama do cinema de terror nas últimas décadas, recheado de demónios, possessões e exorcismos numa tentativa de recuperar a irrepetível e inquietante qualidade daquele filme de 1973 que tão assustadoramente nos fez lembrar que a perene batalha entre as forças da luz e os agentes da escuridão se trava dentro de todos nós.

António Araújo, Setembro de 2020

 

Fontes primárias

Literatura

  • Blatty, William Peter (1971) The Exorcist. New York City, NY: Harper & Row ;
  • Blatty, William Peter (1983) Legion. New York City, NY: Simon & Schuster.

Cinema

  • O Exorcista (The Exorcist, William Friedkin, 1973);
  • O Exorcista II: O Herege (Exorcist II: The Heretic, John Boorman, 1977);
  • O Exorcista III (The Exorcist III, William Peter Blatty, 1990);
  • Exorcista – O Princípio (Exorcist: The Beginning, Renny Harlin, 2004);
  • Dominion: A Prequela de o Exorcista (Dominion: Prequel to the Exorcist, Paul Schrader, 2004).

Televisão

  • O Exorcista (The Exorcist, Série de TV, 2016-2018, 2 temporadas de 10 episódios cada).

 

Fontes secundárias

Literatura

  • Blatty, William Peter (1966) Twinkle, Twinkle, “Killer” Kane!. New York City, NY: Harper & Row;
  • Blatty, William Peter (1978) The Ninth Configuration. New York City, NY: Harper & Row.

Cinema

  • O Crepúsculo dos Heróis (The Ninth Configuration, William Peter Blatty, 1980).

Documentário

  • Leap of Faith: William Friedkin on The Exorcist (Alexandre O. Philippe, 2019)

 

Outras referências

Cinema

  • A Feitiçaria Através dos Tempos (Häxan, Benjamin Christensen, 1922);
  • Fausto (Faust: Eine deutsche Volkssage, F.W. Murnau, 1926);
  • The Seventh Victim (Mark Robson, 1943);
  • O diabo à solta (The Devil Rides Out, Terence Fisher, 1968);
  • A Semente do Diabo (Rosemary’s Baby, Roman Polanski, 1968);
  • O Génio do Mal (The Omen, Richard Donner, 1976);
  • Possessão (Possession, Andrzej Zulawski, 1981);
  • O Ente Misterioso (The Entity, Sidney J. Furie, 1982);
  • Angel Heart – Nas Portas do Inferno (Angel Heart, Alan Parker, 1987);
  • O Príncipe das Trevas (Prince of Darkness, John Carpenter, 1987);
  • A Seita do Mal (The Believers, John Schlesinger, 1987);
  • A Queda (Fallen, Gregory Hoblit, 1998);
  • Estigma (Stigmata, Rupert Wainwright, 1999);
  • O Exorcismo de Emily Rose (The Exorcism de Emily Rose, Scott Derrickson, 2005);
  • O Último Exorcismo (The Last Exorcism, Daniel Stamm, 2010)
  • O Ritual (The Rite, Mikael Håfström, 2011);
  • The Quiet Ones – Experiência Sobrenatural (The Quiet Ones, John Pogue, 2014);
  • A Possessão (The Taking of Deborah Logan, Adam Robitel, 2014);
  • The Devil’s Candy (Sean Byrne, 2015);
  • A Bruxa (The VVitch: A New-England Folktale, Robert Eggers, 2015);
  • The Devil and Father Amorth (William Friedkin, 2017);
  • Hereditário (Hereditary, Ari Aster, 2018);
  • Saint Maud (Rose Glass, 2019).