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Universos Paralelos

Esta semana temos o trigésimo primeiro episódio de Universos Paralelos, da autoria do António Araújo (Segundo Take), do José Carlos Maltez (A Janela Encantada) e do Tomás Agostinho (Imaginauta).

A proposta é daquelas que não se pode recusar, pois vamos entrar no mundo da máfia dos Corleone.
podcast

 

O Padrinho, a proposta irrecusável de Coppola e Puzo

Mario Puzo e Francis Ford Coppola

É facto assente que as histórias de crime sempre desempenharam um papel importante na ficção universal. Tanto aquelas em que aventureiros, mais ou menos profissionais, deslindavam mistérios (ou seja, as histórias de detectives), ou as outras em que indivíduos ou organizações interferem em planos corporativos (como nas histórias de espiões). Mas há ainda um outro tipo de histórias, um pouco mais perversas, em que o protagonismo é assumido pelos criminosos. Estas vão dos desafios (por vezes quase cómicos) dos chamados heists, em que o objectivo é o concretizar de um determinado golpe, até à descrição e vida interior de organizações criminais de grande vulto, alcance e impacto financeiro.

É neste último campo que se inclui o fascínio que a ficção vai mostrando pelo funcionamento e actividades da máfia. É certo que, no cinema, se já o western “The Great Train Robbery” (1903) lançava o mote e o alemão “O Doutor Mabuse” (1922) de Fritz Lang nos dava a perspectiva de um mastermind do crime, é nos anos 30 que — fazendo eco de uma realidade que nascia da lei seca norte-americana e de todo o mundo de crime organizado que aí se iniciou — os chamados filmes de gangsters ganharam um incrível sucesso junto do público, notabilizando actores como James Cagney, Edward G. Robinson e um vilão que mais tarde ganharia notoriedade em nome próprio chamado Humphrey Bogart.

A família Corleone (James Caan, Marlon Brando, Al Pacino e John Cazale)

Se o código de Hays combateu esta fama, e o crime pareceu não compensar durante algumas décadas, a Nova Hollywood voltou a inverter a situação ao colocar os vilões no centro dos acontecimentos com filmes como “Bonnie e Clyde” (1967), fruto da contracultura vigente, em que qualquer sinal de rebelião era bem vindo. É nessa sequência que, em 1972, se deu a pedrada no charco quando Francis Ford Coppola adaptou o romance homónimo de Mario Puzo — o qual participou na escrita do argumento — para nos dar “O Padrinho”, o filme que nos mostrou a máfia ítalo-americana por dentro, como um acontecimento de família, cheio de intrigas palacianas, uma pompa impensável e um jogo criminal digno do xadrez, com ramificações e ambições que convidam a comparações com o Império Romano.

Com ícones como Don Vito Corleone (Marlon Brando) e o seu filho Michael (Al Pacino) — curiosamente dois actores por quem Coppola teve de se bater bravamente com a Paramount — conhecemos a frieza, a subtileza e o cinismo de lidar com o perigo e as decisões mais violentas; vemos como se conduzem negócios por entre sangue e corrupção; aprendemos a força da lealdade familiar, a tradição siciliana, a implacabilidade do lidar com cada traição e o peso da família como instituição acima de qualquer outra.

Seja a máfia de Coppola e Puzo muito ou pouco próxima da real máfia ítalo-americana — e seja esta muito ou pouco distante da sua congénere italiana —, para o bem ou para o mal são os filmes de Coppola que ficam no nosso imaginário, como o sucessor directo O Padrinho II (1974), ou o mais longínquo O Padrinho III (1990). Através deles conhecemos a relação entre negócios e família, a sua expansão numa espécie de deturpação do sonho americano, e, por fim, a globalização tocando esferas como a economia internacional e o próprio Vaticano. E, mais que tudo, vivemos a história do personagem trágico Michael Corleone.

Pode-se dizer que nada mais no cinema de crime organizado seria o mesmo, do mesmo modo que nunca mais o público deixou de desejar histórias em que as grandes organizações criminosas fossem descritas por dentro, seja por um certo romantismo herdeiro de Coppola, seja como exorcismo dos poderes ocultos que ainda hoje imaginamos escondidos por detrás de cada grande poder instituído.

José Carlos Maltez, Julho de 2020.

 

Fontes primárias

Literatura

    A saga Corleone

  • Puzo, Mario (1969) The Godfather. New York City, NY: G. P. Putnam’s Sons
  • Winegardner, Mark (2004) The Godfather Returns. New York City, NY: Random House
  • Winegardner, Mark (2006) The Godfather’s Revenge. New York City, NY: Putnam
  • Falco, Ed (2012) The Family Corleone. New York City, NY: Grand Central Publishing
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    Outros livros de Mario Puzo sobre a máfia

  • Puzo, Mario (1984) The Sicilian. New York City, NY: Random House
  • Puzo, Mario (1996) The Last Don. New York City, NY: Random House
  • Puzo, Mario (2000) Omertà. New York City, NY: Ballantine Books

Cinema (filmografia seleccionada)

  • O Padrinho (The Godfather, Francis Ford Coppola, 1972)
  • O Padrinho, Parte II (The Godfather Part II, Francis Ford Coppola, 1974)
  • O Padrinho, Parte III (The Godfather Part III, Francis Ford Coppola, 1990)

Televisão

  • The Godfather Saga (Francis Ford Coppola, 1977)

Directo para vídeo

  • Godfather Epic Boxset (Francis Ford Coppola, 1981)
  • The Godfather Trilogy (Francis Ford Coppola, 1992)

 

Fontes secundárias

Literatura

  • Coppola, Francis Ford (2016) The Godfather Notebook. New York City, NY: Regan Arts
  • Duncan, Paul (2013) The Godfather Family Album. Hollenzolernring, Köln: Taschen
  • Jones, J. M (2009) Annotated Godfather: The Complete Screenplay with Commentary on Every Scene, Interviews, and Little-Known Facts. New York City, NY: Black Dog & Leventhal

Documentários

  • The Godfather Family: A Look Inside (Jeff Werner, 1990)

 

Outras referências

Cinema

  • O Pequeno César (Little Caesar, Mervyn LeRoy, 1931)
  • O Inimigo Público (The Public Enemy, William A. Wellman, 1931)
  • Scarface, o Homem da Cicatriz (Scarface, Howard Hawks, 1932)
  • Anjos de Cara Negra (Angels With Dirty Faces, Michael Curtiz, 1938)
  • Heróis Esquecidos (The Roaring Twenties, Raoul Walsh, 1939)
  • Bonnie e Clyde (Bonnie and Clyde, Arthur Penn, 1967)
  • Dillinger (Dillinger, John Milius, 1973)
  • Os Cavaleiros do Asfalto (Mean Streets, Martin Scorsese, 1973)
  • Scarface – A Força do Poder (Scarface 1983, Brian De Palma)
  • Cotton Club (The Cotton Club, Francis Ford Coppola, 1994)
  • A Honra dos Padrinhos (Prizzi’s Honor, John Huston, 1985)
  • Era Uma Vez na América (Once Upon a Time in America, Sergio Leone, 1984)
  • Os Intocáveis (The Untouchables, Brian De Palma, 1987)
  • História de Gangsters (Miller’s Crossing, Joel Coen, Ethan Coen, 1990)
  • Tudo Bons Rapazes (Goodfellas, Martin Scorsese, 1990)
  • Bugsy (Bugsy, Barry Levinson, 1990)
  • Um Bairro em Nova Iorque (A Bronx Tale, Robert De Niro, 1993)
  • Casino (Casino, Martin Scorsese, 1995)
  • Donnie Brasco (Donnie Brasco, Mike Newell, 1997)
  • Caminho para Perdição (Road to Perdition, Sam Mendes, 2002)
  • The Departed – Entre Inimigos (The Departed, Martin Scorsese, 2006)
  • Gangster Americano (American Gangster, Ridley Scott, 2007)
  • Gomorra (Matteo Garrone, 2008)
  • O Irlandês (The Irishman, Martin Scorsese, 2019)

Televisão (selecção)

  • O Polvo (La Piovra, 1984-2001, RAI) [48 episódios]
  • Os Sopranos (The Sopranos, David Chase, 1999-2007, HBO) [86 episódios]
  • Boardwalk Empire (Terence Winter, 2010-2014, HBO) [56 episódios]
  • Gomorra: La serie (Roberto Saviano, 2014–, Sky) [48 episódios]