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Non ho sonnoDezassete anos depois de ter resolvido o caso dos chamados «crimes do assassino anão», que assolou Turim, o ex-detective Ulisse Moretti (Max von Sydow) é chamado a comentar novos assassinatos que lembram os daquele criminoso que ele ajudou a prender. Ao mesmo tempo, Giacomo Gallo (Stefano Dionisi), filho de uma das antigas vítimas, regressa a Turim, chamado pelo amigo Lorenzo (Roberto Zibetti). Ignorados pela polícia, Moretti e Giacomo começam a investigar por conta própria, tentando solucionar os mistérios anda insolúveis, como o porquê da lógica do assassino e da sua estranha rima infantil.

Análise:

Em mais uma produção sua e do irmão Claudio, e contando novamente com a música dos Goblin, Dario Argento, depois da experiência com o filme de época de cariz gótico “O Fantasma da Ópera” (Il fantasma dell’Opera, 2001), voltava ao registo contemporâneo com um giallo , que contava com a presença do consagrado actor sueco Max von Sydow.

Depois de ter satisfeito o seu cliente, a prostituta Angela (Barbara Lerici), ao sair da casa deste leva por engano uma bolsa com documentos que provam que ele é um assassino responsável pelos chamados «crimes do assassino anão» de há dezassete anos antes. Mas Angela só tem tempo de telefonar à amiga Amanda (Conchita Puglisi) a contar o sucedido, pois antes de sair do comboio é assassinada brutalmente. A amiga consegue entrar no comboio e descobrir a pasta, mas é morta ao entrar no seu carro. Entretanto, uma morte que lembra a do mesmo assassino anão, alerta a polícia, que consulta o detective que o prendera, Ulisse Moretti (Max von Sydow). Ao mesmo tempo, o filho de uma das antigas vítimas, Giacomo Gallo (Stefano Dionisi), volta a Turim, chamado pelo amigo Lorenzo (Roberto Zibetti), que regressou a Itália. Aí, Giacomo não só volta a ligar-se à antiga namorada Gloria (Chiara Caselli), como se associa ao ex-polícia na descoberta do criminoso que se faz passar pelo assassino anão, que Moretti jura ter morrido. O principal suspeito de então havia sido Vincenzo de Fabritiis (Luca Fagioli), um anão, escritor de romances criminais, cujos crimes espelhavam, e o seu corpo foi encontrado, após um possível suicídio. Com uma tentativa de envenenamento de Giacomo de permeio, surge um novo homicídio do mesmo criminoso, sempre com temas de animais tirados de uma lengalenga infantil. Sabendo que há um cisne na rima, Giacomo vai então temer que a vítima seguinte seja Gloria, que toca “O Lago dos Cisnes”, mas a vítima será a bailarina. Giacomo e Moretti, na velha casa do anão, agora ocupada pelo sem-abrigo Leone (Massimo Sarchielli), descobrem pistas sobre a lengalenga, que colocam Moretti na pista certa, quando morre em casa, de coração, durante uma visita do criminoso. Dando boleia a Leone, Giacomo e Gloria vêem que este carrega um anão mecânico, e ao tentar surpreende-lo, Giacomo encontra-o morto, e é confrontado pelo pai de Lorenzo (Gabriele Lavia), de arma na mão. Este fere Giacomo, mas, crendo-se descoberto, suicida-se. Ajudado por Gloria e Lorenzo, Giacomo entretanto percebe onde queria chegar Moretti com o facto de que agora o assassino tem mais mobilidade que há dezassete anos. É que antes este era uma criança, Lorenzo, que por isso o pai tentou proteger até ao fim. Lorenzo ameaça matar Gloria, mas um tiro certeiro da polícia mata-o instantaneamente.

É um pouco estranho que um dos filmes de Dario Argento que apresenta uma das suas histórias mais originais e envolventes, seja, ao mesmo tempo, decepado por diálogos tão pobres e situações tão ridiculamente pensadas e executadas. A título de exemplo ficam três momentos: o disparo final com que a polícia mata o assassino (do mais gore que Argento já filmara, diga-se também), quando afinal a polícia vem a chegar, não sabe o que se está a passar dentro de casa, e dispara por uma janela distante, para resolver um caso que a apenas nós, e a quem estava dentro da casa, fazia sentido; o modo como Gloria tenta ajudar Giacomo com o seu ferimento, fazendo-lhe os curativos por cima de várias peças de roupa; ou ainda o momento em que um polícia experimentado despeja a sua arma para o vazio, para depois deixar o assassino aproximar-se dele à vontade (resultando no primeiro momento de um filme de Argento em que uma vítima morre de morte natural), já para não falar nas estranhas teorias e modos de pensar da polícia, sempre muito maltratada nos filmes do mestre italiano. A isto juntam-se interpretações pobres (não de von Sydow, claro), que levam a explosões de ânimos e respostas que em nada se coadunam com as situações.

Pelo lado da história, elogie-se a complexidade da ideia, não só de um assassino que volta 17 anos depois, como de ele poder ou não ser um plagiador, não se sabendo se o assassino original (o anão) terá morrido, e muito menos se foi mesmo ele o autor dos crimes antigos. A resposta de que afinal em vez de um anão terá sido uma criança, acaba por ser algo surpreendente e inovador. A ideia de um crime com um instrumento musical porque a criança-assassina teria sido demasiado literal ao ler a palavra «instrumento» é muito interessante. Junte-se a isto o perverso que é usar lengalengas infantis (as quais eram – como o são muitas vezes –, já de si, bem macabras), e todo o lado freudiano da relação com o sexo e infantilidade (no modo como o assassino depois de ter sexo se enrola na cama a falar como criança), e temos uma base bem rica para o que poderia ser um filme excelente. Só que não o é, pelos motivos descritos atrás.

Pela parte positiva podemos sempre destacar a forma de Argento filmar, sempre pronta a deixar-nos com arrepios, pelos ângulos que escolhe e nos deixam, ou não, ver o que mais precisamos em cada momento, quase como se nós também nos estivéssemos a esconder num canto, ou a espreitar timidamente. De antologia é o momento que leva ao estrangulamento (e degolamento) da bailarina, que acompanhamos apenas por um longuíssimo travelling através de uma carpete que parece não terminar, e sobre a qual se vão cruzando muitos pares de pés. Também a sequência inicial, no comboio, é bem conseguida, com a personagem de Barbara Lerici a ser uma das poucas vítimas de Argento, a raciocinar e, por várias vezes, a ludibriar o seu perseguidor, numa muito longa sequência que, por o ser, consegue elevar a fasquia do suspense. Infelizmente, mais nada no filme se mantém ao mesmo nível.

Acrescente-se, finalmente, que a lengalenga infantil usada no cerne da história, e que nela se chamava “La Filastrocca del Fattore / The Animal Farm Rhyme” foi escrita por Asia Argento, que não participa como actriz neste filme.

Chiara Caselli e Roberto Zibetti em "Sangue de Inocentes" (Non ho sonno, 2001), de Dario Argento

Produção:

Título original: Non ho sonno [Título inglês: Sleppless]; Produção: Medusa Film / Opera Film / Tele+; Produtor Executivo: Claudio Argento; País: Itália; Ano: 2001; Duração: 117 minutos; Distribuição: Medusa Distribuzione (Itália), Artisan Entertainment (EUA); Estreia: Janeiro de 2001 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Dario Argento; Produção: Dario Argento; História: Dario Argento, Franco Ferrini; Argumento: Dario Argento, Franco Ferrini, Carlo Lucarelli; Música: Goblin (Agostino Marangolo, Massimo Morante, Fabio Pignatelli, Claudio Simonetti); Fotografia: Ronnie Taylor [filmado em Panalight]; Montagem: Anna Rosa Napoli; Design de Produção: Massimo Antonello Geleng; Cenários: Massimo Antonello Geleng; Figurinos: Susy Mattolini; Caracterização: Alfredo Marazzi; Efeitos Especiais: Barbara Morosetti; Efeitos Visuais: Sergio Stivaletti; Direcção de Produção: Gianluca Passone, Ladis Zanini (Turim).

Elenco:

Max von Sydow (Ulisse Moretti), Stefano Dionisi (Giacomo Gallo), Chiara Caselli (Gloria), Gabriele Lavia (Dr. Betti), Rossella Falk (Laura de Fabritiis), Paolo Maria Scalondro (Inspector Manni), Roberto Zibetti (Lorenzo Betti), Roberto Accornero (Fausto), Barbara Lerici (Angela), Barbara Mautino (Dora, A Coelhinha), Conchita Puglisi (Amanda), Elena Marchesini (Mel, A Gatinha), Guido Morbello (Jovem Detective), Aldo Massasso (Cascio), Massimo Sarchielli (Leone), Diego Casale (Beppe), Alessandra Comerio (Senhora Betti), Brian Ayres (Juiz), Daniele Angius (Giacomo em Criança), Robert Camero (Marco), Luca Fagioli (Vincenzo De Fabritiis), Daniela Fazzolari (Maria Luisa), Aldo Delaude (Revisor do Comboio), John Pedeferri (Agente Questura), Francesco Benedetto (Porteiro), Renato Liprandi (Chefe de Estação), Elisabetta Rocchetti (Rapariga no MacDonald’s), Rossella Lucà (Mara), Antonio Sarasso (Médico Legista), Piero Marcelli (Médico Legista), Giuseppe Minutillo (Anão), Giancarlo Colia (Adolfo Farina), Francesca Vettori (Mãe de Giacomo).