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Il fantasma dell'operaAbandonada em bebé, e criada pelas ratazanas que habitam nos subterrâneos da Ópera de Paris, uma criança criança cresce até se tornar adulta, aparecendo como o temido Fantasma (Julian Sands), que causa mortes entre os trabalhadores da Ópera, sempre que estes se aventuram mais do que devem. Mas quando o Fantasma ouve a jovem cantora Christine Daaé (Asia Argento), decide que os dois têm uma ligação, e vai promover a sua carreira, nem que para isso tenha que acabar com a da diva Carlotta Altieri (Nadia Rinaldi), enquanto se prepara a apresentação de “Fausto” de Gounod.

Análise:

Trabalhando pela terceira vez com a sua filha Asia, Dario Argento levava aos grandes ecrãs a sua versão do famoso romance “O Fantasma da Ópera”, da autoria de Gaston Leroux, publicado pela primeira vez entre 1909 e 1910, e já tantas vezes adaptado ao cinema. O próprio Argento já aflorara o tema, quando realizara “Terror na Opera” (Opera, 1987), um filme que usa o cenário e a premissa de um assassino que promove, com os seus crimes, a carreira de uma jovem cantora, em detrimento da de uma veterana, embora sem mais pontos de ligação entre as duas obras, nem qualquer alusão a fantasmas.

Já em “O Fantasma da Ópera”, a ligação é evidente, com a história a incidir na misteriosa figura do fantasma (Julian Sands), que sabemos a partir do prólogo que foi abandonado pelos pais, para que uma corrente levasse até aos canais subterrâneos sob a Ópera de Paris, onde as ratazanas cuidaram dele. Agora adulto, deixa-se fascinar pela jovem cantora substituta Christine Daaé (Asia Argento), que, assim que o conhece, sente que há uma ligação telepática entre ambos. Tal faz com que Christine, cortejada pelo barão Raoul De Chagny (Andrea Di Stefano), não dê a este muita atenção. Entretanto, as mortes sucedem-se sempre que alguns trabalhadores se aventuram nas galerias rochosas sobre as quais o teatro está assente. Quem vai também morrendo são as ratazanas, pelas mãos do caçador Ignace (István Bubik), que um dia sente uma força invisível colocar-lhe a mão na ratoeira e ser dolorosamente ferida. Entretanto, dois outros funcionários, apercebendo-se da existência do Fantasma, que vai tutorando Christine, seguem-no, na ânsia de lhe roubarem míticos tesouros, e acabam ambos mortos, o mesmo acontecendo a um idoso pedófilo que seguia uma pequena bailarina, iludindo-a com chocolates. Finalmente, o Fantasma chama Christine até si, conduzindo-a ao seu reduto subterrâneo, onde fazem amor. Após isso, o Fantasma volta ao teatro, e depois de a diva Carlotta (Nadia Rinaldi) se mostrar insensível às suas ameaças, ele deixa cair no público o grande candelabro, interrompendo o espectáculo, e ferindo a cantora. Ao saber o que se passou, Christine tenta repudiá-lo, mas ele viola-a. Quando acorda, Christine fica enojada a ver o Fantasma a brincar com as ratazanas no seu corpo e foge, sendo encontrada por Raoul, e declarando-lhe o seu amor. Trazida ao teatro, Christine toma o lugar de Carlotta na ópera, mas Ignace, que vira Christine com o Fantasma, acusa-a, e este, para a salvar, volta a raptá-la. Conduzidos por Ignace, a polícia chega ao covil do Fantasma, mas Raoul antecipara-se e, após ser ferido por ele, o Fantasma entrega-lhe Christine, para que a salve, deixando-se ficar para trás, sendo morto pela polícia.

Depois de “Terror na Ópera”, talvez não se esperasse que Dario Argento voltasse ao mesmo tema, agora numa versão mais próxima da obra de Gaston Leroux, seguindo os pontos e personagens principais da história. “O Fantasma da Ópera” é, por isso mesmo, o primeiro filme de época de Argento (note-se como as referências à época são muitas, com a presença de Gounod, de quem se encena “Fausto”, a de Degas, sempre a desenhar as pequenas bailarinas, e uma luta num banho turco sobre quem era melhor, Rimbaud ou Baudelaire), e também o primeiro drama romântico da sua carreira.

É claro que a ênfase principal do filme são as mortes macabras e o terror que se instala no teatro que serve de cenário a quase todo o filme. E aí temos os habituais momentos com que Argento gosta de chocar o público, que incluem um corpo cortado ao meio, outro empalado numa estalagmite, uma mão mutilada por uma ratoeira e semi-devorada por ratazanas, uma língua arrancada pela base com uma dentada, e até um seio arranhado até vermos sulcos de sangue. Mas Argento não se fica por aqui. Voltamos a ter uma violação; a sugestão de pedofilia com os anciãos que percorriam os corredores atrás das meninas bailarinas para lhes darem doces; e ratazanas, muitas ratazanas, as quais vemos mesmo numa sugestão de bestialidade, quando o Fantasma se despe para sentir o prazer de as ter sobre o seu corpo.

Sobre isto temos a história de Leroux, sobre a qual Argento toma muitas liberdades. O resultado não é o melhor, com o uso da ligação telepática entre o Fantasma e Christine, não só a torná-lo muito presente e prosaico, nem sequer usando máscara ou estando desfigurado (e embora Julian Sands pareça talhado para maldades demoníacas, ele não traz o medo de uma enigmática e fantasmagórica presença), como a própria Christine se torna uma marioneta sem saber o que quer (com Asia Argento a gritar desmesuradamente nalgumas cenas), dizendo que talvez ame dois homens, e fazendo escolhas sempre estranhas – note-se como foge do covil do Fantasma, e ainda quente da sua cama já diz a Raoul que o ama, e quando, de novo raptada, agride o Fantasma com uma pedra, para logo de seguida, quando levada por Raoul, gritar por ele chamando-o de amor.

É certo que o trabalho de cenografia e guarda-roupa são notáveis, atmosfera gótica do teatro – tanto nos bastidores, como nas galerias subterrâneas – é bem conseguida, e o trabalho de câmara, que se delicia com tantos espaços a explorar, é sempre eficaz. Mas nota-se alguma diluição no suspense de Argento. Há como que um cumprir de pontos-chave do livro, e quando o argumento se desvia, apenas resvala, dando-nos uma maior embrulhada romântica (e mais espaço para sexo), mas sem o suspense – e com muito menos crimes, diga-se – o resultado torna-se enfadonho, com personagens a mais sem qualquer função que não seja preencher espaço no ecrã.

Pela positiva destaca-se a bonita banda sonora de Ennio Morricone, a que se juntam passagens de Gounod, Delibes e Bizet.

Asia Argento e Julian Sands em "O Fantasma da Ópera" (Il fantasma dell’opera, 1998), de Dario Argento

Produção:

Título original: Il fantasma dell’Opera [Título inglês: The Phantom of the Opera]; Produção: Medusa Film / Rete Italia / Cine 2000; Produtor Executivo: Claudio Argento; País: Itália; Ano: 1998; Duração: 99 minutos; Distribuição: Medusa Distribuzione (Itália); Estreia: 20 de Novembro de 1998 (Itália), 19 de Novembro de 1999 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Dario Argento; Produção: Giuseppe Colombo, Áron Sipos; Argumento: Gérard Brach, Dario Argento [a partir do romance “Le Fantôme de l’Opéra” de Gaston Leroux]; Adaptação Inglesa: Giorgina Caspari; Música: Ennio Morricone, Maurizio Guarini (música adicional); Fotografia: Ronnie Taylor [filmado em Panavision]; Montagem: Anna Rosa Napoli; Design de Produção: Massimo Antonello Geleng; Figurinos: Ágnes Gyarmathy; Caracterização: Alessandro Bertolazzi; Efeitos Especiais: Sergio Stivaletti; Direcção de Produção: Tommaso Calevi.

Elenco:

Julian Sands (O Fantasma), Asia Argento (Christine Daaé), Andrea Di Stefano (Barão Raoul De Chagny), Nadia Rinaldi (Carlotta Altieri), Coralina Cataldi-Tassoni (Honorine), István Bubik (Ignace, O Caçador de Ratos), Lucia Guzzardi (Madame Giry), Aldo Massasso (Pourdieu), Zoltan Barabas (Poligny), Gianni Franco (Montluc), David D’Ingeo (Alfred), Kitty Kéri (Paulette), John Pedeferri (Dr. Princard), Leonardo Treviglio (Jerome De Chagny), Massimo Sarchielli (Joseph Buquet), Luis Molteni (Nicolaud), Enzo Cardogna (Marcel), Antonio Pupillo (Gustave), Domenica Coppolino (Mãe de Carlotta), Raffaella Milanesi (Dobragem de Voz de Canto de Asia Argento).