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TraumaA jovem Aura (Asia Argento) é encontrada por David (Christopher Rydell), quando se tenta suicidar atirando-se de uma ponte. Levada a sua casa, depois de descobrir que fugiu fugido da clínica onde estava internada para tratamento de anorexia, Aura assiste a um estanho cerimonial, que resulta no assassínio e decapitação dos seus pais, o que a faz procurar novamente David. Com este, Aura começa a investigar o estranho assassino conhecido como Caçador de Cabeças, o qual parece estar a matar todas as pessoas presentes numa foto que o par descobre em casa de uma das vítimas.

Análise:

Tal como acontecera no filme de antologia em colaboração com George A. Romero, “Os Olhos do Diabo” (Two Evil Eyes/Due occhi diabolici, 1990), para o qual contribuíra com o episódio “The Black Cat”, Dario Argento voltava a filmar nos Estados Unidos, neste início de nova década, num giallo falado em inglês, e onde a novidade era a presença no papel principal da sua filha, Asia Argento, então com 18 anos, e de certo modo herdando o papel da sua mãe Daria Nicolodi, até aí presença constante nos filmes do realizador.

O filme inicia-se com o assassinato, e posterior decapitação, de uma psicóloga que esperava alguém para uma consulta. Segue-se a imagem de uma jovem que corre numa ponte, e se tenta suicidar saltando. Esta é Aura (Asia Argento), salva por David (Christopher Rydell), que tenta cuidar dela. Mas Aura foge e é imediatamente capturada por dois homens que a levam a casa – uma mansão –, onde é recebida pelos pais, um casal romeno – Stefan (Dominique Serrand) e Adriana Petrescu (Piper Laurie) –, que lembram à jovem que não devia ter fugido da instituição psiquiátrica onde estava. Nessa noite, o casal recebe amigos para uma sessão espírita, e no decorrer algo assusta Adriana Petrescu que foge para a rua, perseguida pelo marido e filha. Aura apenas chega a tempo de ver o corpo da mãe decapitado no chão, e alguém que foge com o corpo do seu pai. No dia seguinte, Aura contacta Christopher, que já descobriu a identidade dela, e sua relação com as mortes do assassino conhecido como Caçador de Cabeças. Aura pede-lhe para a levar a casa, mas lá dentro ouvem ruídos, e fogem para o carro, que entretanto foi assaltado. Em pânico, Christopher e Aura fogem, e decidem que ela ficará na casa dele. Com o assédio do Dr. Judd (Frederic Forrest), psiquiatra de Aura, esta acaba internada à força na clínica de onde fugira. E nessa noite, enquanto Christopher tenta lá entrar para a libertar, mais uma enfermeira (Sharon Barr) é decapitada. Christopher e Aura voltam a fugir, levando as chaves da enfermeira, o que os induz a visitar uma arrecadação onde ela guarda objectos seus. Aí encontram uma foto que une todos os decapitados, a uma outra enfermeira (Hope Alexander-Willis) e a um antigo médico. Ao procurar a enfermeira, chegam tarde, e ela é decapitada. Finalmente, Christopher encontra o médico (Brad Dourif), mas este não quer falar, acabando decapitado pouco depois. Quando Christopher volta a casa, Aura não está, tendo deixado uma nota de que foi ter com a mãe, o que o leva a pensar que ela se terá suicidado. Chega então o Dr. Judd, para a tentar voltar a levar, mas a chegada a polícia fá-lo fugir, despistando-se e morrendo, enquanto do carro rolam as cabeças das vítimas decapitadas, assim incriminando-o. Com a polícia a encerrar o caso, Christopher vagueia errante, da dor de ter perdido Aura, quando vê alguém com a bracelete que ela costumava usar. Seguindo a pessoa, vai dar a uma casa, onde é atacado, e atirado para a jaula onde Aura está presa, revelando-se que o assassino é a sua mãe, que simulou a morte, para se vingar de todos aqueles que, muitos anos antes, foram responsáveis pela morte do seu filho, durante o parto, onde este foi decapitado por acidente. Mas quando a assassina entra na jaula para matar Christopher, um miúdo (Cory Garvin), seu vizinho, que já antes entrara na casa e conhecia o segredo do dispositivo metálico usado para as decapitações, usa isso para salvar o casal, decapitando Adriana Petrescu à frente da sua filha.

Nesta altura, à entrada da décadade 1990, já ciente de que não conseguiria deixar o giallo, Dario Argento, agora nos Estados Unidos, voltava à sua fórmula inicial, isto é: histórias macabras de serial killers misteriosos, num filme onde a identidade só se descobre no final, e onde os protagonistas são os «detectives» improvisados, que se tornam alvos principais.

Desta vez, começando numa sessão espírita, passando por sonhos de maus tratos numa clínica onde a protagonista – Aura – pode ter sofrido abusos, e tocando o tema da anorexia, “Trauma” tem o seu ponto macabro nas citadas decapitações, todas elas menos uma com ajuda de um dispositivo que aperta um fio metálico em torno do pescoço da vítima. Exceptua-se a da personagem de Dourif, que, com o dito dispositivo a encontrar resistência numa corrente de ouro, é feito decapitar por um elevador. Mesmo assim, nota-se uma maior contenção de Argento nas cenas de crime. Algumas das mortes ocorrem fora de campo, e o sangue não jorra tão generosamente como antes.

Com os crimes a ocorrerem sempre filmados pela habitual câmara subjectiva que nos dá a visão do criminoso, de que só se vêem as luvas negras, “Trauma” tenta ainda lidar com o elo que vai ligando as personagens de Christopher Rydell e Asia Argento. Ele um artista visual a trabalhar na televisão, ela uma jovem traumatizada, anoréctica e suicida, que vai descobrir que os pais foram assassinados, para no final perceber que a mãe, afinal, sobreviveu e é a criminosa. Acaba por ser muita coisa junta, não se percebendo que ideias Argento quer afinal desenvolver. Isto é, onde entra a sessão espírita, o facto de o assassino só matar quando chove, o trauma de Aura, e a anorexia em toda a trama? De facto são temas irrelevantes para o mistério.

Filmado nas ruas de Minneapolis (com muitas sequências nos exteriores), tendo os efeitos de maquilhagem de Tom Savini – colaborador de Romero – e banda sonora de Pino Donnagio, “Trauma” tem como pontos mais altos (se exceptuarmos o gosto mórbido que se possa ter por cabeças decepadas), as duas sequências de puro suspense passadas na casa misteriosa, onde o assassino se esconde. Estas, ambas protagonizadas pelo pequeno Cory Garvin, são um exemplo dos ensinamentos de Hitchcock, num jogo de gato e de rato entre o que a criança vê, e o que nós sabemos que poderá acontecer. Esse jogo de nos mostrar mais que à personagem, exacerba o perigo evidente, e faz-nos sofrer por antecipação, tal como o mestre inglês ensinava. Curiosa – e algo cómica – é também a cena da decapitação da enfermeira na clínica, de que vemos em sombra, observada por um dos doentes, que não reage ao que se passa, e ainda acena adeus ao criminoso – ou seja, à câmara.

Mas o que mais fica na memória é o imenso tempo de tela de Asia Argento, então muito inexperiente, com um péssimo inglês, e a expressar-se e comportar-se como uma criança de cinco anos. Isso aliado a diálogos fraquíssimos, e comportamentos e interpretações forçados de quase todos os actores, para lá do já citado argumento de muitas pontas soltas, torna “Trauma” uma experiência algo traumática.

O filme é, de certo modo, dedicado a uma meia-irmã de Asia Argento, Anna Ceroli (filha de Daria Nicolodi e Mario Ceroli), que sofria de anorexia, e que viria a morrer num acidente de moto em 1994. É ela que vemos dançar num alpendre, nas cenas finais.

Asia Argento em "Trauma" (1993), de Dario Argento

Produção:

Título original: Trauma; Produção: ADC Films / Overseas FilmGroup; Produtores Executivos: T. David Pash, Andrea Tinnirello; País: Itália / EUA; Ano: 1993; Duração: 112 minutos; Distribuição: Republic Pictures (EUA); Estreia: 12 de Março de 1993 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Dario Argento; Produção: Dario Argento; Produtor em Linha: Chris Beckman; História: Franco Ferrini, Gianni Romoli, Dario Argento; Argumento: Dario Argento, T. E. D. Klein; Diálogos Adicionais: Ruth Jessup; Música: Pino Donaggio; Orquestração: Pino Donaggio, Natale Massara; Direcção Musical: Victor Giukovl; Fotografia: Raffaele Mertes [filmado em Technovision, cor por Technicolor]; Montagem: Bennett Goldberg, Dario Argento [não creditado]; Design de Produção: Billy Jett; Direcção Artística: Nance Derby; Cenários: Jacqueline Jacobson Scarfo; Figurinos: Leesa Evans; Caracterização: Tom Savini; Efeitos Especiais: Paul Murphy; Efeitos Visuais: ; Direcção de Produção: Chris Beckman.

Elenco:

Christopher Rydell (David Parsons), Asia Argento (Aura Petrescu), Piper Laurie (Adriana Petrescu), Frederic Forrest (Dr. Judd), James Russo (Capitão Travis), Laura Johnson (Grace Harrington), Hope Alexander-Willis (Linda Quirk), Sharon Barr (Hilda Volkman), Dominique Serrand (Stefan Petrescu), Ira Belgrade (Arnie), Brad Dourif (Dr. Lloyd), Isabell O’Connor [como Isabell Monk] (Georgia Jackson), Cory Garvin (Gabriel Pickering), Terry Perkins (Mrs. Pickering), Tony Saffold (Ben Aldrich), Peter Moore (Mark Leneer), Lester Purry (Sargento Carver), David Chase (Sid Marigold), Jacqueline Kim (Alice), Rita Vassallo (Rita), Stephen D’Ambrose (Homem Pálido), Bonita Parsons (Mulher Principal), Gregory Beech (Homem de Negócios), Kevin Dutcher (John Miller, Homem Tímido), Kathy Quirk (Gare Grayson, Ruiva), E. A. Violet Boor (Mrs. Potter), Les Exodus (Músico Reggae), Onesmo Kibira (Músico Reggae), Innocent Mafalingundi (Músico Reggae), Charles Petrus (Músico Reggae), Lance Pollonais Músico (Reggae).