Etiquetas

, , , , , , , ,

Que le diable nous emporteCamille (Fabienne Babe) uma mulher já madura, encontra um telemóvel perdido. Ao combinar a sua entrega à proprietária, a bem mais jovem Suzy (Isabelle Prim), a conversa passa para sexo, devido a alguns vídeos ousados que a jovem tem no telemóvel, levando a mútua sedução, a que se junta depois Clara (Anna Sigalevitch), a companheira de Camille. A chegada violenta de Olivier (Fabrice Deville), obcecado com Suzy, leva as duas mulheres mais velhas a manter Suzy consigo, enquanto Clara vai tentar reabilitar o quase-suicida Olivier, regenerando-o em sua casa.

Análise:

Depois de atingir uma certa redenção crítica, com o sucesso do seu mais recente filme, “A Rapariga de Parte Nenhuma” (La fille de nulle part, 2012) – e com isso atraindo ainda mais a ira dos seus detractores, que não aceitavam que valor artístico pudesse ser julgado sem ter em conta os factos que o levaram a ser condenado anteriormente por assédio sexual –, Jean-Claude Brisseau filmou o seu último filme, a exemplo daquele, basicamente em interiores, usando extensamente o seu próprio apartamento e uma equipa pequena, feita de fiéis colaboradores. E para mostrar o que sentia em relação às críticas, não podia ter escolhido um título mais claro: “Que o Diabo Nos Carregue”, num momento em que voltava a filmar a sexualidade feminina, em cenas de grande exposição do corpo e sexo quase explícito.

Embora “Que o Diabo Nos Carregue” não tenha a sexualidade como tema principal, como o fizeram a trilogia constituída por “Coisas Secretas” (Choses secrètes, 2002) e de “Os Anjos Exterminadores” (Les anges exterminateurs, 2006), “À Aventura” (A l’Aventure, 2008), o sexo – principalmente entre mulheres, está sempre no cerne do enredo, como forma de o fazer avançar e desenvolver. Isso mostra-se logo na sequência inicial, quando Camille (Fabienne Babe) encontra um telemóvel perdido, e ao receber uma chamada da sua proprietária, Suzy (Isabelle Prim), para combinarem o retorno, acede sem querer a vídeos de sexo explícito. Combinando o encontro para casa de Camille, esta vê em Suzy uma jovem que não tem vergonha de contar a sua vida sexual, com múltiplos parceiros, sexo em locais públicos e vários desafios arriscados, como os citados vídeos. Em vez de chocar Camille, Suzy percebe que esta se interessa pela sua história, e ao convidá-la para o seu quarto, Suzy vê-o repleto de trabalhos fotográficos de Camille retratando sexo entre mulheres. As duas acabam na cama, e é lá que as descobre Clara (Anna Sigalevitch), amiga íntima de Camille e dona do apartamento, juntando-se a elas. Do sexo, as três mulheres passam às confissões. Camille conta como foi encontrada por Clara à beira da morte, sem auto-estima, perdida entre drogas e uma vida instável. A recuperação foi quase total graças à dedicação e carinho de Clara, e Camille sente que está a chegar o dia de voltar a enfrentar o mundo, mesmo sabendo que isso significa deixar Clara. Já Clara confessa que a sua vida é – além da composição musical – dedicada a Camille. As confissões são interrompidas quando Olivier (Fabrice Deville), ex de Suzy, chega violentamente, gritando, pontapeando, exigindo falar com Suzy, que não o quer ver. Olivier acaba indo para a rua, aos gritos, embriagado, e de pistola em punho ameaçando matar-se. É decidido que Suzy ficará no prédio, indo dormir no apartamento de cima, também propriedade de Clara, e onde vive o velho Tonton (Jean-Christophe Bouvet), espécie de filósofo agora que se reformou. Já Clara, apiedando-se de Olivier, leva-o a casa, para não ir preso.

No dia seguinte, já sóbrio, Olivier confessa a Clara que sem Suzy não quer viver, e Clara decide fazê-lo interessar-se noutras coisas, começando por ter sexo com ele, e depois incentivando-o a trabalhar numa tese académica sobre teatro. Em casa de Clara, Depois de Suzy ter estranhas visões de Tonton, que, em meditação ioga, aparece e desaparece, Camille é anfitriã de uma tensa reunião, onde mãe, padrasto e pai, decidem heranças. No final Camille conta a Suzy e Clara como foram os maus tratos do padrasto, que abusou dela a partir dos 13 anos, o que a levou numa vida de roubos, prostituição e auto-destruição. Entretanto, Clara volta ao apartamento de Olivier e vê que o seu trabalho está apenas no início, pois este voltou a beber. Decide ficar a vive com ele para o reeducar, e no processo, os dois apaixonam-se. Enquanto isso, Suzy, continuando a viver com Tonton, confessa-lhe que não sabe o que fazer da sua vida, que mentiu ao falar de uma vida sexual intensa, e de certo modo tem ciúmes de Camille por tornar o sexo uma arte.

Os dias passam, e Clara diz a Camille que ama Olivier como nunca amou ninguém nem mesmo a ela. Por isso, Clara não está presente quando Camille recebe o telefonema contando da morte do seu pai. Camille tem então de viajar, deixando recado com Suzy. Quando Suzy consegue falar com Clara, esta decide que é tempo de confrontar Olivier. Mas embora Olivier pareça apaixonado por Clara, ao ver Suzy, vai-se abaixo. Clara percebe que ele ainda ama Suzy, a qual confessa ainda amar Olivier. O trio decide então tentar uma experiência a três. E é na cama que estão juntos, quando Camille lhes telefona, contando que vai tomar conta da clínica que o pai deixou, e seguir ali a sua vida.

Assim, sem nunca hesitar em mostrar cenas sexuais, exibindo explicitamente o corpo feminino (note-se que dos momentos de sexo envolvendo Olivier nada vemos), Brisseau conta-nos uma história de estrutura mais complexa que as anteriores, onde o que está em jogo é a auto-descoberta, no entender do papel dos outros nas nossas vidas. Amamos o outro, ou apenas a ideia de amar? Amamos apenas porque precisamos de algo? Conseguimos amar se não sabemos quem somos? São algumas das perguntas que Brisseau faz no decorrer do seu filme, que para muitos não passará de mais uma prova da sua depravação que o faz obcecar com o sexo no feminino.

Cada personagem representa um estágio diferente dessa descoberta. Temos como base Clara, habituada a ajudar os outros, que vê como projectos de reabilitação, altruisticamente (?), e que embora numa relação estável com Camille, imune ao ciúme quando chega Suzy, sabe que a relação é temporária, e está certa de si quando se apaixona por Olivier (a exemplo de Camille outro projecto a precisar de ajuda). À sua volta temos, primeiro Camille, a mulher destruída, que agora se recompõe, viu no sexo e nas relações apenas dor e abuso, mas aprendeu com Clara que pode ser livre para ser feliz e poder amar. Temos depois Suzy, a jovem que busca uma forma de afirmação, dando-se a diversos parceiros, não se querendo prender a nenhum, não querendo pensar no dia de amanhã, mas de repente questionando quem é e o que é o amor. E temos, finalmente, Olivier, o homem dilacerado pelo fim de uma relação, mas que reaprende a viver, se reapaixona, substituindo uma obsessão por outra, e por fim aceita que o seu afecto esteja dividido.

Há ainda um pequeno reeditar da história de “A Rapariga de Parte Nenhuma”, quando Suzy conhece Tonton. Tal como no filme anterior, ela confessa o seu medo em formar laços, e tal como nele, ouve os conselhos e exemplos do velho co-locatário. Mas ao contrário de no filme de 2012, aqui a interacção é só num sentido, já que Tonton não parece tirar nada dos encontros com Suzy.

Filmado essencialmente nos apartamentos (Clara, Tonton e Olivier), e sempre com aquele espectro de observação sobrenatural que víramos tão assustadoramente em “A Rapariga de Parte Nenhuma” – voltamos aqui a ter aparições inexplicáveis, e visões sobrenaturais –, “Que o Diabo Nos Carregue” é ferido de um mau uso de efeitos especiais (as cenas de sobreposição que mostram os corpos nus sobre fundos cósmicos são quase amadoras), o qual tenta trazer uma aura de misticismo que, por querer ser tão explícita, perde quando em comparação com a subtileza da usada em “A Rapariga de Parte Nenhuma” ou em “Os Anjos Exterminadores”.

No final, para além da mensagem da sua narrativa, “Que o Diabo Nos Carregue” quer mostrar-nos que é possível fazer um cinema de ideias claras e técnicas modestas, como se nos propusesse (em continuidade com o seu filme anterior) uma reinvenção, como aquelas que o seu personagem Olivier estuda na tese que mostra a evolução da arte de representação ao longo dos tempos.

Quanto ao que se aprende, nesta busca entre o amor e um misticismo cósmico sugerido, quer pelo ioga, quer pelas imagens celestiais, se calhar fica só o riso do plano final.

Isabelle Prim e Fabienne Babe em "Que o Diabo Nos Carregue" (Que le diable nous emporte, 2018), de Jean-Claude Brisseau

Produção:

Título original: Que le diable nous emporte [Título inglês: Tempting Devils]; Produção: La Sorcière Rouge / La Traverse / Centre National du Cinéma et de l’Image Animée / Cinémage 11; País: França; Ano: 2018; Duração: 98 minutos; Distribuição: Les Acacias (França), Leopardo Filmes (Portugal); Estreia: 11 de Janeiro de 2018 (França), 15 de Março de 2018 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jean-Claude Brisseau; Produção: Jean-Claude Brisseau, Gaël Teicher; Argumento: Jean-Claude Brisseau; Música: Anna Sigalevitch; Fotografia: David Grinberg; Montagem: María Luisa García; Design de Produção: Monita Del Monte; Figurinos: Monita Del Monte; Caracterização: Marie-Laure Texier.

Elenco:

Fabienne Babe (Camille), Isabelle Prim (Suzy), Anna Sigalevitch (Clara), Fabrice Deville (Olivier), Jean-Christophe Bouvet (Tonton), Anna Zaverihua, Marie-Thérèse Eychard (Mãe de Camille), François Eychart (Padrasto de Camille), Jean-Claude Brisseau (Pai de Camille).

Advertisement