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PhenomenaNas montanhas da Suíça, onde algumas raparigas desaparecem às mãos de um misterioso assassino, a jovem Jennifer (Jennifer Connelly), filha de um famoso e rico actor de cinema, vem estudar numa escola de excelência para raparigas. Afligida por episódios de sonambulismo, e estranhamente guiada por insectos que parecem comunicar com ela por poderes psíquicos, Jennifer vai descobrir a morte da sua colega de quarto (Federica Mastroianni), e atrair a desconfiança das restantes colegas. Sentindo-se ameaçada, Jennifer procura a companhia do velho entomologista John McGregor (Donald Pleasence) que, através de larvas e de Jennifer, engendra um plano de chegar à verdade sobre o assassino.

Análise:

Desta vez também responsável pela produção, Dario Argento realizava em 1985 um filme que bebia muito do seu anterior sucesso “Suspiria” (1977), onde a protagonista – tal como naquele filme uma norte-americana que vem estudar para a Europa – era a jovem Jennifer Connelly, então conhecida apenas como a menina de “Era Uma Vez na América” (Once Upon a Time in America, 1984), de Sergio Leone, um antigo companheiro de Argento. O género era de novo o thriller de crime e terror envolvendo assassinatos em série e mortes macabras e sangrentas.

Desta vez, tudo se passa na Suíça, onde a jovem Jennifer (Jennifer Connelly), filha de um famoso e rico actor de cinema, vem estudar numa escola de excelência para raparigas, sob a alçada de Frau Brückner (Daria Nicolodi). A região vive algum medo, com o desaparecimento de raparigas, uma delas encontrada morta meses depois, como o inspector Geiger (Patrick Bauchau) descobre com o auxílio do entomologista professor John McGregor (Donald Pleasence), que através do estudo de larvas que se alimentam de carne putrefacta consegue estimar a data da morte. Na escola, Jennifer trava amizade com a Sophie (Federica Mastroianni), a rapariga que descobre que ela é sonâmbula. Jennifer caminha no sono e sonha ou testemunha uma morte, acordando perdida no meio de nada, e indo ter a casa de McGregor. O amor de Jennifer pelos insectos e o modo como estes lhe reagem favoravelmente leva o professor McGregor e Jennifer a criarem um laço de amizade, principalmente após mais uma noite de sonambulismo, onde Jennifer vai descobrir o corpo de Sophie, morta pelo assassino, o que cria desconfiança em relação a ela, na escola. Com os médicos a quererem internar Jennifer, esta foge para casa de McGregor, que lhe confia uma mosca que servirá de bússola para a casa onde o assassino esconde os cadáveres. Jennifer vai ter a uma casa na floresta, mas é apanhada pelo agente imobiliário, que a expulsa. Voltando, Jennifer vê que McGregor foi assassinado, e temendo pela sua vida, procura ajuda no banco, depois de pedir dinheiro para deixar a Suíça. Mas quem a encontra é Frau Brückner que a leva para sua casa, onde revela um comportamento estranho. Quando o inspector Geiger chega, Brückner ataca-o, e Jennifer, em pânico, consegue fugir, sendo perseguida pelo filho de Brückner, uma criança desfigurada, que era o assassino, que a sua mãe tentava proteger. Após uma luta no bote que Jennifer usa para fugir, este incendeia-se e ambos caem ao lago, com o rapaz a ser atacado por abelhas, e Jennifer a conseguir nadar para terra, onde é encontrada pelo assistente do seu pai (Mario Donatone). Só que este é morto por Brückner, que depois tenta matar Jennifer, salva por Inga, a chimpanzé devota a McGregor.

Sendo habitualmente descrito como um giallo, isto é, um thriller policial sobre o mistério da identidade de um serial killer, “Phenomena” é um giallo diferente, que deve muito a “Suspiria”. Embora sem muito da atmosfera irreal (e surreal) de “Suspiria” – afinal o assassino e o mistério nada têm de sobrenatural –, há pontos em comum, não só na estrutura da história (uma jovem norte-americana que, chegada a uma escola de elite na Europa, começa a testemunhar crimes, para se tornar alvo principal, e por fim solução), mas também numa certa atmosfera onírica, que tornava “Suspiria” tão especial.

Não só vemos os crimes ocorrerem à noite, como Jennifer tem momentos de sonambulismo, que a fazem, de certo modo, ligar-se a essas ocorrências, pressentindo os crimes e dirigindo-se a eles nos seus eventos. O próprio sonambulismo, em que vemos distorções da realidade pelos olhos de Jennifer, trazem uma carga irreal, muitas vezes não se percebendo se o que se vê é verdadeiro ou ilusão. Há mesmo uma distorção espacial (não só nos corredores ilusórios percebidos por Jennifer), em que Jennifer caminha por locais que não conhece, acordando distante, sem se perceber como lá chegou. Como se grande parte do filme fosse um sonho, e nem todos os pontos tenham que estar ligados. Outros dois momentos que concorrem para esta estética são: a fuga da casa de Brückner – primeiro por um estreito túnel, e depois por corredores labirínticos –, e a sequência sub-aquática, na qual Jennifer tem de se libertar do seu fantasmagórico perseguidor na paisagem feérica que é o lago em chamas.

Note-se, por exemplo, a sequência inicial, com uma rapariga que vai ter à floresta, para ser atacada por uma figura misteriosa, que a faz embater de cabeça num vidro que se parte e se espeta na sua cara. Logo de seguida a sua cabeça é decepada e rola por um precipício (para mais tarde a encontrarmos coberta de vermes e já putrefacta). Fica desde logo a ideia (não só da violência e macabro que estão sempre presentes na obra de Argento) de que estamos em território de contos de fadas, mas deturpadas com perversão e terror.

Há depois, nesta história da noite – onde se conta que nenhum homem entra na escola, e onde vemos Sophie ter uma escapada erótica para depois ser morta – toda a componente da percepção extra-sensorial, que torna Jennifer especial, por ter ligação com os insectos (estes protegem-na, guiam-na, e atacam quem a maltrata), a qual ganha um contorno interessante no momento em que um moscardo – segundo as explicações do professor McGregor – manifesta o seu interesse sexual na rapariga, libertando feromonas e comportando-se como que a fazer a corte. De McGregor diga-se ainda que, interpretado por Donald Pleasance, acaba por ser a recorrente aparição deste actor como o arauto da desgraça e conselheiro dos heróis, como, por exemplo, nos filmes de John Carpenter.

Assim, entre o típico giallo e uma atmosfera onírica onde a identidade do assassino é perfeitamente secundária, “Phenomena” é essencialmente pasto para o macabro de Argento, desta vez com ataques de abelhas, objectos cheios de vermes, mortes sangrentas com um estilete de ponta aguçada, decepações, auto-mutilação de uma mão, e por fim a morte final, com a chimpanzé a cortar repetidamente Brückner com uma navalha de barba.

Embora com um argumento algo irrealista (por exemplo: que seja confiada a Jennifer a tarefa de descobrir o assassino parece ridículo, para já não falar da sua relação com os insectos, mas afinal esse irrealismo é imagem de marca do onirismo de Argento), e interpretações que deixam muito a desejar, “Phenomena” – que conta com música dos Goblin, Simon Boswell e bandas de heavy Metal como Iron Maiden e Motörhead – foi novamente bem recebido pelos fãs do realizador, e distribuído internacionalmente. Nos Estados Unidos, como vinha acontecendo, o filme foi fortemente cortado (para 83 minutos), desta vez pela New Line Cinema, que o exibiu com o novo título “Creepers”.

Em 2001, Dario Argento começou a preparar uma sequela de “Phenomena”, mas o projecto não teria continuidade por quebra de contrato com a produtora.

Jennifer Connelly em "Phenomena" (1985), de Dario Argento

Produção:

Título original: Phenomena [Título alternativo: Creepers]; Produção: DACFILM Rome; Produtor Executivo: Angelo Iacono; País: Itália; Ano: 1985; Duração: 105 minutos; Distribuição: Titanus (Itália), New Line Cinema (EUA); Estreia: 31 de Janeiro de 1985 (Itália), Dezembro de 1987 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Dario Argento; Produção: Dario Argento; Argumento: Dario Argento, Franco Ferrini; Música: Bill Wyman, Iron Maiden, Motorhead, Simon Boswell, Andy Sex Gang, The Goblin, Claudio Simonetti, Fabio Pignatelli; Fotografia: Romano Albani [filmado em Panavision, cor por Technicolor]; Montagem: Franco Fraticelli; Design de Produção: Maurizio Garrone, Nello Giorgetti, Luciano Spadoni, Umberto Turco; Figurinos: Giorgio Armani; Caracterização: Pierantonio Mecacci; Efeitos Especiais: Antonio Corridori, Danilo Bollettini [não creditado]; Efeitos Visuais: Luigi Cozzi; Direcção de Produção: Angelo Iacono, Cesare Jacolucci.