Etiquetas

, , , , , , , , , , , , ,

4 mosche di velluto grigio Roberto Tobias (Michael Brandon) é um baterista rock em Itália. Um dia, após começar a ver um homem que o segue por toda a parte, Roberto confronta-o violentamente, e o homem (Calisto Calisti) acaba apunhalado por acidente. Nesse momento, Roberto vê que um vulto mascarado testemunhou e fotografou tudo. A partir daí, Roberto começa a receber em casa fotos do crime, e objectos da vítima. Quando a presença do perseguidor se faz notar na própria casa de Roberto, este, já fora de si, tem de contar tudo à esposa Nina (Mimsy Farmer), e acaba por aconselhar-se com o amigo Diomede (Bud Spencer), que lhe diz para contratar um detective privado (Jean-Pierre Marielle), enquanto as mortes continuam e Roberto se sente cada vez mais ameaçado.

Análise:

Com o seu terceiro filme, “Quatro Moscas de Veludo”, Dario Argento completava o que ficaria conhecido como a «trilogia dos animais», isto é, um conjunto de três filmes de temática semelhante, no estilo giallo – ou seja, um mistério criminal em torno de um serial killer – e com animais no título, como foram “O Pássaro com Plumas de Cristal” e “O Gato das Sete Vidas” (mesmo que, exceptuando o primeiro filme, esses animais estejam apenas presentes em sentido figurado). Novamente numa produção de Salvatore Argento, e com música de Ennio Morricone (que se incompatibilizou com Argento no decorrer deste filme), havia novamente uma aposta num elenco internacional, com vista a uma mais fácil penetração em mercados estrangeiros, o que levou o filme a ser protagonizado pelo americano Michael Bandon, que mais tarde ficaria famoso pela série policial “Dempsey e Makepeace” (1985-1986).

Roberto Tobias (Michael Brandon), um baterista rock, vê-se perseguido a toda a hora, e confronta o seu perseguidor, mas por acidente mata-o, enquanto alguém o fotografa em pleno delito. Mais tarde, Roberto começa a receber fotos do acidente, por alguém que entra em sua casa, deixando objectos do morto, como o bilhete de identidade, nomeando-o como Carlo Marosi (Calisto Calisti). Depois de ser agredido, e de a sua esposa Nina (Mimsy Farmer) notar o seu nervosismo, Roberto conta a verdade, procurando depois o amigo Diomede (Bud Spencer), que o aconselha a contratar o detective privado Gianni Arrosio (Jean-Pierre Marielle). As mortes continuam, primeiro a empregada de Roberto, Amelia (Marisa Fabbri), por esta ameaçar revelar a identidade do perseguidor, depois a do próprio Carlo Marosi, que afinal estava vivo, num plano para incriminar Roberto, mas que agora queria revelar a verdade. Cada vez mais paranóico, Roberto manda a esposa embora, para sua protecção, ficando com a prima desta Dalia (Francine Racette), com quem começa uma relação ilícita. Entretanto o assassino mata o detective, que estava a ponto de descobrir quem ele era, e em mais uma visita a casa de Roberto, mata Dalia. Aqui, a polícia tem a ideia de analisar a retina de Dalia, para tentar obter a última imagem por ela vista, mas o resultado é a imagem do que parecem quatro moscas, desfocadas. Quanto a Roberto, decide que o melhor é esperar em casa, armado. Mas quem chega é Nina que o quer convencer a partir com ela. Na discussão, Roberto nota o pendente do seu fio, com uma mosca presa em âmbar, percebendo assim que é ela a assassina. Nina confessa ser a assassina, e querer vingar-se, através dele, do seu pai, que a traumatizou em criança levando-a ao manicómio de onde só saiu quando o pai morreu. Os dois lutam, e Nina foge de carro, tendo um acidente, e morrendo decapitada, tal como no sonho recorrente de Roberto, onde via sempre alguém ser decapitado num lugar da Arábia.

Diz-se que Dario Argento pretendia, com este terceiro giallo, encerrar um capítulo e mudar de género. Compreende-se que, na mente do autor (e talvez do público, hoje), a sua mensagem estivesse esgotada, e “Quatro Moscas de Veludo” parece apenas «mais um». Mantendo a identidade dos seus filmes, e desta vez dividindo os créditos da ideia com Luigi Cozzi e Mario Foglietti, Argento voltava a usar a sua conhecida fórmula: um assassino misterioso cuja identidade só descobriremos no fim, mas que sabermos ser certamente uma personagem central; razões algo freudianas; um detective inusitado, que se torna o alvo principal; e, claro, crimes macabros, precedidos de longas sequências de preparação, em que podemos até ver como o assassino os planeia, sempre pelos seus olhos, sem vemos mais que as suas mãos enluvadas. Desta vez, essas sequências são ainda mais longas, no sentido de enervar o espectador, que tem tempo para saber o que vai acontecer, sem poder fazer nada para o evitar.

O macabro continua presente: nos gritos da empregada Amelia que sabemos a ser assassinada do outro lado de um muro, e da qual só vemos as unhas que arranham ruidosamente a pedra; no gato que é decepado; no estrangulamento por um arame, de Marosi, o qual vemos ser torneado lenta e detalhadamente no seu pescoço; na queda de Dalia, cuja cabeça acompanhamos em close up quando cai pelas escadas; no modo como vemos a seringa entrar com todo o pormenor no peito de Arrosio; e por fim na cena da decapitação de Nina.

Esta última é, aliás, sintomática do modo de estar de Argento: mostrando-nos a colisão em câmara lenta, não é o susto, ou a exuberância dos efeitos especiais que o realizador nos quer trazer, mas sim o tempo de imaginarmos o acidente, e a sugestão das imagens que vão povoar a nossa mente, para mais em consonância com o subliminar da temática do sonho recorrente de Roberto, com decapitações numa praça.

Essa aposta num maior (por ser mais demorado) suspense (para o qual se usou uma câmara com maior número de fotogramas por segundo) concorre com a crescente aposta nalgum tipo de onirismo, que viria a marcar a futura carreira de Argento. Senão veja-se a constante «fuga» para os ambientes nocturno – a empregada começa a sentir o seu perseguidor durante o dia, para de repente se ver a fugir dele à noite, como se estivéssemos num sonho, sem o realismo da passagem do tempo –, tanto no caso das mortes, como nos cenários da casa de Roberto, que nos surge sempre na penumbra e em chiaroscuros pesados. Por fim, temos os próprios sonhos de Roberto, e alusões de flashbacks do passado, que, se não retiram o filme do terreno do realismo policial, já lançam algumas pistas de como as paisagens surreais vão começar a povoar os filmes de Dario Argento nos anos seguintes.

Criticado pelas falhas de argumento e pelos diálogos (as dobragens raramente ajudam), e elogiado pelo criar de tensão, e pelas suas soluções visuais, o filme contribuiu para entronizar Argento como mestre do suspense no cinema de terror italiano. Seguir-se-ia uma completa – e mal sucedida – mudança de género, na comédia “Cinco Dias em Milão” (Le cinque giornate, 1973), cujos resultados o trariam de volta ao giallo com o muito celebrado “O Mistério da Casa Assombrada” (Profondo rosso, 1975).

“Quatro Moscas de Veludo” tem ainda o aliciante extra de vermos Bud Spencer num papel bem diferente daqueles que o viriam a popularizar nos anos seguintes.

Michael Brandon e Bud Spencer em "Quatro Moscas de Veludo" (4 mosche di velluto grigio, 1971), de Dario Argento

Produção:

Título original: 4 mosche di velluto grigio [Título inglês: Four Flies on Grey Velvet]; Produção: Seda Spettacoli / Universal Productions France; País: Itália / França; Ano: 1971; Duração: 103 minutos; Distribuição: Cinema International Corporation (CIC) (Itália); Estreia: 17 de Dezembro de 1971 (Itália).

Equipa técnica:

Realização: Dario Argento; Produção: Salvatore Argento; História: Dario Argento, Luigi Cozzi, Mario Foglietti; Argumento: Dario Argento; Diálogos: Giorgio Piferi; Música: Ennio Morricone; Direcção Musical: Bruno Nicolai; Fotografia: Franco Di Giacomo [filmado em Techniscope, cor por Technicolor]; Montagem: Françoise Bonnot; Design de Produção: Enrico Sabbatini; Figurinos: Enrico Sabbatini; Caracterização: Giuliano Laurenti; Efeitos Especiais: Dino Galiano, Carlo Rambaldi [não creditado]; Direcção de Produção: Angelo Iacono.

Elenco:

Michael Brandon (Roberto Tobias), Mimsy Farmer (Nina Tobias), Jean-Pierre Marielle (Gianni Arrosio), Francine Racette (Dalia), Bud Spencer (Diomede / Godfrey), Aldo Bufi Landi (Patologista), Calisto Calisti (Carlo Marosi), Marisa Fabbri (Amelia, A Empregada), Oreste Lionello (O Professor), Fabrizio Moroni (Mirko), Corrado Olmi (Porteiro), Stefano Satta Flores (Andrea), Laura Troschel [como as Costanza Spada] (Maria), Dante Cleri (Vendedor de Caixões), Guerrino Crivello (Rambaldi, O Vizinho), Gildo Di Marco (Carteiro), Tom Felleghy (Comissário Pini), Leopoldo Migliori (Músico), Fulvio Mingozzi (Director do Estúdio Musical), Stefano Oppedisano, Pino Patti (Participante no Funeral), Ada Pometti (Figurante), Jacques Stany (Psiquiatra), Cesare Barbetti (Dobragem de Voz de Aldo Bufi Landi e de Renzo Marignano) [não creditado], Gianfranco Bellini (Dobragem de Voz de Gildo Di Marco) [não creditado], Roberto Chevalier (Dobragem de Voz de Fabrizio Moroni) [não creditado], Pino Colizzi (Dobragem de Voz de Jacques Stany) [não creditado], Luciano De Ambrosis (Dobragem de Voz de Calisto Calisti) [não creditado], Arturo Dominici (Dobragem de Voz de Pino Patti) [não creditado], Vittoria Febbi (Dobragem de Voz de Francine Racette) [não creditada], Sergio Graziani (Dobragem de Voz de Bud Spencer) [não creditado], Pino Locchi (Dobragem de Voz de Jean-Pierre Marielle) [não creditado], Melina Martello (Dobragem de Voz de Mimsy Farmer) [não creditada], Mario Mastria (Dobragem de Voz de Fulvio Mingozzi) [não creditado], Giorgio Piazza (Dobragem de Voz de Tom Felleghy) [não creditado], Massimo Turci (Dobragem de Voz de Michael Brandon) [não creditado], Serena Verdirosi (Dobragem de Voz de Costanza Spada) [não creditada].