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La fille de nulle part Michel (Jean-Claude Brisseau) é um professor retirado, há muito viúvo, que vive só, num enorme apartamento, rodeado por tudo o que tem a ver com o seu mundo: literatura, cinema e filosofia. A sua solidão e pacatez é um dia interrompida quando assiste ao espancamento da jovem Dora (Virginie Legeay) nas escadas do seu prédio, e a recolhe para cuidar dela, já que esta não quer médicos nem polícia. Com alguma tensão e desconfiança mútua a princípio, a relação evolui para sincero afecto quando ambos, sem se conhecerem, e nada terem em comum, parecem poder trazer ao outro algo que lhes falta.

Análise:

Em 2012, Jean-Claude Brisseau apresentava, no Festival de Locarno, na Suíça, um modesto filme quase caseiro, quando se pensava que o realizador já se havia retirado. O filme venceria o Leopardo de Ouro, o prémio mais alto desse reputado festival, mas nem por isso viria a vencer as barreiras do estigma que há anos perseguia Brisseau, ligadas a escândalos de natureza sexual – para mais quando presentes nas temáticas dos seus filmes – e que o levaram mesmo à prisão. Assim, “A Rapariga de Parte Nenhuma” acabou por ter uma distribuição modesta, e um percurso discreto nas salas de cinema europeias.

Sendo talvez um dos seus filmes mais pessoais, e aquilo a que os críticos gostam de chamar “filme-testamento”, “A Rapariga de Parte Nenhuma” corta completamente com a temática dos filmes anteriores – virados para o papel do sexo e do prazer sexual – para nos trazer a história de Michel (interpretado pelo próprio Brisseau), um intelectual, viúvo há muitos anos, a viver sozinho, dedicando-se ao trabalho, neste caso a escrita de um livro sobre as desilusões e o modo o mundo nos atira para elas, seja nas convenções pessoais (amizade, amor, relações familiares), ou nas colectivas (religião, mitos, instituições).

Quer o acaso (se foi mesmo o acaso…) que à sua porta venha ter uma jovem rapariga, de nome Dora (Virginie Legeay), que Michel vê ser espancada por um ex-amante. O ancião recolhe a jovem em sua casa, e perante a recusa desta em deixar-se ver por um médico ou pela polícia, Michel vai insistindo para que ela fique consigo até se recompor, já que Dora confessa não ter ninguém, nem nenhum lugar onde ficar. E se a relação é tensa a princípio, com as evidentes desconfianças nas intenções de parte a parte, a curiosidade vai vencendo, e Michel e Dora habituam-se à presença um do outro, que os vai divertindo, mesmo que aparentemente continuem a insistir numa distância entre ambos.

Dora intromete-se e questiona a vida de Michel, o qual está habituado à solidão. Ela limpa-lhe a casa e quer saber do seu trabalho. Já Michel, mesmo que aos olhos do amigo médico Denis (Claude Morel) pareça louco, agrada-se dessa mudança na rotina, vê nas perguntas de Dora e um estímulo para o seu trabalho, e quer fazer algo por ela, por exemplo sua herdeira. Dora, avessa a amarras, recusa qualquer mudança no seu estatuto que a faça sentir remorsos no momento de desaparecer, algo que Michel, ser gregário, a lutar ainda lutas antigas e agarrado a memórias do passado, não consegue compreender. Como se não bastasse, Dora parece trazer consigo uma capacidade de contactar o além, e se aquilo que adivinha de Michel parece simples brincadeira, aos poucos, certos fenómenos tornam-se difíceis de explicar, como uma sessão espírita em que o pé de uma mesa desenha uma foto da falecida esposa de Michel; ou o aparecimento da figura da morte. Recusando-se sempre a acreditar no que vê, Michel completa o livro e vai celebrar com Dora, quando é esfaqueado por um assaltante, morrendo à frente desta.

Filmado na sua maioria dentro do apartamento de Michel (decorado com muitas estantes de livros, DVDs e cassetes VHS, com cartazes de cinema e fotos de actores a lembrar-nos que Brisseu está a homenagear a presença do cinema na sua vida, pois aquele é, afinal, o apartamento do próprio Brisseau), “A Rapariga de Parte Nenhuma” começa com referências a Freud e sua relação com os mitos, na sua ideia de sonhos colectivos ou primordiais que estão presentes no nosso subconsciente. Sempre com essa ideia do sonho como ilusão que nos condiciona a vida, e onde as desilusões nos chegam de todo o lado, desde os entes mais queridos às histórias que aprendemos desde crianças, Brisseau parece mostrar-nos um protagonista desiludido, racionalizando essa desilusão como única forma possível de aceitar uma solidão que, mais que física e circunstancial, é a solidão inerente à condição humana.

Com esse ponto de partida, e o lado algo fantástico que nos vai surgindo aqui e ali, nas aparições ou visões que Michel e Dora vão tendo (os ruídos fantasmagóricos na despensa; a figura de branco que persegue Michel com uma faca quando este tem um colapso; a figura de negro tão alta que chega ao tecto; a mesma figura de negro que beija e envolve o corpo nu de Dora; o próprio Michel que se despede, já depois da sua morte; etc.), pode fazer-nos ver o filme num outro nível em que são os sonhos e desejos de Michel que criam toda a história. Nesse sentido, a rapariga, de quem nada sabemos, e cuja aparição tem tanto de fantástico, pode ser apenas uma fantasia de Michel, que chega a ver nela a reencarnação da sua mulher. Nesse domínio do fantástico, tudo o que vemos não passa de alegorias dos episódios que Michel vive: a saudade da mulher, os problemas de saúde, a relação com a solidão, e a sombra inevitável da sua morte.

Mas aquilo que talvez mais nos toque em “A Rapariga de Parte Nenhuma” é a candura que rapidamente se estabelece numa relação improvável, e difícil de aceitarmos no domínio do real (desde quando um intelectual ancião receberia em sua casa uma possível delinquente sem eira nem beira, e desde quando uma rapariga tão jovem aceitaria ficar vulnerável em casa de um homem sozinho, não se coibindo de andar semi-nua pela casa?). Mesmo em permanente conflito, e com objectivos bem diversos (ele procurando quem o retire um pouco da sua cinzenta solidão, ela querendo ser aceite por quem é, livre e sem amarras), a dinâmica é estimulante, fazendo que os dias de ambos ganhem ritmo e sentido.

Com Mahler como banda sonora, referências a cinema aqui e ali, e um Brisseau que parece interpretar-se a si próprio, a contas com a vida, e na solidão a que indústria, público e crítica o votaram, “A Rapariga de Parte Nenhuma” é um pequeno conto, como aqueles que Michel estuda para o seu livro, onde sonhos, fantasias, memórias e remorsos se insinuam levemente, eles que são os verdadeiros fantasmas que nos assombram. No fim, morte, esperança, sonho, beleza e terror estão sempre de mãos dadas, observando-se coexistindo tranquilamente, como um ancião e uma jovem rebelde que não se conhecem de parte nenhuma.

Jean-Claude Brisseau e Virginie Legeay em "A Rapariga de Parte Nenhuma" (La fille de nulle part, 2012), de Jean-Claude Brisseau

Produção:

Título original: La fille de nulle part [Título inglês: The Girl from Nowhere]; Produção: La Sorcière Rouge; Produtores Executivos: ; País: França; Ano: 2012; Duração: 91 minutos; Distribuição: Les Acacias (França), Leopardo Filmes (Portugal); Estreia: 8 de Agosto de 2012 (Festival de Locarno, Suíça), 6 de Fevereiro de 2013 (França), 25 de Abril de 2013 (Portugal).

Equipa técnica:

Realização: Jean-Claude Brisseau; Produção: Jean-Claude Brisseau; Argumento: Jean-Claude Brisseau; Música: ; Orquestração: ; Fotografia: David Chambille; Montagem: Maria-Luisa Garcia, Julie Picouleau; Design de Produção: Clemence Bry, Maria-Luisa Garcia; Figurinos: Maria-Luisa Garcia.

Elenco:

Jean-Claude Brisseau (Michel Deviliers), Virginie Legeay (Dora), Claude Morel (Denis), Lise Bellynck (Lise Villers), Anne Berry (A Morte), Emmanuel Noblet (Executor), Sébastien Bailly (O Louco).